domingo, 16 de setembro de 2018

O ENSINO DE FILOSOFIA AOS JOVENS ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO UMA PROPOSTA CONSCIENTIZADORA


O ENSINO DE FILOSOFIA AOS JOVENS ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO UMA PROPOSTA CONSCIENTIZADORA

“A filosofia é um despertar para ver e mudar o mundo” (Merleau-Ponty)



Uma jovem estudante de filosofia no ensino médio ao ser inquietada com a pergunta para quê filosofia? Disse aos colegas da sala que filosofia é a componente curricular em que “o professor navega e os alunos bóiam”, ela não deixa de ter razão; mas “o boiar” tem diversas causas: os jovens foram impedidos de serem pensadores a não ser quando assumia esta tarefa a revelia, outros professores constataram esta mesma problemática e compactuam da ideias de que é a filosofia é o  componente curricular que devolverá ao jovem a ousadia de protestar de forma inteligente e exercer sua cidadania ativa, mas este salto de qualidade tem como protagonista os próprios jovens estudantes de filosofia. É tarefa da filosofia:
ü  Estimular o espírito crítico sem assumir atitude dogmática e/ou doutrinária;
ü  Valorizar no educando a busca de uma “atitude filosófica” face às questões de diversos âmbitos em vista de proporcionar uma reflexão crítica e formadora de opinião dialética;
ü  Debater tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando de posição em face de argumentos mais consistentes;
É obvio que o ensino de filosofia só a partir do ensino médio não é a solução! Há muitas experiências de filosofia para as crianças, à volta de uma componente curricular que estava ausente da vida escolar (a filosofia) contribuirá para que os jovens percebam que existe uma pluralidade de teorias filosóficas, discussões sistemáticas e metódicas que lhes possibilitarão uma melhor visão de mundo e da realidade, ajudando-os a exercitarem o senso crítico, ou seja: a restituir-lhes o rigor no pensamento e o desenvolvimento cultural.
É uma incumbência da educação contribuir na formação do ser humano em todas suas dimensões. Neste campo a filosofia cooperará, pois cada um deverá ocupar o seu irrenunciável espaço no mundo, realizando assim, seu projeto existencial e, desta maneira resgatando a sua cidadania enquanto sujeito consciente, crítico e construtivo no interior do corpo social.
A filosofia se propõe a auxiliar os educandos na descoberta de sua vocação filosófica, despertando nos mesmos as seguintes atitudes fundamentais: admiração, a dúvida metódica, a insatisfação moral e ainda a indignação ética.
É também tarefa da filosofia na educação auxiliar-nos na compreensão do ser humano, na complexidade das organizações sociais; sobre o espírito de cidadania, sobre o voluntariado; sobre a solidariedade; corresponsabilidade; etc... e a realidade passível de mudanças.
Para desenvolver tais habilidades nossos jovens precisam acordar e decidir pela racionalidade filosófica assumindo novas posturas tais como:
Aprender, gostar e amar a leitura: sabemos que a maioria dos jovens lê pouco e tem dificuldade de compreenderem o que lê;
Cuidar da atenção: muitos dos jovens estudantes não conseguem se desligar para sintonizar, eles estão em mil lugares menos na escola preocupados com o estudo;
Trabalhar em grupo: tem dificuldade de estabelecer e respeitar normas de convivência e de relacionalidade e aqui a intervenção do dos educadores é muito importante neste processo de apropriação do saber de forma coletiva;
Fazer conexões: há uma grande dificuldade de relacionar o estudo com os fatos do cotidiano e até dos fatos sociais;
Eu acredito que esta problemática só será resolvida quando os jovens se enamorarem da leitura dos textos, tiverem acesso a bibliotecas com subsídios didáticos e paradidáticos, terem condições e espaço de leitura e, após a leitura, poderem parar para elaborar por escrito o que se apropriou de modo reflexivo; e, ainda; articular os conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais;
Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; no entorno sócio-político, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico tecnológico.
Por mais que se tente fazer com que eles assumam esta nova postura diante do estudo de filosofia a maioria parece apática o que levou uma jovem estudante dizer que “só iremos perceber a importância da filosofia quando descobrirmos que perdemos o tempo, não a valorizando desde esta oportunidade que ora estamos tendo”.
Mas a sensatez faz me dispor também de outras observações vindas de outros contextos, mas que podem ajudar-nos.
