terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A Revanche de Deus: Cristãos, judeus e muçulmanos na reconquista do mundo

Kepel, Gilles. A Revanche de Deus: Cristãos, judeus e muçulmanos na reconquista do mundo; trad. J.E. Smith Caldas, São Paulo, Ed. Siciliano, 1991, 243p.
Por: José Igídio dos Santos
       Constata o A. que “a década de 70 foi o auge do processo de mutação nas relações entre religião e política desse último quarto século... a década de 60 parece ter havido uma distensão do elo que ligava a religião à ordem da cidade, de um modo que deixou os clérigos muito preocupados... (p.11)”. “O propósito do livro limita-se aos domínios de três religiões “abrâamicas”, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, embora o hinduísmo e o xintoísmo apresentem no seu desenvolvimento recente alguns traços comparáveis ao que se produz nas três “religiões do Livro” ... trata-se simplesmente de propor marcos de referência para tentar uma reflexão transversal sobre o fenômeno como um todo” (p.12-13).
       “A crise da década de 70 bloqueou os mecanismos de solidariedade gerados pelo Estado de Providência e pôs a nu angústias e misérias inéditas.... nem todos os movimentos religiosos de hoje, mesmo quando querem ultrapassar a modernidade por objetivo a curto prazo a tomada do poder e a transformação revolucionária da sociedade ... apresentam certo número de diferenças em si. (p.15-16)”.
       “O judaísmo rejeita uma definição em termos de simples filiação, na década de 70 emergiram ... no cenário político” ... no catolicismo (religião cristã) após conclave e escolha do Cardeal Karol Wojtyla para o pontificado ... enfatiza  o princípio de “testemunhar pela experiência comunitária a necessidade de reencontrar Deus e salvar os homens e indicar o caminho  da reconstrução da sociedade com base nos preceitos cristãos” (p.18),  o Islamismo com a volta de aiotolá Khomeini a Teerã, ... o ataque da Grande Mesquita de Meca ... são acontecimentos que manifestam aos olhos do mundo inteiro o potencial político encoberto nessa religião ... que “reivindica um rompimento cultural com a lógica da modernidade secular... é necessário “dissociar as técnicas dos valores da secularização, a fim de promover uma ética de vida dominada pela submissão da razão a Deus”(p. 17).
       Esses movimentos começam a se fazer notar a partir de meados da década de 70...  “a construção do socialismo no Oriente e o nascimento da sociedade de consumo no Ocidente deixam muito pouco espaço à expressão de ideologias que recorrem ao divino para explicar as lógicas de ordem social... os fiéis têm de se engajar em defender o mundo livre ou o socialismo, o que leva lentamente a subordinar a fé à realização dos ideais terrenos subordinar o além com  as coisas daqui” (p.20-21).
       Note-se que a hipótese deste trabalho mostra que: “.... o discurso e prática desses movimentos são portadores de um sentido; não são produto de um desregramento da razão nem de uma manipulação por forças obscuras, são o testemunho insubstituível de um mal social profundo que as nossas categorias tradicionais de pensamento não permitem decifrar. ... são ... filhos indesejados, bastardos da informática e da falta de emprego ou da exploração demográfica e da alfabetização, com as suas crises e queixas a nos incitar a procurar em nosso fim de século a sua paternidade, a sua genealogia inconfessada” (p.22-23).
       No capítulo 1: “O Gládio e o Corão”,  dos países muçulmanos  da bacia do Mediterrâneo e arredores, os movimentos de reislamização seguem a sequência cronológica dos  grupos marxizantes na constestação de valores básicos da ordem social” (p.25). Há a contestação marxista para a “ruptura” islamita, ... “pois as leis de mercado encontram seus limites na persistência de mecanismos de feudalidades e no desenvolvimento da corrupção em grande escala... (p.27). Pois “a Palestina se transforma em símbolo da resistência a Israel e ao Imperalismo ocidental’ ... para tanto emerge os “movimentos de reislamização contemporâneos” sustentada por Sayyid Qutb  após a guerra árabe-israelense em 73, “desorganizando o equilíbrio da economia internacional, alicerçou as aspirais da inflação e do desemprego que desestabilizaram os sistemas sócio-políticos, especialmente no ocidente, e levou a um esboroamento da sociedade e a um afrouxamento dos elos de solidariedade e proteção social” (p.36).
       O processo revolucionário de tomada do poder ( reislamização “pelo alto”) no Islamismo com o intuito de reislamização se dá entre a década 70 e meados de 80, e corroborada em 1979. “A reislamização “pelo alto” tem por finalidade reislamizar a sociedade como  um todo e reislamização “por baixo” consiste no esquadrinhamento espacial e temporal de fragmentos da sociedade” (p.49). É uma maneira de reconstruir uma  identidade num mundo que ficou indecifrável, desestruturado e alienado. “No fim da década de 80 os movimentos de reislamização “por baixo” estavam à testa de várias redes comunitárias poderosas que chegavam a controlar bairros inteiros... intermediárias entre os poderes públicos e os grupos sociais marginalizados” (p.52).  Em 1990 este movimento de reislamização arrasta a maioria num país muçulmano onde há eleições livres.  Concluo que no Islamismo “pelo alto”  é enfatizado a dimensão política, com enfretamento da repressão dos Estados, mas o Islamismo “por baixo”, investem seu ativismo na vida cotidiana... procurando garantir a paz social.
       No cap. II - “ Europa, terra de missão” Constata o A. que neste último quarto do séc. XX “parece que a sociedade jamais foi tão maciçamente secularizada e descristianizada, e no entanto nascem movimentos de recristianização por todos os cantos” . Ao passo que o Concílio Ecumênico Vaticano II quis esforça-se por formular a mensagem católica na linguagem da sociedade secular com a qual compartilha vários ideais... com o cuidado de situar-lhes a origem na doutrina cristã...”o pontificado de João Paulo II, ... é marcado por uma reafirmação da identidade e dos valores católicos” (p.65) Existe aí uma ruptura inaugural de uma mentalidade pós-moderna... cheia de incertezas motivadas por alguns acontecimentos no mundo ocidental ( crise do petróleo, revolução eletrônica, hermeticidade do meio familiar) e no oriente ( demolição do muro de Berlim, novos espaços ideológicos). “No interior da Igreja há correntes que veem nestes acontecimentos o fim do ciclo histórico da modernidade, ciclo este inaugurado pelo Iluminismo  do século XVIII e caracterizado pela emancipação de uma razão segura de si no que diz respeito a fé” (p.66) e surgem nas sociedade que viveram mais de cem anos num processo de secularização “os movimentos de recristianização” e contraposição à “ao concílio Vaticano II”  que propõe o  “aggiornamento da Igreja católica” condensado em 16 documentos conciliares ... “fruto de concessões feitas pacientemente entre as forças presentes no Concílio.... e domina um espaço de interpretação ” divergentes e nalguns setores chegam a ‘desconfiar da Teologia da Libertação’ reagindo ao possível  perigo “marxista” deste movimento de libertação que arrisca instrumentalizar a Igreja e esquerdizar a sua mensagem”... em seu conteúdo contém dois temas fundamentais:  “a recusa de uma ordem social injusta insuportável para os pobres, .... e a aspiração a uma nova ordem, a uma sociedade socialista que há de encarnar a justiça” .... Esta ideologia de ruptura de uma ordem reinante, .... encontraria sua realização no apostolado dos cristãos... pois a “instauração do socialismo faz as vezes do advento de Cristo”. Mas “nos dissabores da Teologia da Libertação vimos muitas vezes um conflito entre os “progressistas” e os “conservadores”
       No fim da década de 80  emerge o movimentos  de “Recristianização na Europa Ocidental” - Comunhão e Libertação e Juventude Estudantil. Este último segue a três princípios: cultura, caridade e missão -  pois “reconstruir uma sociedade sobre alicerces cristãos é militar pela presença visível da Igreja num mundo onde os homens se afastaram de Deus, é lançar as bases de uma socialidade exemplar guiada pelos preceitos do Evangelho que, no fim, implicará a adesão de todos” (p. 81), ... enfatizando estes movimentos uma “teologia intransigente”.
       Estes movimentos numa primeira fase “privilegia a recristianização “por baixo” a partir de uma obra social, mas ambiciona intervir diante do Estado para fazer recuar  influência do “laicismo” (p.91)...  ”responsável pela adulteração da consciência da identidade  católica, além da matriz do marxismo ateu. (p.82).       No projeto de recristianização do “catolicismo europeu contemporâneo” as origens da renovação carismática” são americanas ... o movimento está ligado ao processo de “recristianização “por baixo”... no qual “as comunidades prepararam uma forma de vida que rompe tolamente com as lógicas da laicidade e reconstrói pela base uma socialidade cristã” (p.100).  
       “Nos países da Europa ocidental, a recristianização estendeu-se primeiro como resposta à crise social de meados da década de 70, assumindo o papel das redes de mobilização e solidariedade que as utopias seculares da era industrial não conseguiram mais motivar. Na Europa oriental, após a derrocada do comunismo em 1989, a Igreja polonesa conseguiu reorganizar diante do Estado uma sociedade civil que havia sido esmagada e surgiram algumas formas de recristianização “por baixo” em terras tchecas, sobretudo na Eslováquia ....com o estabelecimento das eleições livres e instauração progressiva da economia de mercado, a aspiração democrática fez predominar sobre a sede de transcendência o desejo de manifestar uma pluralidade de opiniões individuais quanto a adesão às verdades reveladas ... (p.103).
       A difusão da “recristianização “por baixo” não encontra realmente o obstáculo da repressão ... mas os vários movimentos de recristianização “por baixo” mobilizam suas redes para que votem nos democratas cristãos, até mesmo os grupos que haviam recusado a manter compromissos políticos contra o regime comunista... (p. 119).
       De um lado, o episcopado é favorável a essa transição “pelo alto” e numa carta pastoral pede que os fiéis deem seu voto para a democracia cristã.... Do outro lado, alguns católicos, padres ou leigos, que haviam militado na oposição ao comunismo como os não-fiéis ....não escondem a recusa em se em empenhar numa estratégia de recristianização “pelo alto”..
       Portanto, recristianizar “pelo alto” ou  “por baixo”, se dá dentro de um processo de conquista de presença social da Igreja. Neste ínterim, os defensores do cristianismo esperavam ver “a sociedade cristã” tornar-se realidade, essa estratégia se coloca com a aspiração democrática de alguns católicos, pois “nenhum partido cristão tem vocação de iniciar  uma organização social regulada por uma verdade da qual ele próprio se considera detentor”.
       No cap. III: Para “Salvar a América” o A. constata que a partir da década de 70, milhões de americanos sentiram necessidade de aderir às formas de religiosidade oferecidas por Jim Robinson, Jerry Falwell, Oral Roberts, Pat Robertson, Jimmy Swaggart, Robert Schuller ... através das ondas, surge o “teleevangelismo como fenômeno de sociedade” (p.127)... dessa mutação cultural.. o investimento maciço em televisão feito pela pregação evangélica nos últimos 25 anos.... levou algumas camadas da sociedade americana a formular categorias do discurso evangélico ou do fundamentalismo a sua rejeição dos “valores seculares”, que consideravam dominantes e nefastos, assim como a sua aspiração de transformar em profundidade a ética social” (p.129).
       O movimento (Maioria Moral de Jerry Falwell), entre outros “entre meados da década de 70 e o fim da década de 80, no quadro mais vasto do que nos Estados Unidos se denomina “fundamentalismo”, “evangelismo” ou “nova direita cristã”. Estas expressões estão enraizada na passagem “da América rural à alta tecnologia” (p.131), “o fundamentalismo definiu-se em primeiro lugar pela crença na inerrância absoluta da Bíblia. O texto sagrado do Antigo e do Novo Testamento é tido como a expressão literal da verdade divina”.  E mais, “os fundamentalistas acreditam na divindade de Cristo e na salvação da alma pela ação efetiva da vida, morte e ressurreição física de Cristo”.
       Vejamos que há duas “Américas antagônicas”, .... norte industrializado, modernizado e em plena expansão, opõe-se o sul agrícola, com uma organização social obsoleta....”(p.132).
       Tornou-se objeto de interpretação milenarista dos fundamentalistas. “a crise econômica de 1929 e suas consequências” mostrando que a crença na modernidade e no progresso que a civilização industrializada do norte havia elaborado não se efetivou,  e faz necessário uma “terapia da redenção”. Foi  a partir da década de 60, o protestantismo liberal ( religião de opulência que justifica o gozo da prosperidade americana) passa da autossatisfação à preocupação com a “outra américa” .
        No processo de recristianização feita pelo protestantismo liberal é enfatizado a busca “pelo alto”, com grande visibilidade, mas mobiliza pouco a massa da população; em compensação, a recristianização “por baixo” dos pentecostais pode ter efeito de massa, mas é geralmente considerada um fenômeno que depende da piedade e da emoção, ao passo que sua dimensão sócio-política continua geralmente oculta”(p.138).
       É a partir da segunda metade da década de 70 que se dá o fenômeno do renascimento político do evangelismo americano e nele incide uma reviravolta teológica.  Neste fato está imbutido fatores socioculturais que traduzem este novo tipo de inserção dos evangélicos na sociedade global.
       “O acesso à universidade” da geração jovem vai representar um papel importante na “passagem para a política” dos evangélicos neste último quarto de século:  “por ter acesso ao saber, abandona a marginalidade a qual a maior parte dos seus pais estava confinada e agrega-se ao universo  urbano da sociedade pós-industrial” (p.152-153).
       Nos Estados Unidos, a recristianização “por baixo” toma forma de uma terapia social em grande escala, do mesmo modo que uma reinvindicação cultural. ... a rejeição de uma modernidade cuja lógica é sentida como estrangeira e alienante, destruidora da identidade individual e familiar... Daí a insistência em impor normas éticas estritas.
       A originalidade do processo de recristianização americana para a política seguiu um caminho original: a dissociação que houve depois da guerra entre os evangélicos que trabalham “por baixo”, e os “fundamentalistas, que investem “pelo alto”  favorecendo opções políticas ... envestindo numa pastoral que visa a constituição de espaços de recristianização dos quais a escola é o mais significativo.
       No Cap IV : “A redenção de Israel”...  Gush Emunim (bloco de fiéis), movimento político-religioso nascido logo depois da guerra árabe-israelense (p.171), substitui o conceito Jurídico de Estado de Israel pelo conceito bíblico de Terra de Israel (eretz Yirael). O Gush representou o pólo mais explicitamente político; e , como tinha ambição de agir sobre o Estado, .... atraiu atenção da mídia, dos governos israelense e americano... fizeram do Gush um “fundamentalismo judeu”(p.172) .
       A década de 70 viu em todo o mundo um “retorno ao judaísmo” e o “arrependimento”, isto é, “retorno à observância integral da lei judaíca. Os arrependidos rompem com as seduções da sociedade secular e reorganizam a própria vida baseando-se unicamente nos mandamentos e proibiçòes elaboradas a partir de textos sagrados judaícos..... techuvah significa uma “redefinição da identidade judaica”. (p.173).
       A  “pós-modernidade é caracterizada por uma crise de valores que sanciona o impasse da secularização” (p.174)...  só a “redescoberta da Torá e a observ6ancia dois mandamentos permitem dar de novo  um sentido a sua vida... pois a época moderna é uma “era de anomia” (p.175) .. , nos Estados unidos, duas encarnações da identidade judia compartilhavam as preferências da maioria: o judaísmo “reformado” e o “judaísmo conservador” (p.180). Em Israel na década 60 presencia igualmente mutações estruturais que preparam o desabrochar dos movimentos religiosos da década seguinte....(p.185) .. os sionistas... eram portadores de um messianismo de redenção, emora não soubesse disso: O Estado de Israel era instrumento inconsciente da vontade divina” (p.188) .
       No mundo judeu, ... a década de 60 foi o período da gênese ideológica dos movimentos de reafirmação do religioso que viram a ter uma tradução organizacional na década seguinte.  Gush Emunim se opõe a qualquer veleidade de trocar alguma parcela inalienável dessa terra,,,, e se empenha numa política de implantação de colônias em lugares ocupados....Gush surge no espaço num momento em que a sociedade israelense conhece um malogro profundo...  “desordem criam um terreno favorável à expressão de alternativas aos projetos de um governo que parece haver perdido a capacidade de iniciativa e está submetido a fortes pressões internacionais para constrangê-lo a fazer concessões territoriais... para defesa, “os fundadores do Gush adotam uma atitude deliberadamente ofensiva” (p. 194).  Auxiliados pela impunidade e o êxito da operação, sem represália chega ao terrorismo.
       “No nível da Ideologia e filiação sociocultural... o processo de rejudaização ou “reislamização “pelo alto” levado ao extremo: a passagem para a violência contra um objetivo simbólico, a fim de precipitar a transformação do Estado. Do lado Judeu, trata-se de encontrar o caminho da Redenção e do advento do reino de Israel” (p.204).
       O “Judaísmo ortodoxo” ... adota primeiro uma estratégia de rejudaização “por baixo” que leva seus discípulos a romper com a sociedade local na vida diária e morar em guetos comunitários, tanto em Israel como na diáspora” (p. 206) ... .
       A partir de meados da década de 80, o mundo haredi fez uma entrada triunfal no cenário político israelense (p.214) ... pois  o mundo haredi era um universo compexo minado por divisões internas. A rivalidade dos rabinos entre si  os impediam   de formar frente unida diante de diversas expressões secularizadas do judaísmo contemporâneo .. estes propõe que os mandamentos sagrados sejam observados pelos judeus, mostrando a diferença daqueles em relação aos membros da sociedade  que não observam os mandamentos.
       Em Jerusalém, o Judaísmo “negro” aumenta incessantemente sua influência, tantos nos bairros antigos como nas novas cidades-dormitórios da periferia urbana.
       Portanto, “no mundo Judeu, o acesso político dos movimentos de afirmação religiosa “por baixo” ficou mais aberto a partir de 1980....mas para além do Estado Judeu, esse modelo de acesso à política apresentado pelos movimentos de rejudaização “por baixo” adquiriu amplitude considerável na diáspora nos Estados Unidos, mais recentemente, na França.... No mundo judeu, os bons resultados conseguidos pelo comunitarismo contemporâneo devem muito ao fato de este haver recorrido a uma tradição que culminou na vida autônoma do gueto, ampliada hoje pelos mais ortodoxos adeptos da rejudaização” (p.227).

