NARRATIVA DESCRITIVA E
REFLEXIVA DA VISITA CULTURAL AO MUSEU DE PALEONTOLOGIA
Por Prof. Esp. José Igídio dos
Santos
Coord. Pedagogico – Cemei Benedicto
Cunha
Programa LEEI – Leitura e Escrita na Educação
Infantil
Polo UNESP – Presidente Prudente.
Rede Municipal de Educação de Fernandópolis
Data: 09
de setembro de 2026
No dia 09 de setembro de 2026, diretores e
coordenadores pedagógicos da Rede Municipal de Educação de Fernandópolis
participaram de uma visita cultural e formativa ao Museu de Paleontologia de
Fernandópolis, como parte das ações do Programa LEEI – Leitura e Escrita
na Educação Infantil, Polo UNESP – Presidente Prudente.
A atividade foi acolhida pelo Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Cadu), Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis "Cristovão Souza de Oliveira", gestor exímio juntamente com a equipe
de apoio da instituição. O Professor Cadu foi responsável pela recepção do
grupo e pela condução da apresentação do espaço, compartilhando informações
sobre o acervo, a trajetória do museu, sua função na preservação do patrimônio
paleontológico e científico e as ações desenvolvidas para aproximar a
instituição da comunidade e do público escolar.
A mediação realizada pelo gestor conferiu à visita
uma dimensão que ultrapassou a simples observação das peças expostas. Por meio
de sua narrativa, os participantes foram convidados a compreender como um museu
pode atuar simultaneamente como espaço de memória, ciência, cultura,
pesquisa, educação e divulgação do conhecimento.
A apresentação também evidenciou o esforço da
instituição em ampliar seu público, tradicionalmente associado a pesquisadores
e pessoas com interesse especializado, buscando utilizar uma linguagem mais
acessível e recursos capazes de tornar conhecimentos científicos complexos
compreensíveis para estudantes, professores, famílias e visitantes de
diferentes idades.
A experiência possibilitou aos profissionais
refletir sobre a própria concepção de formação continuada. A formação de
diretores e coordenadores não acontece somente em reuniões, estudos teóricos ou
momentos institucionais de planejamento. Ela também se constitui pela vivência
cultural, pela observação de práticas educativas, pelo contato com diferentes
formas de produção do conhecimento e pela ampliação do repertório dos próprios
educadores.
Nesse sentido, a visita assumiu especial relevância
no contexto do LEEI, pois permitiu compreender a leitura em uma perspectiva
ampliada: ler não significa apenas decodificar a palavra escrita, mas também
interpretar imagens, objetos, espaços, vestígios, acontecimentos, manifestações
culturais e diferentes linguagens presentes no mundo.
2. O museu como território
educativo
Ao longo da apresentação conduzida pelo Professor
Cadu, foi possível perceber que o museu não se limita à função de guardar e
expor objetos.
O espaço constitui-se como um ambiente de produção
e circulação de conhecimento, no qual os visitantes são convidados a
estabelecer relações entre aquilo que observam e informações científicas,
históricas e culturais.
Essa perspectiva permite compreender o museu como
um território educativo, capaz de ampliar as experiências de
aprendizagem para além dos limites físicos da escola.
Para os profissionais da Educação Infantil, essa
percepção possui especial importância. As crianças pequenas constroem
conhecimentos por meio das interações com pessoas, objetos, espaços e
diferentes linguagens. Um museu, portanto, pode oferecer experiências de
observação, descoberta, investigação, imaginação e diálogo.
A mediação realizada durante a visita demonstrou
que a apresentação de um objeto científico pode tornar-se muito mais
significativa quando acompanhada de uma narrativa que contextualiza sua origem,
sua importância e as perguntas que ele pode suscitar.
Um dos principais focos da visita esteve
relacionado aos fósseis e à paleontologia, permitindo aos participantes
conhecer vestígios de organismos e ambientes que existiram há milhões de anos.