Diz-me outra interlocutora: “o grande problema das observações feitas sobre os mais jovens, é que tais observações não são feitas por pessoas “mais jovens”; por pessoas que já foram adolescentes um dia, e que cresceram e ao crescerem viveram a vida, correram, esperaram, experimentaram.
E, por tanto viver, correr e principalmente experimentar aprenderam. Aprenderam a ter mais paciência, a serem mais perseverantes, a serem ousados dentro do limite da segurança e do possível. Aprenderam que é preciso silêncio para apreciar a beleza da música, que é preciso calar para melhor ouvir, que é preciso concentração para poder pensar. Aprenderam (ou pensam que aprenderam) a distinguir o bom do mau, o perigoso do seguro e por essa razão acreditam que podem ajudar os mais jovens a “saltar determinados obstáculos” que poderão trazer-lhes dor e sofrimentos às suas vidas. Acreditam que do alto de sua sabedoria, oriundas das experiências já vividas, poderão ajudá-los a trilhar pelos caminhos menos tortuosos e, portanto, mais felizes. Os adultos têm certa razão.
Ocorre, porém, que tais pessoas, também conhecidas como adultas, muitas vezes se esqueceram que a juventude é acima de tudo a idade do experimento, das descobertas, das mudanças e das buscas.
Por mais nobres que sejam nossas intenções, não podemos frear a energia que impulsiona os jovens à “pesquisa”, ao experimento que os levam a descobertas.
Penso que de certa forma seria muito bom poupá-los de transtornos que atitudes impensadas podem trazer, entretanto, não posso deixar de pensar que ao mesmo tempo estaríamos impedindo-os de viver efetivamente, ou pelo menos lhes tirando o doce gosto que a vida tem quando ainda não fomos moldados (para não dizer aprisionados) pelos ditames impostos por uma sociedade decadente e hipócrita, onde só rimos no momento certo (ainda que não seja engraçado) e só choramos quando for conveniente.
Deveríamos lembrar mais vezes que “é errando que se aprende” e assim aprendermos a adotar uma postura diversa da que ora temos, orientando sempre os jovens para a vida, contudo, sem impedi-los de viver.
O “livre arbítrio”, é dom de Deus e foi dado a todos como a capacidade de escolher, os jovens também estão aí inclusos. Assim, não cabe aos mais velhos escolher por eles, mas, através de atitudes (mais do que palavras) ajudá-los a escolher, a decidir - fundado no respeito e na responsabilidade, sem nunca perder seu jeito “jovialmente faceiro” de viver.
Mas se nós (adultos) estamos contribuindo através do pensamento filosófico no meio juvenil, vejo como um momento de oportunidade única para a juventude – que tem muita dificuldade para pensar antes de agir”.
Se os jovens justificam que “é errando que se aprende” digo que necessariamente não é preciso errar para aprender
Se os jovens fazem aquilo que lhes vem à mente, digo que o agir impulsivo freia a capacidade de racionalidade.
É preciso ter os pés no chão buscando sempre distanciar das aventuras que nos tiram da realidade e não nos aterriza na realidade da vida.
Se a racionalidade é o dom mais precioso do ser humano, que nos distingue do animal, é agora a hora de agirmos racionalmente medindo sempre as conseqüências de nossas ações.
Acredito que em um ambiente filosófico, todos poderão ter voz e vez e os jovens encontrarão respostas aos diversos problemas que precisam de uma mediação. Creio que os professores de filosofia (não excluindo os demais, é claro) poderão ser os interlocutores de diversos problemas no meio juvenil. É por isso que os jovens precisam aprender a agora de falar e de calar, pedindo sempre a palavra e respeitando a vez do outro, não podemos, em grupo, salas superlotadas, falar todos ao mesmo tempo, mas se organizarmos todos poderão ter seu espaço de expressão do pensamento colaborando assim com a construção de sujeitos capazes de tomar decisões e não apenas de apertar botões.
A juventude é uma fase – talvez a inesquecível para muitos, mas também amarguradas para tantos outros, a vida é sempre uma oportunidade e o que nos espera é sempre uma surpresa, a próxima estação é a maturidade, mas suas raízes são fortalecidas na juventude, pois o mundo adulto nos espera. Não dá para ter certeza do futuro, o que existe é o presente – é agora a hora de optar e assumir a caminhada com maior convicção, sem vergonha de olhar para o passado. Como falara um poeta anônimo que “a vida nos é dada para  grandes feitos”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Freire. Paulo. Pedagogia da autonomia – saberes necessários à prática educativa, 30ª ed. São Paulo. Paz e Terra, 2004. 148p.