Conclusão
       O aparecimento desses movimentos deu-se num contexto de enfraquecimento das certezas nascidas dos progressos atingidos pelas ciências e pelas técnicas desde a década de 50. Ao mesmo tempo, o grande messianismo ateu do século XX, isto é, o comunismo, que exercera influência na maior parte das utopias sociais, entrava em agonia e viria a sucumbir no outono de 1989 com a destruição do muro de Berlim, seu símbolo por excelência.
       Os movimentos cristãos, judeus e mulçumanos que observamos se inscrevem nesta perspectiva dupla: no começo, dedicam-se a dar nome à confusão e à desordem do mundo .... depois elaboram projetos de transformação de ordem social, para deixá-la de acordo com as injunções ou os valores da Bíblia, do Corão ou dos Evangelhos.
       Interessa nos aqui “o ecumenismo para na desqualificação da laicidade; além disso, os projetos de sociedade divergem, depois tornam-se profundamente antagônicos, carregando em potencial lutas sem misericórdia nas quais nenhuma doutrina de verdades pode dispensar os compromissos, salvo perdendo o controle dos adeptos” (p.230-1).
       Opinião final, os movimentos que vimos possuíam projetos concretos de reconstrução do mundo. buscavam embasamento para o projeto de sociedade nos textos sagrados. Contando com uma militância ativa, a juventude, os educadores, leigos, cristãos, judeus e muçulmanos, se valendo de uma proposta de retomada do poder “pelo alto” através de cúpulas ou ainda “por baixo” com o apoio das comunidades.
       É comum aos movimentos a crítica contundente à época moderna, racionalismo, compondo os caminhos de cada movimento traça não esconde a crítica dentro de sí mesmo e a outros movimentos..
       Esta obra, além de ser de agradável leitura é didática, proporciona a compreensão da volta à disciplina de cada um dos movimentos, o projeto e reestruturação de cada um deles a partir daquilo que é mais importante: a tradição, o Livro sagrado, volta às fontes.
       O momento não é de grande empreendimento na reconquista do mundo, mas o conflitividade do relacionamento com o diferente poderá acirrar-se numa guerra entre “crentes” que fazem da afirmação da identidade religiosa o critério de Verdades tão exclusivas quanto particulares... e sem dúvida alguma faz o caminho para totalitarismos hegemônicos que não é aspiração da humanidade na atualidade, nem caminho ecumênico.


José Igídio dos Santos - Av: Luiz Bácaro, 391 - 15.600-000 - Fernandópolis – SP - E-mail: j.igidio@gmail.com
  Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo. Docente na Rede Estadual de São Paulo (SEESP)  e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP, Especialista em PIGEAD – Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância – pela Universidade Federal Fluminense – UFF-.RJ e Tecnólogo Superior em Gestão Pública pela IFSC – SC – polo Jales-SP

O Autor  é pesquisador do CNRS (Centre National de Recherches Scientifiques) e professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris. 