Resenha
Freire. Paulo. Pedagogia da autonomia – saberes necessários à prática educativa, 30ª ed. São Paulo. Paz e Terra, 2004. 148p.


Por José Igídio dos Santos
Faremos neste texto uma resenha que apresente as principais ideias defendida que o Pedagogo Paulo Freire expressa em seu livro pedagogia da Autonomia - saberes necessários à prática educativa.
 No plano estrutural o autor utiliza o método dialético para apresentar sua teoria pedagógica de como o professor pode ajudar os educandos a construir a autonomia do seu saber em sala de aula. A linguagem usada é acessível com atenção à hermenêutica
A introdução ressalta alguns aspectos práticos da pedagogia do professor em relação ao desenvolvimento da autonomia dos educandos. Enfatiza a necessidade de acolher e respeitar o conhecimento que os educandos trazem para escola, por serem sujeito histórico e social, e trazem consigo vários saberes de contextos vivenciais. O educador ao valorizar esse conhecimento prévio impulsionará os educandos a desenvolvê-lo de forma otimizada. Proceder desta forma possibilitará ao professor uma atitude global que fará a diferença na vida do educando.
No cap. 1, Paulo Freire apresenta a tese de que “não existe docência sem discência, assume uma perspectiva na qual a educação torna-se uma via de mão dupla – sugerindo ao educador uma dinâmica pessoal focada na aprendizagem – ser um aprendiz aberto ao processo de aprendizagem a partir da realidade de seus educandos. Para operacionalizar esta dinâmica é preciso que o docente tenha uma metodologia rigorosa da qual possa extrair a autoconsciência de seu papel em sala de aula, implementando as aulas com a perspicácia e agudeza de espírito ao ministrar a aula. Para tanto,  faz-se necessário que  o professor, no preparo da aula, consiga pesquisar sobre os assuntos da qual ela versará ao ministrar a mesma  e,  desta forma,  os discentes buscarão o desenvolvimento de pesquisas em áreas de interesse em vista de alcançar maior autonomia de pensamento face a uma proposta educacional que se opõe à educação bancária. Com o enfoque didático da pesquisação, há que se respeitar o conhecimento prévio e vivencial do educando em sala de aula, incitando-os a desenvolverem uma atitude crítica face aos saberes constituídos ou provenientes do senso-comum como verdade absoluta; procurando assim,  filtrar as informações a partir de critérios analíticos para aceitá-los ou não. Ao docente é fundamental a coerência didática entre o teórico e o prático, pois para o discente ele é modelo. A multiplicidade de metodologias pode ajudá-lo no desenvolvimento de atividades educativas capazes de atingir os educandos. Cabe ao educador analisá-las criticamente e adotar em sua prática a metodologia mais adequada para a turma, procurando discernimento para mudar a proposta quando esta não corresponder às expectativas do processo educacional; sem, contudo, deixar de abordar as questões fundantes para a construção de uma educação inclusiva e democrática. Valorizando temas como multiculturalismo e favorecer o reconhecimento da diversidade étnica na trajetória educacional reconhecendo a alteridade.
 No Cap. 2,  Paulo Freire defende a ideia de que ensinar não é transferir conhecimento  e sim “criar possibilidades ao aluno para sua própria construção” uma vez que em sua concepção o professor não é “dono das verdades absolutas e inquestionáveis”,  sua tarefa é auxiliar o educando ao desenvolvimento de seu pensamento; ressalta que o conhecimento é inacabado é daí a perspectiva de que os educadores e educandos deverão adotar uma atitude de aprendizes em busca de novos conhecimentos; nunca esquecer dos condicionamentos históricos, cultural e temporal, sendo necessário que o pensamento possa desenvolver-se ao longo do tempo com a consciência de que os educandos também estão presos à sua realidade, impulsionando-os a refletirem sua própria existência; Paulo Freire acentua que devemos respeitar o tempo de aprendizagem de cada  educando pois cada um tem o seu momento e hora certa para se encaminharem na vida; o autor afirma ainda que, como educador devemos usar o  bom senso em relação às atividade em sala de aula adequando-as ao tempo de seus alunos;  é importante a consciência de classe e que os professores deverão se sensibilizar às reivindicações de  seus colegas por melhores condições de trabalho; além disso, ter consciência da realidade em que está trabalhando para que possa desenvolver seu trabalho de forma situada; os profissionais da educação que optam por licenciaturas deve ser um espírito otimista, pois seu trabalho visa  melhorar o mundo, com a convicção de que, a mudança é possível, tendo repercussão  social e, sua forma de  vida,  dá aos educandos consciência  de transformação pessoal  e social; ao finalizar esse capítulo podemos dizer que todo educador deve ter uma curiosidade aguçada, pois somente dessa forma vai poder conhecer  o perfil geral da turma capacitando-o para fazer uma proposta para cada uma delas.
No Cap. 3, Paulo Freire nos diz que  ensinar é uma especificidade humana ao pedagogo é necessário  boa preparação, qualificação  e habilidades que lhe proporcionará segurança intelectual para no exercício de sua  atividade docente. Para que o educando possa superar sua ignorância é fundamental que o educador supere as suas próprias ignorâncias. O dia-a-dia com os estudantes no contexto de aprendizagem é imprescindível pois cabe ao professor intervir no mundo de forma democrática e trabalhar em vista da liberdade de tomar decisões conscientes, assumindo responsabilidades educativa. A escuta dos educandos é necessária e visa o aprofundamento da arte da docência e neste ínterim, superar sua a ingenuidade sem deixar de considerar que a educação é uma ideologia, na obra freiriano percebe-se uma nítida influência marxista. Ao ensinar o educador deve tornar-se disponível para todas as questões dos estudantes respondendo às suas inquietações propiciando um diálogo fecundo, aguçando o bem-querer entre docentes e discentes. A obra é um subsídio para ser lido por todos os profissionais em educação licenciado ou não.





sexta-feira, 25 de maio de 2018

CONSCIÊNCIA POLÍTICA: O CRIVO PELO VOTO


CONSCIENCIA POLÍTICA:   O CRIVO PELO  VOTO
 José  Igídio dos Santos [i]
       “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”. Platão. (c. 428-347 a.C).

 A compreensão sobre a política, remete à sua etimologia que é haurida do grego antigo e faz referência às práticas e ações vinculadas à pólis, ou à cidade-estado, em sentido amplo, pode referir-se tanto a Estado, quanto à sociedade; e em sentido estrito à comunidade e procedimento de definições do que se refere à vida humana.
Contemporaneamente Hannah Arendt, filósofa alemã (1906-1975), caracterizava a política como "convivência entre diferentes", pois baseava-se "na pluralidade dos homens", fundamentando o entendimento de que  é necessário respeito à alteridade em relação a pluralidade e tal propósito implica aceitar a coexistência de diferenças, pois   a igualdade a ser  alcançada através do exercício de interesses, quase sempre conflitantes, é a liberdade e não a justiça, pois a liberdade distingue "o convívio dos homens na pólis de todas as outras formas de convívio humano bem conhecidas pelos gregos" ( ARENDT, p.12, 2002)
Na percepção de Nicolau Maquiavel (1469-1527) historiador, filósofo e político italiano, em sua obra "O Príncipe"  que  se tornou um manual sobre a arte de governar, apresenta o caminho para a manutenção no poder com máxima de que “os fins justificam os meios” , tal compreensão ressalta, entre outros aspectos, que a política fundamenta-se em desenvolver estratégias para o exercício do poder, ser aceito pelos súditos e ainda conquistar o amor dos concidadãos pelos quais o príncipe deve ser amado e temido simultaneamente, dessa forma conquistaria  a arte da governabilidade.
Na epígrafe deste ensaio, retomo a concepção de Platão (427 a.C. - 347 a.C.) filósofo do período clássico da história da filosofia, discípulo de Sócrates, exímio escritor de diálogos que deu voz a seu mestre Sócrates, que nada escreveu, é construtor de um pensamento próprio, desde a “República”, considerada a primeira Utopia da história. Era visionário de uma proposta de sociedade fundamentada no modelo organicista, em que cada qual deve exercer a função a que é destinado, a partir dos estamentos, mas com possibilidade de ascensão social por meio da educação.
No Brasil, a atual situação política, parece impor aos cidadãos a necessidade de adotar propósitos para uma ação democrática que inclui não exclusivamente, mas essencialmente a sua participação nas decisões dos rumos do País, do Estado membro e a seu tempo também dos Municípios. Essa tomada de decisão se insere num contexto de desilusão com a política. É notório ao acompanharmos os noticiários midiáticos os fatos e atos políticos que são escandalosamente apresentados, nos deixando indignados, pois a maioria dos políticos fizeram da missão de servir na “administração pública” uma empresa pessoal, na qual seu interesse e interesse de seus aliados se sobrepõem ao ideário da política concreta – servir a todos os cidadãos. 
 A sociedade atual é como um barco à deriva, lhe falta engajamento, o país está vivenciando um momento de apatia social,   em que a população assume posturas tais como: “não vi”, “não ouvi”, “não sei dizer” e devido aos muitos escândalos e impunidade presentes nos três poderes, favorecendo sobretudo aos políticos corruptos e os corruptores dos mais diversos nichos sociais, de empresários à instituições públicas, vê-se posturas de apatia política, e  tais posturas  têm se tornado prejudiciais ao desenvolvimento da cidadania plena, que requer nossa participação na política, tanto afetiva como efetivamente, pautando nossa prática cidadã em critérios éticos e morais, em vista de uma sociedade justa e equânime.
Contemporaneizando Platão, nossa omissão em participar da política traz um prejuízo social que é pago com mal serviço prestado à população. E, sabemos muito bem que é por meio do voto de assinamos uma procuração com amplos poderes para proporcionar a todos uma vida cidadã implementada pelas ações dos políticos no Legislativo que criarão as leis e do Executivo colocarão em prática as ações sociais e políticas públicas que devem tornar a vida dos brasileiros mais agradável.
Nossa escolha é para o mínimo de quatro anos com consequências mais duradouras que este período, daí a necessidade de levar a sério o voto, para tanto, é imprescindível que nos preocupemos em analisar a vida pregressa dos candidatos que  se dispuseram a concorrer para assumir a função pública, com o nosso voto delegamos à alguns a missão de nos representar  e dessa forma devemos nos comprometer a não escolher pessoas inexperientes, inescrupulosas, ignorantes e incompetentes  para dirigir os rumos da sociedade e de nossas vidas, pois  sabemos que “o voto não tem preço, tem consequências”.
Uma preocupação que deve nos acometer sempre é que vivemos em uma sociedade do espetáculo, do voyeurismo, na qual grande parte da população adota uma postura de distanciamento da política, deixando de lado a oportunidade de auxiliar na escolha dos rumos do nosso país. O processo de alienação se instaura quando por exemplo, um número considerável de brasileiros vê passivamente programas de reality show, tal como BBB, analisando a vida dos participantes do programa e votando os destinos dos mesmos. Esses mesmos adeptos do voyeurismo não conseguem, em momento de campanha eleitoral, ver e ouvir quais são as propostas dos candidatos que venham ao encontro dos anseios da população, para então analisar se há correspondência entre a sua candidatura e os anseios do povo independentemente da sigla partidária.
Obviamente que não é só o horário eleitoral um balizador de nossas escolhas , alia-se a este uma pesquisa sobre o candidato, suas atitudes sociais, seus planos e propostas de gestão da coisa pública, e mesmo assim procedendo não há certeza de que faremos a escolha correta, portanto, torna-se imprescindível que acompanhemos aqueles aos quais elegemos  durante o seu mandato, cobrando a execução das proposições feitas durante o período de campanha, mas infelizmente muitos eleitores, escolhem em quem  votar no dia da eleição por meio de  escolhas aleatoriamente e votam em qualquer “ santinho”  abandonados próximos aos locais de votação.
A conscientização acerca da importância e valor do voto é uma bandeira que a sociedade precisa abraçar, demonstrando o seu caráter inviolável, incorruptível, promotor da justiça social, superando o modelo clientelista que faz de muitos “eleitores” vendedores de suas consciências. É chegado o momento de fazer das eleições a elevação do nível de conscientização social e política para que as elites oligárquicas que fizeram da política um “emprego certo’ possam ser desbancadas pela arma mais poderosa que nós temos. É o voto consciente, refletido que nos auxiliará a melhor selecionar nossos representantes na esfera política que, acompanhado pelos cidadãos serão fiscalizadores dos resultados de seus feitos.

Bibliografia consultada
ARENDT, Hannah.  O que é política? / Hannah Arendt;  Ed; Ursula Ludz, trad. Reinaldo Guarany. - 3' ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. 240 p.
PLATÃO. A República.  Col. Os pensadores, Trad.  Maria Helena da Rocha pereira. 9° edição. 2005
MAQUIAVEL. N.  O Príncipe .  Col. Os pensadores,  ed. Nova Cultural, 1999.