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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Crise da Modernidade e emergência do pluralismo cultural sob a ótica antropológica, filosófica e teológica

Crise da Modernidade e emergência do pluralismo cultural sob a ótica antropológica, filosófica e teológica.


Prof. José Igídio dos Santos*

Resumo

Este artigo visa refletir sobre a Modernidade e a emergência do pluralismo cultural sob a ótica antropológica, filosófica e teológica. Estas conjecturas reflexivas originam-se dos seguintes ambientes de análise: as comunidades eclesiais e as instituições educacionais.
 A contextualização é muito importante numa reflexão. Neste propósito, é imprescindível adotar uma postura aberta na compreensão do momento presente, com os dramas e tramas que a realidade impõe. É notável a mudança cultural que é sentida de geração em geração.
 A reflexão sobre a modernidade impõe aos seres humanos uma perspectiva educacional que convida a adotar uma hermenêutica antropológica e cultural que consolide um projeto educacional-transformador. A nosso ver este projeto deveria visar a recuperação da cultura do povo brasileiro. Neste ínterim, notamos em sentido “lato”, que as instituições religiosas têm deixando de ter incidência sobre a realidade vivencial das pessoas e que as instituições educacionais, no prospecto presente, não conseguem trabalhar a totalidade do ser humano.
Vemos que, com o pluralismo religioso, houve uma migração do espaço institucional para o âmbito individual. Desta forma, desvincula a experiência transcendental de instituições religiosas. Dito de outra forma, o espaço religioso vem migrando do âmbito institucional (objetivo) para o âmbito individual (subjetivo). Nota-se que a instituição religiosa deixa de ter preferência face às muitas opções da vida cultural emergente. A experiência institucional da religião deixa de ser a única resposta de fé para o homem moderno, pois, este a busca em uma espiritualidade transcendente que está além dos espaços institucionais. Essa evidência nos questiona sobre a incidência, ou não, dos fenômenos religiosos e das mediações institucionais no fundamento da fé dos modernos. No entanto, é necessário contextualizar-nos e, no âmbito educacional, compreender o momento presente em vista de realizar um projeto antropológico que responda aos anseios dos homens e mulheres de nosso tempo. Portanto, é tarefa da educação despertar nos seres humanos uma melhor consciência das mutações históricas e antropológicas do momento atual.

Palavras chave: modernidade, cultura, educação, religião, filosofia, teologia.


Abstract

This article aims at reflecting on the Modernity and the emergency of cultural pluralism under the anthropological, philosophical and theological optics. These reflexive conjectures arise from the following environments of analysis: the ecclesiastic communities and the educational institutions.
The contextualization is very important on a reflection. For this purpose, it is essential to adopt an opened position in the understanding of the present moment, with the dramas and schemes that the reality imposes. It is remarkable the cultural change that is felt from generation to generation.
The reflection on modernity imposes on human beings an educational perspective that invites us to adopt an anthropological and cultural hermeneutics that consolidates an educational-transforming project. From our point of view this project should aim at the recovery of the culture of the Brazilian people. In this meantime, we notice in “lato sensu”, that the religious institutions have been leaving to have incidence on the existential reality of the people and that the educational institutions in the present prospect can not work the totality of the human being.
We see that with the religious pluralism there was a migration from the institutional space to the individual scope. In this manner, it disentails the transcendental experience of religious institutions. In other words the religious space is migrating from the institutional scope (objective) to the individual scope (subjective). It has been noticed that the religious institution leaves off having the preference in view of many options of the emerging cultural life. The institutional experience of the religion leaves off being the only answer of faith for the modern man since he is searching for this in a transcendental spirituality that it is beyond the institutional spaces. This evidence asks us about the incidence, or not, about the religious phenomena and the institutional interventions in the foundation of the faith of the modern ones. However, it is necessary to contextualize ourselves and, in the educational scope, to understand the present moment in order to carry out an anthropological project that answers the wishes of the men and women of our time. Therefore, it is the task of the education to awaken human beings to a better conscience of the historical and anthropological mutations of the current moment.

Words key: modernity, culture, education, religion, philosophy, theology.



1. Compreendendo a Modernidade

A modernidade é uma categoria de leitura do tempo histórico. Cabe a nós um alerta: ter o cuidado para utilizar uma forma coerente às categorizações do tempo, mantendo uma postura hermenêutica crítica face à realidade do cotidiano. Sabemos que, para conhecer esta realidade, é necessária uma perspectiva analítica do tempo presente. Portanto, nunca podemos julgar o passado com as categorias de análise que utilizamos na atualidade; se assim o fizéssemos cairíamos sempre numa postura moralista da história agindo como juízes do tempo, condenando o passado, sem o mínimo de respeito às categorias mentais em que os fatos aconteceram. No entanto, olhar o passado sempre nos faz atentar mais para o tempo presente em vista de descortinar novas prospectivas de futuro. Vivendo na modernidade, reportamos ao passado, sem anacronismo, e descortinamos nesta retrospectiva uma atitude fundamental para a história: a consciência de que aprendemos com os erros e podemos redirecionar nossas opções históricas para que o futuro não nos atemorize. Desta forma podemos perceber que a modernidade, com todos os seus pressupostos, entrou em convulsão por falta de cuidado com o ser humano. Sabemos que, na contemporaneidade histórica, o presente de nossa história está em crise de paradigmas, crise de perspectivas e podemos constatar que existe um mosaico a ser construído com nossas experiências. Hoje, com facilidade, identificamos atitudes que mesclam atraso e progresso e como alerta podemos constatar que nem tudo que é tecnicamente viável é eticamente aceitável; nem sempre o moderno significa avanço humanitário. Na modernidade há uma novidade contrastante entre antiquado e o desumano; e temos a sensação de que o novo da modernidade está sempre travestido de algo que já existia.
A modernidade hoje se caracteriza como um processo de mudança civilizatória em nossa sociedade, decodificada por uma “mudança de época”, que é abrangente e atinge todas as dimensões da vida humana, do nascer ao morrer; modifica as relações culturais e abarca os aspectos: sócio, político, econômico e cultural.  Erigido sob a égide da emancipação do ser humano, é ancorado no tripé: liberdade, felicidade e racionalidade. E aqui cito Libâneo, um dos teólogos mais ‘antenados’ no tempo e que soube trabalhar a realidade contemporânea no contexto sócio-histórico-cultural, sem deixar de lado o elemento da crítica, que nos diz:

“Na modernidade, com seu tríplice discurso da liberdade, felicidade e razão, não há lugar para os pobres. A liberdade dos pobres é formal. “Podem’ ter acesso a todos os bens de consumo materiais, artísticos. Não são proibidos por nenhuma lei. Mas não dispõem de dinheiro, escolaridade, saúde que lhes permitam ter esse acesso, e usufruir dessa liberdade. E sobre o tema liberdade, monta-se a imensa máquina ideológica capitalista. Cria-se esta gigantesca ilusão. ... O discurso da felicidade é ainda mais enganador. As propagandas, os programas de TV, a inundação de imagens, que gritam por todos os lados por prazer, por gozo, por satisfações, terminam ou açulando desejos, impossíveis de serem satisfeitos, ou desencaminhando-os para labirintos tortuosos do vício, da criminalidade, da pornografia desenfreada. Cria-se a felicidade dos grandes centros, à custa de enorme miséria, sofrimento, privações, humilhações, degradações humanas. O discurso da racionalidade, que se nutre do estudo, da pesquisa, da ciência, esbarra contra o analfabetismo, a evasão escolar, a impossibilidade de uma escolaridade estruturada, progressiva.  ... Os pobres nessa modernidade do discurso, da palavra lida e escrita, da força do dinheiro, do poder, do prestígio e do “status”, do culto da forma e da beleza, estão excluídos. ... A modernidade nos países pobres só tem de universal o discurso. A prática é seletiva, excludente, privilegiante, parcial”( Libânio, 1992, p. 153).

1.1 - Multifaces da modernidade:


A modernidade possibilitou o avanço tecnológico e em face dessa realidade, emergem movimentos de volta ao sagrado, considerados uma reação de busca ao sentido da vida associado ao vazio existencial dos homens e mulheres nos tempos de (pós) modernidade. Essa crise de sentido é muito complexa, nem sempre é uma realidade consciente.
Ademais, há uma notável emergência do feminino. Surgem movimentos e grupos com a bandeira da resistência colocando em xeque a histórica hegemonia masculina.
É perceptível e fundante a contribuição do status moderno à revolucionária emergência da informatização que está revolucionando a comunicação pessoal estabelecendo novas perspectivas que nos permite passar facilmente do plano pessoal ao coletivo e deste ao laborativo (internet) (cf. Moran,1998).
Com o advento da informatização, o chamado fenômeno da globalização ou planetarização ganhou espaço principalmente no mercado, na economia, que on-line possibilita um universo plural de possibilidades a compradores e vendedores agora facilitados com o uso dos cartões de crédito para o consumo de bens duráveis ou fungíveis.
No âmbito ecológico é importante a emergência de uma nova consciência planetária que busque cuidar da natureza enfatizando o enlace existente entre todos os seres naturais, minerais, cósmicos – numa rede de relações que formem uma teia de relações interdependentes. Esta nova concepção ecológico-planetária deverá modificar nossa concepção de cultura, passando da perspectiva exploradora para uma nova perspectiva cultural macro-ecológica que vise o estabelecimento de redes de relações, de interdependências entre todos os seres. Esta forma de ver a realidade vem consolidando como novo paradigma deste momento (pós) moderno com o embasamento da teoria dos sistemas vivos que possibilita a emergência de uma nova proposta que passa da ontogênese para a antropogênese ecológica em vista da consolidação de uma nova consciência planetária. O planeta e a vida estão ameaçados pelo descaso com a nossa mãe-terra e com o universo (cf. Boff, 2004,320p.)