[i] Licenciado em Filosofia (UNICLAR), Especialista no ensino de Filosofia  (UFSCar-SP) ,  Especialista em  PIGEAD -  Planerjamento e Implementação da EAD (UFF), Bacharel em Teologia, Psicopedagogo, Tecnólogo Superior em Gestão Pública.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A Revanche de Deus: Cristãos, judeus e muçulmanos na reconquista do mundo

Kepel, Gilles. A Revanche de Deus: Cristãos, judeus e muçulmanos na reconquista do mundo; trad. J.E. Smith Caldas, São Paulo, Ed. Siciliano, 1991, 243p.
Por: José Igídio dos Santos
       Constata o A. que “a década de 70 foi o auge do processo de mutação nas relações entre religião e política desse último quarto século... a década de 60 parece ter havido uma distensão do elo que ligava a religião à ordem da cidade, de um modo que deixou os clérigos muito preocupados... (p.11)”. “O propósito do livro limita-se aos domínios de três religiões “abrâamicas”, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, embora o hinduísmo e o xintoísmo apresentem no seu desenvolvimento recente alguns traços comparáveis ao que se produz nas três “religiões do Livro” ... trata-se simplesmente de propor marcos de referência para tentar uma reflexão transversal sobre o fenômeno como um todo” (p.12-13).
       “A crise da década de 70 bloqueou os mecanismos de solidariedade gerados pelo Estado de Providência e pôs a nu angústias e misérias inéditas.... nem todos os movimentos religiosos de hoje, mesmo quando querem ultrapassar a modernidade por objetivo a curto prazo a tomada do poder e a transformação revolucionária da sociedade ... apresentam certo número de diferenças em si. (p.15-16)”.
       “O judaísmo rejeita uma definição em termos de simples filiação, na década de 70 emergiram ... no cenário político” ... no catolicismo (religião cristã) após conclave e escolha do Cardeal Karol Wojtyla para o pontificado ... enfatiza  o princípio de “testemunhar pela experiência comunitária a necessidade de reencontrar Deus e salvar os homens e indicar o caminho  da reconstrução da sociedade com base nos preceitos cristãos” (p.18),  o Islamismo com a volta de aiotolá Khomeini a Teerã, ... o ataque da Grande Mesquita de Meca ... são acontecimentos que manifestam aos olhos do mundo inteiro o potencial político encoberto nessa religião ... que “reivindica um rompimento cultural com a lógica da modernidade secular... é necessário “dissociar as técnicas dos valores da secularização, a fim de promover uma ética de vida dominada pela submissão da razão a Deus”(p. 17).
       Esses movimentos começam a se fazer notar a partir de meados da década de 70...  “a construção do socialismo no Oriente e o nascimento da sociedade de consumo no Ocidente deixam muito pouco espaço à expressão de ideologias que recorrem ao divino para explicar as lógicas de ordem social... os fiéis têm de se engajar em defender o mundo livre ou o socialismo, o que leva lentamente a subordinar a fé à realização dos ideais terrenos subordinar o além com  as coisas daqui” (p.20-21).
       Note-se que a hipótese deste trabalho mostra que: “.... o discurso e prática desses movimentos são portadores de um sentido; não são produto de um desregramento da razão nem de uma manipulação por forças obscuras, são o testemunho insubstituível de um mal social profundo que as nossas categorias tradicionais de pensamento não permitem decifrar. ... são ... filhos indesejados, bastardos da informática e da falta de emprego ou da exploração demográfica e da alfabetização, com as suas crises e queixas a nos incitar a procurar em nosso fim de século a sua paternidade, a sua genealogia inconfessada” (p.22-23).
       No capítulo 1: “O Gládio e o Corão”,  dos países muçulmanos  da bacia do Mediterrâneo e arredores, os movimentos de reislamização seguem a sequência cronológica dos  grupos marxizantes na constestação de valores básicos da ordem social” (p.25). Há a contestação marxista para a “ruptura” islamita, ... “pois as leis de mercado encontram seus limites na persistência de mecanismos de feudalidades e no desenvolvimento da corrupção em grande escala... (p.27). Pois “a Palestina se transforma em símbolo da resistência a Israel e ao Imperalismo ocidental’ ... para tanto emerge os “movimentos de reislamização contemporâneos” sustentada por Sayyid Qutb  após a guerra árabe-israelense em 73, “desorganizando o equilíbrio da economia internacional, alicerçou as aspirais da inflação e do desemprego que desestabilizaram os sistemas sócio-políticos, especialmente no ocidente, e levou a um esboroamento da sociedade e a um afrouxamento dos elos de solidariedade e proteção social” (p.36).
       O processo revolucionário de tomada do poder ( reislamização “pelo alto”) no Islamismo com o intuito de reislamização se dá entre a década 70 e meados de 80, e corroborada em 1979. “A reislamização “pelo alto” tem por finalidade reislamizar a sociedade como  um todo e reislamização “por baixo” consiste no esquadrinhamento espacial e temporal de fragmentos da sociedade” (p.49). É uma maneira de reconstruir uma  identidade num mundo que ficou indecifrável, desestruturado e alienado. “No fim da década de 80 os movimentos de reislamização “por baixo” estavam à testa de várias redes comunitárias poderosas que chegavam a controlar bairros inteiros... intermediárias entre os poderes públicos e os grupos sociais marginalizados” (p.52).  Em 1990 este movimento de reislamização arrasta a maioria num país muçulmano onde há eleições livres.  Concluo que no Islamismo “pelo alto”  é enfatizado a dimensão política, com enfretamento da repressão dos Estados, mas o Islamismo “por baixo”, investem seu ativismo na vida cotidiana... procurando garantir a paz social.
       No cap. II - “ Europa, terra de missão” Constata o A. que neste último quarto do séc. XX “parece que a sociedade jamais foi tão maciçamente secularizada e descristianizada, e no entanto nascem movimentos de recristianização por todos os cantos” . Ao passo que o Concílio Ecumênico Vaticano II quis esforça-se por formular a mensagem católica na linguagem da sociedade secular com a qual compartilha vários ideais... com o cuidado de situar-lhes a origem na doutrina cristã...”o pontificado de João Paulo II, ... é marcado por uma reafirmação da identidade e dos valores católicos” (p.65) Existe aí uma ruptura inaugural de uma mentalidade pós-moderna... cheia de incertezas motivadas por alguns acontecimentos no mundo ocidental ( crise do petróleo, revolução eletrônica, hermeticidade do meio familiar) e no oriente ( demolição do muro de Berlim, novos espaços ideológicos). “No interior da Igreja há correntes que veem nestes acontecimentos o fim do ciclo histórico da modernidade, ciclo este inaugurado pelo Iluminismo  do século XVIII e caracterizado pela emancipação de uma razão segura de si no que diz respeito a fé” (p.66) e surgem nas sociedade que viveram mais de cem anos num processo de secularização “os movimentos de recristianização” e contraposição à “ao concílio Vaticano II”  que propõe o  “aggiornamento da Igreja católica” condensado em 16 documentos conciliares ... “fruto de concessões feitas pacientemente entre as forças presentes no Concílio.... e domina um espaço de interpretação ” divergentes e nalguns setores chegam a ‘desconfiar da Teologia da Libertação’ reagindo ao possível  perigo “marxista” deste movimento de libertação que arrisca instrumentalizar a Igreja e esquerdizar a sua mensagem”... em seu conteúdo contém dois temas fundamentais:  “a recusa de uma ordem social injusta insuportável para os pobres, .... e a aspiração a uma nova ordem, a uma sociedade socialista que há de encarnar a justiça” .... Esta ideologia de ruptura de uma ordem reinante, .... encontraria sua realização no apostolado dos cristãos... pois a “instauração do socialismo faz as vezes do advento de Cristo”. Mas “nos dissabores da Teologia da Libertação vimos muitas vezes um conflito entre os “progressistas” e os “conservadores”
       No fim da década de 80  emerge o movimentos  de “Recristianização na Europa Ocidental” - Comunhão e Libertação e Juventude Estudantil. Este último segue a três princípios: cultura, caridade e missão -  pois “reconstruir uma sociedade sobre alicerces cristãos é militar pela presença visível da Igreja num mundo onde os homens se afastaram de Deus, é lançar as bases de uma socialidade exemplar guiada pelos preceitos do Evangelho que, no fim, implicará a adesão de todos” (p. 81), ... enfatizando estes movimentos uma “teologia intransigente”.
       Estes movimentos numa primeira fase “privilegia a recristianização “por baixo” a partir de uma obra social, mas ambiciona intervir diante do Estado para fazer recuar  influência do “laicismo” (p.91)...  ”responsável pela adulteração da consciência da identidade  católica, além da matriz do marxismo ateu. (p.82).       No projeto de recristianização do “catolicismo europeu contemporâneo” as origens da renovação carismática” são americanas ... o movimento está ligado ao processo de “recristianização “por baixo”... no qual “as comunidades prepararam uma forma de vida que rompe tolamente com as lógicas da laicidade e reconstrói pela base uma socialidade cristã” (p.100).  
       “Nos países da Europa ocidental, a recristianização estendeu-se primeiro como resposta à crise social de meados da década de 70, assumindo o papel das redes de mobilização e solidariedade que as utopias seculares da era industrial não conseguiram mais motivar. Na Europa oriental, após a derrocada do comunismo em 1989, a Igreja polonesa conseguiu reorganizar diante do Estado uma sociedade civil que havia sido esmagada e surgiram algumas formas de recristianização “por baixo” em terras tchecas, sobretudo na Eslováquia ....com o estabelecimento das eleições livres e instauração progressiva da economia de mercado, a aspiração democrática fez predominar sobre a sede de transcendência o desejo de manifestar uma pluralidade de opiniões individuais quanto a adesão às verdades reveladas ... (p.103).
       A difusão da “recristianização “por baixo” não encontra realmente o obstáculo da repressão ... mas os vários movimentos de recristianização “por baixo” mobilizam suas redes para que votem nos democratas cristãos, até mesmo os grupos que haviam recusado a manter compromissos políticos contra o regime comunista... (p. 119).
       De um lado, o episcopado é favorável a essa transição “pelo alto” e numa carta pastoral pede que os fiéis deem seu voto para a democracia cristã.... Do outro lado, alguns católicos, padres ou leigos, que haviam militado na oposição ao comunismo como os não-fiéis ....não escondem a recusa em se em empenhar numa estratégia de recristianização “pelo alto”..
       Portanto, recristianizar “pelo alto” ou  “por baixo”, se dá dentro de um processo de conquista de presença social da Igreja. Neste ínterim, os defensores do cristianismo esperavam ver “a sociedade cristã” tornar-se realidade, essa estratégia se coloca com a aspiração democrática de alguns católicos, pois “nenhum partido cristão tem vocação de iniciar  uma organização social regulada por uma verdade da qual ele próprio se considera detentor”.
       No cap. III: Para “Salvar a América” o A. constata que a partir da década de 70, milhões de americanos sentiram necessidade de aderir às formas de religiosidade oferecidas por Jim Robinson, Jerry Falwell, Oral Roberts, Pat Robertson, Jimmy Swaggart, Robert Schuller ... através das ondas, surge o “teleevangelismo como fenômeno de sociedade” (p.127)... dessa mutação cultural.. o investimento maciço em televisão feito pela pregação evangélica nos últimos 25 anos.... levou algumas camadas da sociedade americana a formular categorias do discurso evangélico ou do fundamentalismo a sua rejeição dos “valores seculares”, que consideravam dominantes e nefastos, assim como a sua aspiração de transformar em profundidade a ética social” (p.129).
       O movimento (Maioria Moral de Jerry Falwell), entre outros “entre meados da década de 70 e o fim da década de 80, no quadro mais vasto do que nos Estados Unidos se denomina “fundamentalismo”, “evangelismo” ou “nova direita cristã”. Estas expressões estão enraizada na passagem “da América rural à alta tecnologia” (p.131), “o fundamentalismo definiu-se em primeiro lugar pela crença na inerrância absoluta da Bíblia. O texto sagrado do Antigo e do Novo Testamento é tido como a expressão literal da verdade divina”.  E mais, “os fundamentalistas acreditam na divindade de Cristo e na salvação da alma pela ação efetiva da vida, morte e ressurreição física de Cristo”.
       Vejamos que há duas “Américas antagônicas”, .... norte industrializado, modernizado e em plena expansão, opõe-se o sul agrícola, com uma organização social obsoleta....”(p.132).