1.2 – Interfaces da Modernidade

Neste subtítulo veremos as interfaces da modernidade mostrando alguns aspectos contraditórios em vista da crítica ao pensamento técnico-científico com elementos excludentes que são aqui analisados através da racionalidade filosófica-crítica:
·         A automação das empresas que utilizam as máquinas ou robôs excluindo o ser humano do processo de produção, personificando na robotização os seres humanos em vista da produção, do lucro; com isso aumenta o desemprego, pois a mão de obra humana é desnecessária na produção em grande escala. Por conta disso, o desenvolvimento técnico-científico vem atrelado ao desrespeito à ordem natural, ao planeta e às relações humanas que, em última instância, incide na violência institucionalizada, no narcotráfico e no crime organizado.
·         A fragmentação da sociedade no âmbito econômico, social, político e cultural incide nas mutações dos paradigmas perceptível em todos os aspectos, mas é sentida de forma muita acentuada no processo de desestruturação das famílias tradicionais face às dificuldades oriundas da adaptação ao novo contexto emergente (falta de contatos humanos, de condições sócio-econômicas e culturais). Emergem novos modelos de famílias em que, no momento, não há uma classificação, mas existem estudos recentes buscando a compreensão das famílias modernas.
·         Dentro do aspecto antropológico, existe a tendência ideológica de fragmentação do ser humano e, em contrapartida, há uma proposta integradora emergente que propõe uma perspectiva holística que visa “cuidar do homem todo e de todos os homens”. Já que a totalidade e a plenitude dos seres humanos, em conexão com o cosmo, fundamentam a missão do tempo presente em vista de uma esperança de vida no futuro.
·         A crítica ao avanço técnico-científico se incide na falta de cuidado com a natureza, e como antídoto a essa inconsciência, é necessário uma compreensão da natureza como um organismo vivo que quer viver para nos dar vida com qualidade.
·         É necessária uma crítica à intolerância, ao dogmatismo, tendo, como via de abertura, a compreensão da relacionalidade entre o pluralismo filosófico contextualizado historicamente, este pluralismo social auxilia de forma comparativa a descoberta do melhor modelo de sociedade, pluralismo político capaz de impetrar atitudes cívicas e patrícias em vista de administrações políticas nobres, honestas e menos corruptas e neste ínterim, o aspecto religioso é fundamental na superação da inversão de valores éticos e morais a que está submetida a humanidade inculcando estes pressupostos de forma transcendental.
·         Exacerbação do hedonismo em vista de uma satisfação através de relacionamentos prazerosos geralmente de âmbito sexual ou erótico, com a colaboração da pornografia on-line.
·         Contra o preconceito e o aumento das exclusões étnicas, culturais, econômicas, políticas são necessárias novas concepções sobre a emergência da eticidade no âmbito histórico, que visará à consolidação de uma nova forma de convivência humana, sobretudo, o respeito e consciência de co-responsabilidade histórica.
·         Em vista da hegemonia do capital - as leis de mercado, com sua forma autoreguladora da vida social e pessoal propõe um padrão social de consumo às classes detentoras do poder econômico e, aos demais, o consumo dos bens que o mercado populariza em vista de atender outra fatia da população de menor poder aquisitivo. Neste contexto ‘existir é consumir’, você é o limite do seu cartão de crédito e notamos de forma escandalosa os assédios das operadoras de cartões de crédito e dos bancos em busca de novos clientes. E a manutenção do consumismo se dá através do marketing veiculado pelos meios de comunicação de social (MCS) que incentiva o desejo de compra aos novos consumidores. Quem não tem um sonho de consumo? ! Não é mesmo!
·         Hoje, a supremacia do saber científico ocupa um lugar privilegiado na modernidade, o que se convenciona dizer que 'saber é poder' e a hegemonia do saber é vista como 'propriedade intelectual' e cada descoberta vai sendo patenteada erigindo assim a descoberta científica como identidade pessoal do cientista pesquisador; o saber empírico comprobatório torna-se elemento auto-regulador da ciência e do saber.

1.3 - Entendendo alguns aspectos da modernidade.

A modernidade é um processo de enorme transformação que contrapõe normas, deveres, autoritarismo.             Ninguém mais impediu os cientistas de descobrirem. O grande sonho da modernidade - a liberdade - é colocado em xeque pela história.  Não faltam exemplos de nossa insanidade e, cedo ou tarde, percebemos nosso desvio de conduta e descuido com a vida.
            O ano de 1.945, marca a sociedade livre e destrutiva (bomba atômica). Livre para experimentar suas descobertas. Destrutiva por não medir as conseqüências, e justamente aí está sua irracionalidade. Sob a égide da autonomia, a ciência é vítima de sua astúcia inventiva.
            Posso perguntar: em nome da liberdade posso fazer o que bem entendo?  
 Se usarmos o bom-senso, vamos descobrir o valor do consenso. Mas a modernidade acredita que não existem barreiras para ela. Quer romper recorde. E constitui um projeto luminoso. Como a ciência, a política e a economia rompem com os vínculos éticos e morais. Tudo em nome do progresso, que se chama liberdade.
            A liberdade se expressa no desenvolvimento que se chama progresso ilimitado. O único critério é a possibilidade. Se for possível fazer algo tecnologicamente, então faça! E aí se justificam todas as espécies de pesquisas científicas, e a que mais vem preocupando moralistas e teólogos são as pesquisas que se desenvolvem no âmbito bio-antropológico como a recente pesquisa sobre a clonagem.
No centro da modernidade temos outro sonho: o da igualdade. Quem é que vai propiciar esta igualdade? - O progresso! Iniciaríamos o século XX todos com melhores condições de vida. Mas levamos um susto: a sociedade nunca foi tão desigual. A desigualdade só aumentou. Há muitos bens produzidos disponíveis no mercado, mas o acesso não é igual para todos. Um dos amargores do final do milênio.
A modernidade conseguiu mais do que foi imaginado. Nos últimos 50 anos o progresso foi maior do que no restante da história. Nunca os desejos foram realizáveis tão rapidamente como hoje.  Mas o sucesso da modernidade é excludente, desigual, desumano!

2. O Brasil - Espelho do que a modernidade conseguiu:

            A indústria automobilística, de eletro-eletrônicos e de produção de grãos conseguiu cifras até hoje nunca anunciadas.
Na modernidade existe uma racionalidade irracional. Explico-me: A modernidade é contraditória: inventa carros, aviões, realizam cirurgias plásticas, transplantes, etc., e não sabe lidar com o sofrimento, com a doença, com a morte, com a longevidade.
            Por que será que a modernidade não conseguiu articular liberdade e igualdade?  - Todo esse fracasso é programado ou é conseqüência da modernidade?
            A história não é conspiração e nem eterno retorno, não é anacrônica e diacrônica. O sonho é de liberdade e igualdade. Não é possível dizer que foi tudo programado. A discussão é acadêmica e existem diversas correntes.
            Existe uma corrente que defende que a igualdade é um sonho impossível, que as pessoas são fundamentalmente desiguais. O mundo é constitutivamente desigual. O sonho de igualdade, para essa corrente, é um sonho irreal.
            Procurando entender melhor a modernidade como processo de transformação, vamos observá-la sob dois aspectos: as transformações sócio-econômicas e as transformações ético-cultural.

2.1 - Grande transformação sócio-econômica

Características dessa transformação:      

2.1.1. Revolução tecnológica: a humanidade passou pelas revoluções agrícola e industrial. Hoje vive a revolução tecnológica, da informática, do conhecimento. Avanço: menos operários, menor quantidade de máquinas, maior sofisticação e produção. A capacidade de processar novos conhecimentos e informações, isso faz do computador um elemento de inovação. Em 1970, uma descoberta na área da indústria durava dois anos. Nos anos 80, um ano. A partir de 90 a cada seis semanas e nos bancos a cada 24 horas. (Toffler, Alvin. 1992. 491p).
Outro elemento que compõe a revolução tecnológica é a capacidade de transmitir informação - comunicação. O uso do sistema digital (átomos - substituídos por bytes) agiliza o processo em dez vezes.

2.1.2 - Depreciação das matérias-primas[1]: Nos anos 90 houve uma queda de 40% no custo das matérias primas, 60 % do custo de um automóvel correspondia à matéria prima e mão-de-obra. Nesta década passa a ser 10%. Assim o Terceiro Mundo, que possui matérias-primas, fica descartado. Como reação a isso, temos a preocupação com a agricultura orgânica, volta às coisas mais naturais.

2.1.3 - O trabalho não é mais necessário: "Pior do que ser explorado pelo trabalho é não ser nem mesmo explorável"[2]. O mundo fica mais rico sem tanto trabalho. A produtividade de um trabalhador hoje é 80 vezes maior que nos anos 40. Os trabalhadores passam por situações de irregularidade. Começa a faltar trabalho. A questão da qualidade total significa sempre redução de mão-de-obra. Esta mudança não é periférica, superficial. De repente, estamos num mundo onde o trabalho não é mais necessário.
Começamos a ter um grupo central que tem um trabalho estável, que está altamente especializado e é muito bem pago. De outro lado, temos dois subgrupos:
a) Trabalho integral, de rotina. Ex.: secretária, faxina...
b) Trabalho parcial, terceirização: alimentação, vigilância...

2.1.4 - O conhecimento: fator de produção decisivo. Hoje a disputa é para saber quem é o “dono” do conhecimento. Um dos homens mais rico do mundo, Bill Gates, ocupa 16 mil pessoas em sua empresa de conhecimento Microsoft. O poder está onde há conhecimento, e a sua manutenção se dá quando este se torna poder econômico.

2.1.5 - Fluxo financeiro: a modernidade faz com que o dinheiro seja cada vez mais onipresente, onipotente, imaterial, substituto de Deus. Um trilhão de dólares circula diariamente pelo mundo de forma abstrata, pelo simples toque de algumas teclas de computador.