       Tornou-se objeto de interpretação milenarista dos fundamentalistas. “a crise econômica de 1929 e suas consequências” mostrando que a crença na modernidade e no progresso que a civilização industrializada do norte havia elaborado não se efetivou,  e faz necessário uma “terapia da redenção”. Foi  a partir da década de 60, o protestantismo liberal ( religião de opulência que justifica o gozo da prosperidade americana) passa da autossatisfação à preocupação com a “outra américa” .
        No processo de recristianização feita pelo protestantismo liberal é enfatizado a busca “pelo alto”, com grande visibilidade, mas mobiliza pouco a massa da população; em compensação, a recristianização “por baixo” dos pentecostais pode ter efeito de massa, mas é geralmente considerada um fenômeno que depende da piedade e da emoção, ao passo que sua dimensão sócio-política continua geralmente oculta”(p.138).
       É a partir da segunda metade da década de 70 que se dá o fenômeno do renascimento político do evangelismo americano e nele incide uma reviravolta teológica.  Neste fato está imbutido fatores socioculturais que traduzem este novo tipo de inserção dos evangélicos na sociedade global.
       “O acesso à universidade” da geração jovem vai representar um papel importante na “passagem para a política” dos evangélicos neste último quarto de século:  “por ter acesso ao saber, abandona a marginalidade a qual a maior parte dos seus pais estava confinada e agrega-se ao universo  urbano da sociedade pós-industrial” (p.152-153).
       Nos Estados Unidos, a recristianização “por baixo” toma forma de uma terapia social em grande escala, do mesmo modo que uma reinvindicação cultural. ... a rejeição de uma modernidade cuja lógica é sentida como estrangeira e alienante, destruidora da identidade individual e familiar... Daí a insistência em impor normas éticas estritas.
       A originalidade do processo de recristianização americana para a política seguiu um caminho original: a dissociação que houve depois da guerra entre os evangélicos que trabalham “por baixo”, e os “fundamentalistas, que investem “pelo alto”  favorecendo opções políticas ... envestindo numa pastoral que visa a constituição de espaços de recristianização dos quais a escola é o mais significativo.
       No Cap IV : “A redenção de Israel”...  Gush Emunim (bloco de fiéis), movimento político-religioso nascido logo depois da guerra árabe-israelense (p.171), substitui o conceito Jurídico de Estado de Israel pelo conceito bíblico de Terra de Israel (eretz Yirael). O Gush representou o pólo mais explicitamente político; e , como tinha ambição de agir sobre o Estado, .... atraiu atenção da mídia, dos governos israelense e americano... fizeram do Gush um “fundamentalismo judeu”(p.172) .
       A década de 70 viu em todo o mundo um “retorno ao judaísmo” e o “arrependimento”, isto é, “retorno à observância integral da lei judaíca. Os arrependidos rompem com as seduções da sociedade secular e reorganizam a própria vida baseando-se unicamente nos mandamentos e proibiçòes elaboradas a partir de textos sagrados judaícos..... techuvah significa uma “redefinição da identidade judaica”. (p.173).
       A  “pós-modernidade é caracterizada por uma crise de valores que sanciona o impasse da secularização” (p.174)...  só a “redescoberta da Torá e a observ6ancia dois mandamentos permitem dar de novo  um sentido a sua vida... pois a época moderna é uma “era de anomia” (p.175) .. , nos Estados unidos, duas encarnações da identidade judia compartilhavam as preferências da maioria: o judaísmo “reformado” e o “judaísmo conservador” (p.180). Em Israel na década 60 presencia igualmente mutações estruturais que preparam o desabrochar dos movimentos religiosos da década seguinte....(p.185) .. os sionistas... eram portadores de um messianismo de redenção, emora não soubesse disso: O Estado de Israel era instrumento inconsciente da vontade divina” (p.188) .
       No mundo judeu, ... a década de 60 foi o período da gênese ideológica dos movimentos de reafirmação do religioso que viram a ter uma tradução organizacional na década seguinte.  Gush Emunim se opõe a qualquer veleidade de trocar alguma parcela inalienável dessa terra,,,, e se empenha numa política de implantação de colônias em lugares ocupados....Gush surge no espaço num momento em que a sociedade israelense conhece um malogro profundo...  “desordem criam um terreno favorável à expressão de alternativas aos projetos de um governo que parece haver perdido a capacidade de iniciativa e está submetido a fortes pressões internacionais para constrangê-lo a fazer concessões territoriais... para defesa, “os fundadores do Gush adotam uma atitude deliberadamente ofensiva” (p. 194).  Auxiliados pela impunidade e o êxito da operação, sem represália chega ao terrorismo.
       “No nível da Ideologia e filiação sociocultural... o processo de rejudaização ou “reislamização “pelo alto” levado ao extremo: a passagem para a violência contra um objetivo simbólico, a fim de precipitar a transformação do Estado. Do lado Judeu, trata-se de encontrar o caminho da Redenção e do advento do reino de Israel” (p.204).
       O “Judaísmo ortodoxo” ... adota primeiro uma estratégia de rejudaização “por baixo” que leva seus discípulos a romper com a sociedade local na vida diária e morar em guetos comunitários, tanto em Israel como na diáspora” (p. 206) ... .
       A partir de meados da década de 80, o mundo haredi fez uma entrada triunfal no cenário político israelense (p.214) ... pois  o mundo haredi era um universo compexo minado por divisões internas. A rivalidade dos rabinos entre si  os impediam   de formar frente unida diante de diversas expressões secularizadas do judaísmo contemporâneo .. estes propõe que os mandamentos sagrados sejam observados pelos judeus, mostrando a diferença daqueles em relação aos membros da sociedade  que não observam os mandamentos.
       Em Jerusalém, o Judaísmo “negro” aumenta incessantemente sua influência, tantos nos bairros antigos como nas novas cidades-dormitórios da periferia urbana.
       Portanto, “no mundo Judeu, o acesso político dos movimentos de afirmação religiosa “por baixo” ficou mais aberto a partir de 1980....mas para além do Estado Judeu, esse modelo de acesso à política apresentado pelos movimentos de rejudaização “por baixo” adquiriu amplitude considerável na diáspora nos Estados Unidos, mais recentemente, na França.... No mundo judeu, os bons resultados conseguidos pelo comunitarismo contemporâneo devem muito ao fato de este haver recorrido a uma tradição que culminou na vida autônoma do gueto, ampliada hoje pelos mais ortodoxos adeptos da rejudaização” (p.227).