2.2 - Grande transformação ético-cultural

            Desde os gregos até o início da idade moderna havia a visão de que a pessoa humana só é na medida em que ela participa da polis, da vida da cidade. A vida da cidade se dá na praça pública, lugar dos discursos. Tomás de Aquino retoma Aristóteles, dizendo que a pessoa humana é quando é capaz de amar (Reale, G. & Antiseri,D., 1990)
            Para a modernidade esse discurso já passou, é moral. Nenhuma sociedade organizou-se economicamente baseada no Sermão da Montanha de Jesus de Nazaré. A moral sempre vai defender a partilha, a solidariedade. A modernidade, contrariamente, vai afirmar que a pessoa por natureza é egoísta, é movida por paixões. A moral tenta canalizar essas paixões. A modernidade vai raciocinar: - Se nós deixarmos livres as paixões, como vamos organizar a sociedade? Será que não existe entre elas uma que consiga dominar todas? Assim é alimentado o individualismo. O capitalismo nas intenções morais é péssimo. Mas, nos seus resultados, se vê o crescimento à humanidade.
            Notamos que hoje a pessoa humana está autocentrada, individualista. E isso é característica das mudanças que vivem. Cada vez mais cresce a crença de que somos pessoas incapazes de fazer o bem pelo bem: “Eu procurando o meu próprio bem faço bem aos outros”. É uma espécie de moral-privacidade.
            Hoje o desejo está em primeiro lugar. O prazer e o amor tornam-se secundários. Procuram-se meios de como encantar o cliente. O bem do outro não é o fim. Em vista do meu bem faço o bem dos outros. Crio desejos. (Novaes, A.(org) O desejo, 1990. 503p).
 Nós vivemos numa sociedade do pós-dever. A renúncia, o sacrifício, o doar-se oblativamente não estão em vigor. Eu ajudo o outro fazendo aquilo que me dá prazer. Ex.: Tomando uma bebida, ouvindo uma música - We are the World - ajudo a Etiópia.
            Nesta condição de cultura individualista se melhora a qualidade das relações para mais personalizadas, em vista de cativar clientes. As normas sociais de conduta não são mais importantes. O como devo viver torna-se uma questão de gosto, de preferência individual, ou moral, ou ética, ou religiosa. Vivemos num mundo onde a tudo é atribuído à relatividade ética. Existem normas tanto quanto existem gostos. Nada se pode exigir de alguém. E em ninguém se pode reconhecer o direito de exigir de alguém. Isso significa a suspensão de julgamentos.
            Vivemos a solidão[3]. Vivemos num mundo narcísico, no qual a prioridade do indivíduo é a sua autonomia e o alcance de sua felicidade. O Ideal de saúde coloca limites a um hedonismo inevitável. Poderá amar só a ti mesmo, perseguir o teu prazer, mas sob a condição de antes cuidar e manter o teu corpo. A moral, a norma na modernidade é substituída pelo médico. A necessidade moral de estar e permanecer em forma conforta cada um no bem fundado desejo de estar distante dos outros. (cf. Dacquino,G., 1992)[4].  Acontece o sacrifício do corpo para o bem próprio, eliminando a alteridade[5]( Zimmermann, R., 1987) A modernidade leva a super valorização do indivíduo.
            Assim como afirma Karl Marx.: que “Tudo o que era sagrado se torna profano, tudo o que é sólido se desmancha no ar”. (Marx, Karl., 1985.).      
            A felicidade subjetiva irriga a busca cotidiana.  A humanidade não se dedica em vencer o desejo, o prazer, (Plé, Albert.,1984) [6] ao contrário, os desculpabiliza; supervaloriza o gozo do presente; o templo do eu se converte numa nova religião.


2.3.1-Características da transformação ético-cultural:

2.3.1.1 – O Neo-individualismo

Os programas de qualidade total estão na lógica da competição e da negação do outro. É de novo, inclusão de uns poucos e a conseqüente marginalização da maioria. A vida social é uma grande “guerra”. Como fazer política numa sociedade onde o isolacionismo constitui a norma e a forma das pessoas viverem?
Notamos uma baixa ao trabalho associativo, mas existe uma incipiente consciência que a sobrevivência das comunidades só é possível se houver parcerias para os trabalhos, buscando a unificação de potenciais.

2.3.1.2 - Substituição da ética pela estética:

A modernidade é a situação em que a relação interpessoal foi substituída por uma relação objetal e mercadológica. Tudo foi transformado em coisa: terra, vida, pessoa. Enfim, em mercadoria. Não são as pessoas que dizem quanto valem as coisas; mas, as coisas é que dizem quanto valem as pessoas. Passa a valer o que a pessoa tem e não o que ela é. Em um último estágio desta realidade as pessoas se tornam ‘coisas descartáveis’. Daí as exclusões em massa das guerras presenciadas no final do milênio passado e no início deste. Tantas pessoas se tornaram objetos de perseguição por lutar por mais justiça social; e, nessa luta, as suas vidas se tornaram “perigosas” para quem detém o poder e, quase sempre, são eliminadas pelo infortúnio à paz dos interesses alheios.
Por que diante dos terrorismos, guerras iníquas, narcotráfico, corrupções, violências, opressões, descaso dos políticos com a coisa pública, os intelectuais e formadores de opiniões ficam calados? Esta insensibilidade social só pode ter uma explicação: a coisificação das pessoas. Os direitos humanos são substituídos pelos direitos hegemônicos dos detentores do poder político, ideológico e militar.
A tecnologia faz com que nos tornemos distantes uns dos outros, o relacionamento interpessoal é substituído por outras formas de comunicação virtual.
A modernidade é caracterizada por sua objetividade e praticidade e isso dispensa o envolvimento entre as pessoas, procurando sempre formas virtuais de relação.
Por falta de critérios éticos, concordamos com o que é mais elegante[7]. Os critérios estéticos substituem os éticos:
            Disse Karl Max: “Toda mercadoria é um mistério”.( Marx, Karl, 1998, p. 68.) Ela tem um véu que encobre uma realidade. Esconde as relações sociais que a produziram.  Tocando uma mercadoria estou tocando em trabalho humano, em sangue, em força humana. Nem sempre podemos consumir bens que melhoram nossa qualidade de vida, pois, é preciso priorizar a subsistência e alguns bens e produtos não cabem em nosso poder de compra. Neste ínterim, a qualidade de vida aos humanos se torna bens de consumo raros, possível apenas para uns poucos privilegiados.
            A sociedade civil começa a se organizar através de movimentos sociais, tais como: movimentos ecológicos, feministas e pela ética na economia. Muitas associações e organizações não governamentais tendem a ser a consciência dos homens que se perderam em face de uma realidade opressora e que necessita de libertações em diversas perspectivas e, nesta tarefa, cabe a nós, educadores, desempenhar o papel de despertar, nos educandos, o desejo de participação ativa e efetiva, provocando em cada agente da educação a necessidade de uma encarnação real.
O nosso desafio não é entrar na modernidade. Ela já nos envolve. Estamos na modernidade e, até para alguns, na pós-modernidade (cf. Lyon, David , 1998. p.136)[8]. Como apontar rumos e encontrar caminhos libertadores? Entre tantos questionamentos feitos, apontamos algumas vielas nas quais podemos andar sem medo de ser felizes.
Precisamos buscar uma visão teológica:
· Discernimento: conhecer a realidade. Saber escutar e manter o SIM e o NÃO de Deus na história.
· Conhecer qual o Plano de Deus, o Projeto de Jesus Cristo. Ter presente as palavras de São Paulo aos Romanos: “Não vos conformeis com este mundo. Mas transformai vossa mente...”(Rm 12,1-2).
·Manter os valores do Reino: dignidade da pessoa humana, igualdade, partilha, solidariedade, defesa da vida...
·Tomar consciência de que não precisamos de tudo só porque é possível. Precisamos desejar o impossível.
·Fortalecer nossos laços comunitários.
·Fazer parcerias com outros setores da sociedade.


3 - A cultura como princípio integrador do Ser humano.

No passado o homem era no mundo apenas um ser entre outros seres. Vivia em contato íntimo com a natureza e a escutava. Ela o desafiava, mas era também sua companheira e lhe falava ao coração. Seus valores, suas crenças  e suas práticas refletiam esta relação vital. O cosmo humano era, enfim, bem diferente do atual. O tempo, as ambições, as conquistas e, talvez, a própria natureza do homem foram, aos poucos, alterando as relações e a ordem das coisas. Ampliando seus conhecimentos, dominando novas tecnologias, o homem adquiriu uma autoconfiança desmedida que o separou da natureza. As revoluções técnico-científicas trouxeram progresso, mas também destruição ecológica, dominação e violência. Submetida e dessacralizada, a natureza se calou. Tirano de si mesmo, o homem foi se tornando só”( Coltrin,1993. p.14).

3.1 - O que quer dizer a palavra cultura?

Para dar vida e esperança ao povo, diante de todo este fenômeno da modernidade, faz-se necessário redescobrir o valor e a importância da cultura. Ela é um fator integrador da unidade humana, tão diluída na modernidade com seus esquemas destrutivos de forma subliminar e inconsciente. Procuremos compreender sob a ótica dos povos simples buscando uma hermenêutica que parta de sua realidade vivencial, sabendo que seu dia-a-dia é ultrajado pelo monstro sistêmico–neoliberal da cultura moderna. Na tentativa de resgatar as dívidas no campo cultural nos propusemos a refletir a emergência do valor do pluralismo cultural em nosso meio.
            Para entender a palavra cultura é preciso entender o que é natureza. Como gosto muito de fotografar, peço que você imagine comigo uma fotografia de uma casa na roça.
O que aparece na foto? (uma montanha, uma árvore com um banquinho debaixo, uma ponte sobre um riacho e dentro do riacho o barquinho da pesca, uma casa coberta de sapé, um varal de estender roupas ao sol, um cachorro perto do poço de sarilho).
 Nesta foto que está na minha e na sua cabeça: o que é natureza e o que é cultura?
A resposta é muito simples: Natureza é tudo aquilo que Deus fez (a montanha, o riacho, o cachorro, a árvore, o sapé, o sol), cultura é tudo aquilo que o homem e a mulher fizeram (é a casa, é o banquinho, o barquinho, a ponte sobre o riacho, o varal, a roupa). Portanto, cultura é tudo aquilo que a gente faz para poder ter melhor qualidade de vida.
Mas há dois tipos de produtos culturais. A culinária é cultural e nós preparamos os alimentos para comê-los, diferentemente dos outros animais que comem sem nenhum preparo tempero, cozimento...
Realmente não existe só a cultura do comer, do vestir, do morar, ser transportado... Existe outra cultura também importante: “Tem a cultura daquilo que a gente produz e tem a cultura daquilo que dá sentido para a vida da gente”. Para falar duas palavras acadêmicas: Tem a cultura material (o banco, a casa, o barco, o varal, a ponte...) e tem a cultura simbólica (ligado ao valor do significado).
Olhamos as nossas mãos e sabemos que ela é uma ótima ferramenta para pegar, apalpar. E sabemos que todos os animais a possuem e só por meio de adestramento que algum de nosso animalzinho de estimação pode expressar símbolos utilizando “as mãos”. Mas para o ser humano o gesto é um símbolo cultural.
Se eu fizer positivo, é fácil a apreensão do significado deste símbolo positivamente, mas se eu fizer qualquer gesto obsceno o seu significado será oposto ao anterior. Portanto, a cultura simbólica é muito forte em nosso dia-a-dia.
Outro exemplo: “se você estiver andando por uma estrada e encontrar dois gravetos no chão, não vai dizer nada para você. Se ao voltar por este mesmo caminho encontrar aqueles gravetos enfiados no chão e amarrados um na horizontal e outro na vertical, você ali pára para rezar”. Observe, são os mesmos gravetos, mas foram transformados num símbolo cultural-religioso.
O símbolo mais significativo de nossa cultura ocidental é a cruz. A cruz, como ainda é um problema para nós cristãos, (sofrimento), portanto, não se torna um símbolo cristão por excelência. É o nosso desafio para o terceiro milênio: encontrar um símbolo que por excelência expresse nossa fé na ressurreição.  Nós temos ainda um símbolo da morte e não da vida. Dificilmente se encontra em igrejas e santuários algo que simbolize Jesus Ressuscitado.
Todos nós temos cultura e somos seres culturais. Todos nós fazemos cultura material e simbólica. Mas muita gente pensa que não tem cultura.
A pergunta que fazemos é a seguinte: Por que vivemos numa sociedade desigual como a do Brasil?
            A elite brasileira é composta de aproximadamente 40 milhões de pessoas - os incluídos - os que possuem qualidade de vida total. Como a modernidade está ao seu serviço, para estes se dirigem as propagandas de marketing do mercado neoliberal. Nós sabemos que o Brasil não possui apenas 40 milhões, somos aproximadamente 180 milhões de pessoas. Somos aproximadamente 120 milhões de brasileiros (as) mais ou menos 20 milhões de crianças que ainda estão aprendendo a andar.  Portanto, há mais ou menos 120 milhões de pessoas fora do mercado de consumo de bens supérfluos (a que se dirige o marketing para a elite). Nós consumimos arroz e feijão, mas não dá para consumir livros, escolher marcas de xampu, escova de dente, creme dental, sabonete, pagar um transporte melhor, comprar um carro, Nem pensar!  Isso só é para os 40 milhões de incluídos (que tudo têm e podem).
Ora, todos nós temos cultura, mas nem sempre sabemos de nosso “valor cultural”, porque numa sociedade desigual, a cultura que predomina é a de quem manda na sociedade (a elite - donos do poder sócio-político-econômico e ideológico).
No passado do Brasil havia escravo: “quando um escravo fugia quem ia atrás não era o dono dos escravos (os senhores) e sim outro escravo”. Exemplo um pouco recente: os soldados, que atiraram nos sem-terra em Eldorado dos Carajás, são eles também sem terra e filhos de sem terra.
O que acontece é o seguinte: numa sociedade desigual, a cabeça do oprimido “tende” a pensar pela cabeça do opressor.
“A cabeça dos pequenos tende, ‘nem sempre é assim’ a ser hotel do grande”. Vamos nos perguntar: será que a minha cabeça hospeda mentalidade do grande ou estou pensando com a minha própria cabeça?

Um exemplo da vida:

Um médico sedento para ajudar as mulheres da favela a cuidarem melhor de seus filhos e a ajudá-las no planejamento familiar com os métodos naturais de contracepção.
O Problema: nós que passamos por faculdades e ou universidades temos muita dificuldade de falar a linguagem popular de nosso povo simples. Às vezes sintonizamos em FM e o povo em AM e aí há uma falha na comunicação.  Para que haja comunicação é preciso estar na mesma sintonia. Quando se descobre o ponto de curto circuito da comunicação corrige-se ali.
Dr. Raul começou a explicar para as mulheres da favela sobre a importância do leite materno. Começou dizendo: “D. Maria, o aleitamento materno é indispensável para a criança, pois ajuda na formação esquelética, cálcica, prevenção de diversas doenças infecto bacteriológicas, etc”.
Estando lá um intelectual orgânico (Staccone, Giuseppe, 1991. p. 83-89.): aquele que sabe descer ao nível do povo, perguntou a D. Maria:  “A Sra., entendeu tudo o que o Dr. Raul explicou para a senhora.?” Ela disse:  “Não”. Perguntou: “Por que a Sra., não entendeu?”  “É porque o Dr. Raul é estudado e eu não!” -  respondeu D. Maria.  Aí o intelectual orgânico perguntou ao Dr. Raul: “Dr. Raul, o Sr. sabe cozinhar? “Ao que respondeu que não, perguntou se D. Maria sabia cozinhar. Ao que respondeu: “Sim”. Então pediu a ela que explicasse como é que faz frango a cabidela. D. Maria nos explicou desde o matar o frango até chegar ao ponto de servir. Foi uma senhora aula de culinária.
Disse à D. Maria: “Se um dia a senhora e o doutor Raul se perderem numa floresta e lá só tiver uma galinha, a senhora sobreviverá e o Dr. Raul com todos os seus diplomas não” D. Maria deu-lhe um sorriso de orelha a orelha, e descobriu, naquele dia, que não existe gente mais culta do que outra.
O que existem são culturas paralelas, culturas diferentes - todos os humanos têm cultura.
Mas acontece que, numa sociedade em que poucos vão à escola (cf. Fraternidade e Educação, 1998), estes poucos tendem a dominar os que não tiveram chance. Usam todos os meios possíveis (rádio e TV) para enfiar na cabeça de quem não foi à escola ou que foi por pouco tempo, que só têm valor cultural aqueles que exibem um diploma - quem não tem diploma - não tem cultura. Essa é uma grande mentira cultural que temos que arrancar das nossas mentes.
Se você perguntar para mim como se organiza um encontro, uma aula, uma palestra, eu penso que tenho cultura – experiência para dizer.  Mas se me perguntar como é que faz certas coisas daquilo que todos os dias vocês fazem, eu garanto para vocês que não vai dar em nada, pois existem coisas de seu trabalho que só você sabe fazer e mais ninguém. (carpinteiro, pedreiro, funileiro, mecânica, eletricista, pintor...), nada disso eu saberia fazer: pois eu não tenho cultura para isso.
Mas, numa sociedade desigual, colocaram na cabeça da gente - que quem tem cultura cerebral é o verdadeiro dono da cultura. E quem tem cultura manual (labor manual) não tem cultura.
Se você perguntar para um intelectual biólogo ocidental o que é um elefante: ele começa a descrevê-lo na sua composição biológica. O povo quando diz de alguma coisa é porque já fez a experiência real daquilo que confirma.

3.2 - A cultura de Jesus no contexto de seu tempo

Jesus foi um homem que tinha consciência da cultura de seu tempo (Saulnier, Cristiane & Rolland, Bernard. A Palestina no Tempo de Jesus, Ed. Paulinas, 1983, Col. cadernos Bíblicos). E a cultura que estava na cabeça dele não era a mesma que estava na cabeça dos que mandavam na Palestina de seu tempo.
Na Palestina: seguiam-se alguns costumes:
· Na hora de comer deviam lavar as mãos (três vezes);
· Jesus já sentava com seus discípulos e comiam sem lavar as mãos.  Sabia que na região tinha pouca água (como no nordeste como um todo) e era preciso economizar água para coisas mais vitais.
· Jesus diz bravamente a eles: “vocês deveriam lavar os vossos corações e não as vossas mãos, pois não é o que entra no homem que suja, e sim o que sai de dentro do homem”.

A cultura de Jesus era a favor da vida e a cultura dos fariseus era a cultura da lei - da obediência - do poder que oprime.
No trabalho que temos cada qual exerce uma função, e muita gente que fez faculdade ou universidade, nunca conseguirá fazer o que uma pessoa do meio popular sabe.
            Mas na cabeça da gente tem muita coisa que é da cabeça do grande. Para que isso mude, é preciso ter uma consciência crítica em face da pluralidade cultural.
E aqui vale o ensinamento de Jesus: “fez-se carne e habitou entre nós”. Habitar no meio das diversas culturas e acolher o diferente e buscar, junto, o resgate das dívidas sociais no campo das culturas, é uma preocupação constante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

3.3 - Definição:

Cultura: Conjunto de modos de vida criados e transmitidos de uma geração para outra, entre os membros de determinada sociedade. Abrange conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras capacidades adquiridas socialmente pelos homens (Coltrin, 1993, p. 15.)
A cultura pode ser considerada, portanto, como amplo conjunto de conceitos, de símbolos, de valores e de atitudes que modelam uma sociedade. Ou seja, a cultura engloba o que pensamos, fazemos e temos enquanto membros de um grupo social.  O termo cultura é aplicável a qualquer civilização (antiga, moderna, contemporânea). Todas as sociedades humanas, da pré-história aos dias atuais, possuem cultura.
A cultura é a resposta oferecida pelos grupos humanos ao desafio da sua existência. Em termos de conhecimento (logos), paixão (phatos) e comportamento (ethos). Isto é, em termos de razão, sentimento e ação.
A cultura é um conceito relacional entre uma cultura e outra. Mas nem sempre se dá com tranqüilidade. Vale afirmar que cada cultura deve ser entendida em seus próprios termos, em sua especificidade, mas sua existência é sempre relacional e seus conteúdos resultados de uma dinâmica interativa.
‘A cultura mapeia o mundo presente’
Com a palavra ‘cultura’ indica-se a maneira particular como em determinado povo cultivam os homens sua relação com a natureza, suas relações entre si próprios e com Deus, de modo que possam chegar a um nível verdadeiro e plenamente humanoÉ o estilo de vida comum que caracteriza os diversos povos; por isso é que se fala de “pluralidade de culturas”  (Vaticano II, 1968, GS nº. 53).
Assim entendida, a cultura abrange a totalidade da vida de um povo: o conjunto de valores que o anima e dos desvalores que o enfraquece e que, ao serem partilhados em comum por seus membros, os reúnem na base de uma mesma consciência coletiva (Paulo VI, Evangelli Nuntiandi, nº. 18).
A cultura abrange as formas através das quais estes valores e desvalores se exprimem e configuram, isto é, os costumes, a língua, as instituições e estruturas de convivência social, quando não são impedidas ou reprimidas pela invenção de outras culturas dominantes (CELAN. Puebla , nº. 387)

3.4 - Características da cultura

·         A cultura é duradoura embora os indivíduos que compõem um determinado grupo, desapareçam.
·         A cultura se modifica conforme mudam  as normas de consenso.
·         É adquirida pela aprendizagem e não herdada pelos instintos.
·          É transmitida de geração a geração, através da linguagem.
·         É criação exclusiva dos seres humanos, sendo, então, um traço distintivo da humanidade.
·         Inclui todas as criações materiais e não materiais dos homens.
·         Apresenta estruturas duradouras, mas também sofre evolução através da história.
·         É um instrumento indispensável à adaptação do indivíduo no meio social, tornando possível a expressão das potencialidades humanas.

3.5 - A importância da Linguagem

            De fato, a linguagem é um dos traços mais característicos da humanidade. Fala-nos Benjamim Whorf que: a linguagem constitui o mais belo espetáculo já encenado pelo homem. Mas, no que consiste a linguagem? É a capacidade que permite aos homens comunicarem-se uns com os outros por meio de um código. (convencional).
Diz-nos E. Sapir que: a Linguagem é um método puramente humano e não instintivo de se comunicar idéias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos.
A língua é o solo comum da cultura de um povo (cf. Heidegger, Martin, 1991). Os homens são seres culturais que modificam o estado de natureza.
Mediante a cultura, o homem criou para si próprio um “mundo novo”, diferente do cenário bruto originalmente encontrado. Dentro da biosfera, o homem foi criando a antroposfera. Essa antroposfera, criada pelas diferentes culturas, é a morada do homem no mundo: é o cosmo humano. Constitui um espaço desenvolvido e compartilhado pelos diferentes grupos humanos.