Conclusão
       O aparecimento desses movimentos deu-se num contexto de enfraquecimento das certezas nascidas dos progressos atingidos pelas ciências e pelas técnicas desde a década de 50. Ao mesmo tempo, o grande messianismo ateu do século XX, isto é, o comunismo, que exercera influência na maior parte das utopias sociais, entrava em agonia e viria a sucumbir no outono de 1989 com a destruição do muro de Berlim, seu símbolo por excelência.
       Os movimentos cristãos, judeus e mulçumanos que observamos se inscrevem nesta perspectiva dupla: no começo, dedicam-se a dar nome à confusão e à desordem do mundo .... depois elaboram projetos de transformação de ordem social, para deixá-la de acordo com as injunções ou os valores da Bíblia, do Corão ou dos Evangelhos.
       Interessa nos aqui “o ecumenismo para na desqualificação da laicidade; além disso, os projetos de sociedade divergem, depois tornam-se profundamente antagônicos, carregando em potencial lutas sem misericórdia nas quais nenhuma doutrina de verdades pode dispensar os compromissos, salvo perdendo o controle dos adeptos” (p.230-1).
       Opinião final, os movimentos que vimos possuíam projetos concretos de reconstrução do mundo. buscavam embasamento para o projeto de sociedade nos textos sagrados. Contando com uma militância ativa, a juventude, os educadores, leigos, cristãos, judeus e muçulmanos, se valendo de uma proposta de retomada do poder “pelo alto” através de cúpulas ou ainda “por baixo” com o apoio das comunidades.
       É comum aos movimentos a crítica contundente à época moderna, racionalismo, compondo os caminhos de cada movimento traça não esconde a crítica dentro de sí mesmo e a outros movimentos..
       Esta obra, além de ser de agradável leitura é didática, proporciona a compreensão da volta à disciplina de cada um dos movimentos, o projeto e reestruturação de cada um deles a partir daquilo que é mais importante: a tradição, o Livro sagrado, volta às fontes.
       O momento não é de grande empreendimento na reconquista do mundo, mas o conflitividade do relacionamento com o diferente poderá acirrar-se numa guerra entre “crentes” que fazem da afirmação da identidade religiosa o critério de Verdades tão exclusivas quanto particulares... e sem dúvida alguma faz o caminho para totalitarismos hegemônicos que não é aspiração da humanidade na atualidade, nem caminho ecumênico.


José Igídio dos Santos - Av: Luiz Bácaro, 391 - 15.600-000 - Fernandópolis – SP - E-mail: j.igidio@gmail.com
  Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo. Docente na Rede Estadual de São Paulo (SEESP)  e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP, Especialista em PIGEAD – Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância – pela Universidade Federal Fluminense – UFF-.RJ e Tecnólogo Superior em Gestão Pública pela IFSC – SC – polo Jales-SP

O Autor  é pesquisador do CNRS (Centre National de Recherches Scientifiques) e professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris. 

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