3.6 - A síntese humana

O comportamento do homem é fundamentalmente diferente ao dos animais. É certo que o ser humano faz parte da natureza, pois tem um corpo sujeito às leis físicas e biológicas. Mas graças ao desenvolvimento de seu psiquismo pode observar a natureza, criar uma linguagem e, assim, analisar e julgar o mundo em que vive.
Com seu alto grau de consciência o homem faz uma síntese que integra características hereditárias adquiridas, aspectos individuais e sociais, elementos do estado de natureza e de cultura.
O homem é um ser contraditório, ambíguo, instável e dinâmico. Um produto da natureza e da cultura e, ao mesmo tempo, um transformador da natureza e um produtor cultural. Enfim, criatura e criador do mundo em que vive.
Essas características tornam o homem admiravelmente singular. Um ser capaz de dominar a natureza mesmo fazendo parte dela. Capaz de criar coisas extraordinárias como, também, de destruir de modo devastador. Capaz de acumular um saber imenso e, no entanto, permanecer angustiado por dúvidas profundas que o fazem sempre propor novas perguntas e novos problemas a si próprio.

3.7 - A cultura de Massa

“A comunicação se torna a forma pela qual se organiza o mundo da vida com toda a sua riqueza” Antônio Negri.

As tecnologias de comunicação sempre alteraram a experiência humana.  A televisão traz para dentro de nosso refúgio doméstico as imagens longínquas do planeta. Quero aqui chamar atenção para os Meios de Comunicação de Massa (entendida como TV, rádios, jornais e revistas...). O que acontece com as tradições culturais populares quando a televisão apresenta o mesmo “produto televisionado” para qualquer região do País?
A hegemonia da televisão é constatada quando é utilizada para a consolidação de consensos a cerca da realidade sócio-política e econômica. A influência da televisão na vida das pessoas é tão abrangente que se torna difícil medir a real dimensão.  A idéia mais difundida é a de que os meios de comunicação, e especialmente a televisão, inculcam idéias para forjar e controlar a vontade e o gosto dos telespectadores.
Na questão política, não há dúvida que a mídia pode eleger ou derrubar candidatos. Basta retomar a candidatura Fernando Collor de Melo em 1989 e em 1994  Fernando Henrique Cardoso, e como se dá a influência das pesquisas nas atuais eleições de 2006.
Nosso ponto de partida não é refletir o que os meios de comunicação fazem com as pessoas, mas, ao contrário, o que as pessoas fazem com os meios de comunicação - Será que estamos criando uma “cultura de resistência”?
Não adianta recusar a cultura de massa, em vista da alienação que ela possa causar - vale muito mais assumir nossa cultura local e fazer dela expressão de nossa vida.
Ser massa, no nosso contexto, tem muito a ver com o desenraizamento de tradições populares religiosas do interior. Falava-nos, Herbet de Souza, que: a democracia é que desenvolve o mundo e ela se constrói com e através da comunicação.
Precisamos “zelar para que os meios de comunicação social não manipulem nem sejam manipuladores ao transmitirem, sob pretexto de pluralismo, o que destrói o povo latino-americano, mas fortaleçam a unidade da família e sua influência na formação da consciência cristã” (CELAM. S. Domingo, nº. 238).
            Uma luta que temos que travar é a democratização dos meios de comunicação social. Também devemos ter o interesse na área da comunicação alternativa (Jornais e boletins comunitários), o uso de espaço e a consolidação dos projetos de rádios comunitárias que hoje são tão combatidas pelas legislações e pelas rivalidades com as rádios comerciais; nesse campo ainda precisamos nos organizar para melhorar nossa capacitação no serviço comunitário no exercício do  ofício na comunicação alternativa.

3.8 - Pluralidade de culturas


Falta-nos perguntar: quais são as culturas existentes em nossa sociedade (comunidades eclesiais e instituições educacionais)? Como integrá-las em nossa vida social e comunitária?

3.8.1 - A cultura negra: presente pela dimensão da corporeidade: deve-se ressaltar a importância do corpo e de sua força de expressão. Existem alguns espaços em que poderiam ser mais bem aproveitados na comunidade e nas diversas instituições de educação. Uma tarefa irrenunciável é a superação do preconceito. A inclusão dos estudos sobre etnia e negritude nos currículos das escolas estaduais, e a separação de cotas nas universidades, no projeto educacional brasileiro, para as minorias étnicas ter o acesso ao ensino superior em escolas particulares e em escolas públicas, torna-se, hoje,  uma bandeira de conquistas e lutas das organizações dos negros e outras minorias. Mas, por que um projeto dessa magnitude ainda precisa ser forçado, por um decreto lei? Sabemos que a sociedade brasileira crescerá à medida que souber incluir as minorias étnicas superando as desigualdades sociais, possibilitando igualdade de oportunidades a todos os homens e mulheres que foram injustiçados historicamente. Talvez o critério de raça seja pouco em relação à histórica desigualdade social em que muitos são colocados à margem da sociedade e acredito que é fundamental deslocar o elemento racial para o elemento social, a pobreza que atinge a todas as raças e principalmente as minorias étnicas.

3.8.2 - A cultura indígena: “Foi vitimada, genocídio dos índios e de sua cultura”. Resgatar a cultura indígena é buscar maior integração humana com a natureza.  Nossos irmãos índios nos ensinam a viver em harmonia com a natureza. Em muitas comunidades e em instituições educacionais tem-se pesquisado sobre a sabedoria milenar dos povos indígenas e há uma busca na compreensão deste seu universo mostrando a harmônica relação dos mesmos com a o cosmo despertando em nós o desejo do cuidado com a nossa casa mãe.
A terra que pede: - socorro! Seus gritos ecoam em nossos ouvidos e nos faz militantes da causa do “cuidado” com a nossa casa comum. Dentre as contribuições mais recentes está as descoberta do valor vital e medicinal dos alimentos e dos remédios naturais, uma proposta assumida por muitas pessoas que se converteram à vida mais natural, tornando-se parceiros de luta das causas indígenas.

3.8.3 - A cultura da mulher: “As mulheres são a metade do mundo e mãe da outra metade”. Na descoberta da cultura o século XXI se apresenta como aquele que busca uma integração do feminino e isto está presente em muitas instituições. Há a emergência do feminino em todos os espaços que no passado era apenas visível o masculino, nesta mudança está em jogo a “dimensão feminina” da cultura daquelas que apontam para alguns valores que hoje são irrenunciáveis, aqui enumerados: o cuidado da vida, a sensibilidade, o acolhimento, a ternura, a graça e tantos outros tantos. Que são valores femininos que dizem respeito a toda humanidade, a homens e mulheres.

3.8.4 - A cultura dos Migrantes: O fenômeno das Migrações é universal. Migrar - trocar de país, de estado, de região ou até de domicílio – é fenômeno tão antigo como a história da humanidade. As condições em que se dão variam muito e de região para região.
Quando esta experiência de migrar é realizada de livre e espontânea vontade, pode gestar uma nova história na vida e convivência daquela sociedade fomentando intercâmbio e inculturação de valores integradores de novas perspectivas culturais. Mas, o contrário também se verifica, quando as pessoas, famílias e grupos migram sob pressão: E aqui faço as seguintes enumerações:
Ø  Por condições sociais adversas no lugar de origem.
Ø  Devido a políticas econômicas adotadas que desfavorecem a gestação de uma vida condigna.
Ø  Quando iludidas e atraídas por propagandas enganosas e falsas promessas
Ø  Descaso com a agricultura – favorecendo os latifúndios e não os pequenos agricultores.
Ø  Pressão política e militarismo.
Ø  Fenômenos da natureza (secas e enchentes).
Na história do Brasil, existe uma miscigenação e um ethos pluricultural, isto nos enriquece.  As diferenças nos aproximam.
A migração não é fenômeno natural e espontâneo. É, sim, manifestação perversa de um conjunto de estruturas injustas de ordem econômica, política, social e ideológica. É a classe dominante que detêm este poderio e mantém, na miséria, o sofrimento do migrante que “caminha contra o vento sem lenço e sem documento”[9] - na linguagem poética de uma cantor brasileiro.
O sistema produz migrante: trabalhadores que, circulando de um lado para o outro, funcionam como exército de reserva, pronto para mendigar uma sobrevivência cada vez mais dura e sofrida. Há uma concentração de renda cada vez mais acumulativa nas mãos de poucos e uma queda brutal do nível de vida da população. Seguindo a lógica do capitalismo, o capital torna-se o centro da sociedade. A saúde do sistema econômico está subordinada ao empobrecimento doentio dos trabalhadores, que são sacrificados para que seus opressores sobrevivam tranqüilamente.
A maioria das migrações forçadas é dramática, deixam marcas de sofrimentos, sobretudo no aspecto da desagregação psicossocial. O ser humano através do exercício da liberdade quer ter dignidade de vida – exercendo o direito de ir e vir e permanecer – sair em busca de seu sonho.


3.8.5 - A cultura dos camponeses: É preciso trabalhar a questão cultural dos camponeses: sua visão de mundo, sua religião. É um caminho a percorrer, existem muitas interrogações e algumas respostas só serão possíveis se analisarmos o aspecto social da questão:
A tendência à concentração fundiária é, em nosso país, fenômeno que mergulha as raízes nos primórdios de nossa história de colonização. A política agrícola e agrária, especialmente a política de crédito e a falta de um seguro agrícola abrangente favorece as empresas e latifúndios, asfixiando o pequeno proprietário que, sem alternativa, se desfaz da sua própria terra. A pequena propriedade sofre ainda a pressão do crescimento populacional. Amplia-se a família, mas o tamanho da propriedade permanece o mesmo, sendo impossível subdividi-la por muitas gerações. Isso provoca a migração dos “filhos sem herança”. Os sítios vão sendo engolidos pelas grandes propriedades, que tem grandes incentivos fiscais por parte do governo. Mas, muitos camponeses com força e coragem, resistem e lutam (individual ou coletivamente) na permanência em sua terra. Mas, nalguns casos a “única solução que encontram para tirar a corda do pescoço” é vender a terra para os latifundiários. Desta maneira crescem, de igual forma a quantidade de latifúndios e de trabalhadores sem terra.

3.8.6 - A cultura dos operários: É uma cultura ligada ao desenvolvimento da grande indústria e simultaneamente ao avanço das lutas sindicais e populares na cidade. “O operário é uma invenção dos tempos modernos tanto quanto o maquinário” (Marx, O capital,1856).


3.8.7 - A cultura industrial urbana: Neste âmbito, existe a cultura desencanto que procura esvaziar a força da religião para deixar valer apenas o ídolo do mercado, lucro, consumo, dinheiro. E aqui cabe a seguinte contextualização:
 O contingente de migrantes, que ocorre às grandes cidades, se concentra nas áreas periféricas, estendendo o cordão de miséria para além do perímetro urbano e ocasionando um “inchamento” tão caótico quanto desumano. Os problemas administrativos, sociais, familiares e psíquicos que esse fenômeno da “periferização” traz são incalculáveis, pois tem provocado não apenas o crescimento das grandes metrópoles e das capitais dos Estados, mas o conseqüente “inchamento” vertiginoso das respectivas cidades periféricas ou “cidades dormitórios”, com taxa de crescimentos superiores às da própria capital. Quem mais sofre são os filhos. É crescente o número de delinqüência, menores abandonados, prostituição precoce, desemprego em massa, desumanização da moradia (favela, cortiço, pró-morar), o trabalho do menor.  As condições de vida vão se deteriorando. 


3.8.8 - A cultura dos marginalizados: É toda essa massa de gente solta, que sobrevive às margens do sistema econômico, sem um trabalho definido ou reconhecido: desempregados, subempregados, marginais de toda sorte. Nesta multidão heterogênea existem mil subculturas. Mas existe uma “cultura geral”, uma espécie de “cultura de sobrevivência”, feita de um sincretismo muito complexo, das espertezas na arte de sobreviver, do messianismo religioso e político.  


3.8.9 - A cultura da conscientização: “o sono da razão gera monstros” (Gaya). A saída está na busca de uma razão sensata, que não signifique a supressão da razão crítica. Trata-se de criar uma nova cultura crítico-popular.                     



Considerações finais



Conhecer o fenômeno da modernidade é essencial para que haja respeito à cultura popular como alternativa à integração dos seres humanos nos ambientes e contextos em que vivem. Reconhecer a pluralidade cultural e religiosa em nosso meio, já é um avanço para que o diálogo se torne uma realidade possível de ser engendrada em nossos ambientes. Aqui emerge a necessidade de redescobrir em nossos discursos e práticas a categoria da Inculturação. Pois, A Inculturação será de agora em diante a chave hermenêutica para medir a nova temperatura educacional nas instituições de ensino e religiosas. A inculturação determinará o modo de a instituição educacional e religiosa ser e o como da instituição educacional e religiosa agir no serviço à vida e à esperança numa sociedade de conflitos, que vive sob o binômio: Cultura de Morte e Cultura de Vida. Nossa atitude aqui será de defesa da vida em vista da solidariedade humanitária.
O resgate da dignidade do ser humano é uma tarefa irrenunciável de toda a sociedade. Buscar caminhos alternativos para a exclusão social e tais circunstâncias é fundamental o trabalho na educação em vista da consolidação de atividades educacionais libertadoras e transformadoras das consciências. Sabemos que em tal circunstância em que vivemos não há mais espaço para a passividade, o caminho é coletivo, não podemos desejar a salvação individual, pois o planeta todo pede socorro através dos “sinais dos tempos”. É necessário que haja um engajamento sócio-histórico de cada cidadão cósmico, pois “tudo que fizermos à terra estamos fazendo aos filhos da terra”.
 É fundamental que a América procure incentivar uma cultura da vida em face da cultura de morte. A gestação de um novo processo religioso na perspectiva da integração das diferentes culturas nos ajudará formar pessoas e comunidades maduras para o convívio com o diferente em busca de respostas à nova situação em que vivemos provocadas pelas mudanças sociais e culturais da modernidade. Neste processo devemos conhecer bem a realidade que nos envolve, com suas sombras e luzes: o fenômeno da urbanização, do empobrecimento e da marginalização em que vive a maioria do nosso povo. A sociedade moderna está inserida em uma mentalidade fortemente materialista e aqui os mecanismos de morte estão em alta pelo consumismo, e exclusão da maioria dos bens de produção. Para nós, tudo isto é novo e traz consigo questionamentos acerca dos  valores: solidariedade, justiça, crenças, religião e a superação de ideologias. Muitos, após terem "perdido o sentido vivo da fé, inclusive, já não se reconhecem como membros da Igreja e levam uma existência distanciada de Cristo e de seu Evangelho” (João Paulo II. Redemptoris Missio. nº. 33). Encontram em comunidades pequenas e acolhedoras respostas para a sua humanidade aviltada de diversas maneiras por uma sociedade desumana e descristianizada. Quando encontramos Jesus Cristo em nossa vida redescobriremos o sentido profundo de sermos filhos (as) de Deus, dignidade que ninguém nos pode roubar porque é graça, não permitindo que nenhuma realidade temporal, nem os Estados, nem a economia, nem a técnica se convertam para os homens na realidade última a que devamos nos submeter.
Nas palavras de Paulo VI, evangelizar é anunciar "o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus” (Evangelli Nuntiandi, nº. 22) como resposta a toda interrogação de nossa vida humana, é trabalhar na formação de uma nova consciência cristã integradora das culturas diferentes e isso nos ajudará a descobrir o novo do Reino de Deus em nosso cotidiano.


Bibliografia Consultada

  1. Boff, Leonardo. Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Sextante, 2004.
  2. CNBB. Fraternidade e Educação- Educação a serviço da vida e da Esperança, 1998.
3.      Coltrin, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. Ed. Saraiva, 1993.
  1. Dacquino, Giacomo. Viver o prazer. Ed. Paulinas, 1998.
  2. Heidegger, Martin, Ed. Nova Cultural. Col. Os pensadores, 1991
  3. João Paulo II. Redemptoris  Missio,
  4. Jr, Paulo Nogueira Batista. Mitos da Globalização. Pendex/ Sindecon/ Sengel, 1998.
  5. Libânio, João Batista. Teologia da Revelação a partir da Modernidade, Ed. Loyola, 1992.
  6. Lyon, David . Pós-modernidade. Paulinas, 1998.
  7. Marx, Karl, O capital. Ed. Nova Cultural. Col. Os pensadores, 1997
  8. Moran, José Manuel. Mudanças na comunicação Pessoal, Ed. Paulinas, 1998.
  9. Novaes, Adauto (org.)VVAA.  O desejo, Companhia das Letras, 1990.
  10. Paulo VI. Evangelli Nuntiandi,1970.                                                 
14.  Plé, Albert. Por dever ou por prazer? Ed. Paulinas,1984
  1. Reale, Giovani & Antiseri, Dario. História da Filosofia.. Tomo I .Ed.. Paulinas, 1990.
  2. Reale, Giovani & Antiseri, Dario. História da Filosofia.. Tomo II .Ed.. Paulinas, 1990.
  3. Reale, Giovani & Antiseri, Dario. História da Filosofia.. Tomo III. .Ed.. Paulinas, 1990.
  4. Staccone, Giuseppe. Gramsci - 100 anos:  Revolução e Política,  Ed. Vozes, 1991
  5. Zimmermann, Roque. América latina o não ser – Uma abordagem filosófica a partir de Enrique Dussel (1962-1976), Ed. Vozes Petrópolis RJ, , 2ª. Ed. 1987.
José Igídio dos Santos
Filósofo e Teólogo



* Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia, Gestão Publica e Especialista em Filosofia e Psicopedagogia. Docente na Rede Estadual de São Paulo e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP.
[1] Encontro com autoridades Mundiais na Eco-92, no Rio de Janeiro. E a questão da biodiversidade levantada e até hoje em tramite no Congresso Nacional, sem uma resposta satisfatória.
[2]"O Horror Econômico", de Viviane Forrester, é um recente livro lançado na França, com onze edições em seis meses. Aborda o tema economia e emprego. Está sendo lançado também em outros países da Europa. No Brasil foi publicado em 1998 pela braziliense. O livro de Viviane Forrester – vem confirmar o enfoque mundial na questão do emprego e nós brasileiros estamos implicados nesta situação, que é mundial. Vivemos no mesmo sistema de uma única lógica. Atravessamos um momento grave: é a primeira vez na história que o conjunto de homens não é importante para fazer funcionar o planeta e para produzir lucro. Antes era diferente. Atravessamos uma crise de emprego. Não digo crise de trabalho, porque é um valor fundamental que existirá sempre. Enfrentamos mais do que uma crise do emprego e vivemos uma mutação de sociedade e de civilização
[3] Amplia-nos a concepção de solidão e sua vivência na prática cotidiana
[4] Trabalha a dimensão do prazer de uma maneira positiva para a superação do prazer egolátrico, ensimesmado.
[5] Ajuda-nos a recuperar a dimensão da alteridade na... , da... e para a vida.
[6] Esta possibilita-nos compreender o outro lado da moeda. Descortinando o dever e emancipando o prazer, numa perspectiva integradora e não de supremacia de uma atitude sobre outra.
[7] As eleições são um jogo de melhor apresentação estética dos candidatos e nem sempre de seus projetos políticos para o pais.
[8] A modernidade entrou em colapso com a queda das utopias e dos muros, que evidenciou a impossibilidade de solucionar a estratificação social  através da evolução científica que, de acordo com os iluministas seria o fator gerador do paraíso terrestre.  Assumindo uma vertente conceitual aberta e construtiva do conceito de pós-modernidade que a nosso ver é um conceito plural e multi-facetado com uma  percepção paradigmática de vivermos contemporaneamente na sociedade da informação. Hoje, o acesso ao conhecimento é possível com o uso da informática e da rede mundial  e vemos ainda, no início do século XXI o avanço bio-tecnológico, biofísico... No âmbito macro e no âmbito micro vivemos situações de desolação e expectativa geopolítica e econômica, o que torna instável a manutenção da qualidade de vida ao ser humano. Este, que possui dentro de si  um  enorme desejo de ser valorizado, sofre com   os contrastes entre a falta de  acesso à  técnica no processo produtivo e com o  processo de automação, este último tem gerado desemprego em massa e aviltado a dignidade subjetiva do ser humano. Algumas questões são ainda necessárias: O que é o ser humano? Quais são suas reais necessidades? O contexto atual responde às suas expectativas?Como conciliar desejo e realização? Como superar o consumismo tão acentuado em nossa sociedade  capitalista?Qual a equalização do uso dos recursos naturais? Que modelo de sociedade responde ao nosso contexto atual com contrastes muito visíveis  (consumidores X consumo; trabalhadores X produção) Estamos realmente  numa condição pós-moderna ou vivemos um mosaico de concepções que mistura aspectos da cultura moderna e da pré-moderna?
[9] Veloso, Caetano. K7 - Alegria, Alegria, 1960.