Foram apresentadas referências aos fósseis
encontrados na região, inclusive descobertas realizadas desde a década de 1980,
bem como informações relacionadas a antigos ambientes naturais e organismos que
habitaram esses espaços.
A apresentação possibilitou estabelecer relações
com processos geológicos de longa duração, incluindo transformações da paisagem
terrestre e acontecimentos associados à formação do Atlântico Sul e à separação
entre a América do Sul e a África.
Para os profissionais participantes, entretanto, o
aspecto mais significativo não esteve apenas na informação científica, mas na
forma como ela foi mediada e transformada em narrativa compreensível.
Um fóssil é, em si, um vestígio. Mas, quando
observado, questionado, contextualizado e interpretado, transforma-se em uma
oportunidade de leitura do mundo.
Essa perspectiva estabelece uma relação direta com
o LEEI: a criança pode observar um objeto, formular perguntas, ouvir uma
história, levantar hipóteses, produzir uma explicação e representar aquilo que
compreendeu.
4. Da evidência à imaginação:
fósseis, réplicas e paleoarte
Outro momento relevante da visita foi a
apresentação das relações entre os fósseis e as representações produzidas a
partir deles.
Foi destacado o trabalho do paleoartista Felipe
Alves Elias, cuja produção utiliza evidências paleontológicas para elaborar
réplicas, ilustrações e representações de organismos extintos.
Essa abordagem permitiu compreender um processo extremamente
significativo do ponto de vista pedagógico:
vestígio → investigação → interpretação →
reconstrução → representação → narrativa.
O fóssil apresenta uma evidência material do
passado. A investigação científica procura compreender essa evidência. A
paleoarte contribui para representar, de maneira visual, hipóteses sobre a
aparência e as características dos organismos. A mediação, por sua vez,
transforma essas informações em narrativa compreensível ao visitante.
Essa sequência oferece inúmeras possibilidades para
a Educação Infantil.
A criança pode observar uma réplica, descrever sua
forma, comparar tamanhos, imaginar movimentos, perguntar onde o animal vivia,
criar hipóteses sobre sua alimentação e produzir desenhos ou histórias.
Não se trata de transformar a Educação Infantil em
uma aula formal de paleontologia, mas de utilizar o conhecimento científico
como disparador de experiências de linguagem, investigação, imaginação e
representação.
5. A leitura para além da palavra
escrita
A experiência vivenciada no museu possibilitou uma
reflexão central para o LEEI: a criança realiza diferentes formas de leitura
antes mesmo de dominar convencionalmente a escrita.
Durante a visita, os participantes puderam observar
diferentes tipos de “textos” presentes no espaço:
·
fósseis;
·
réplicas;
·
ilustrações;
·
fotografias;
·
placas
explicativas;
·
objetos;
·
formas;
·
imagens;
·
ambientes;
·
narrativas
orais;
·
informações
científicas.
Todos esses elementos podem ser lidos e
interpretados.
Uma criança diante de um fóssil pode não conseguir
ler a informação escrita na placa, mas pode observar a peça, perceber suas
características, perguntar o que é, formular hipóteses e construir uma narrativa.
Essa compreensão amplia o papel da escola e do
professor: promover experiências nas quais a criança tenha contato com múltiplas
linguagens e diferentes formas de representação da realidade.
A visita, portanto, dialoga diretamente com a
concepção de leitura de mundo presente na formação do LEEI.
A exposição também provocou reflexões sobre o
desafio de trabalhar conceitos científicos complexos com crianças pequenas.
Informações relacionadas a milhões de anos,
evolução dos organismos, mudanças geológicas ou formação de ambientes exigem
níveis de abstração que não podem simplesmente ser transpostos para a Educação
Infantil da mesma maneira como são apresentados a estudantes maiores.
Entretanto, isso não significa que esses temas
devam ser afastados das crianças.
O caminho pedagógico pode estar na experiência
concreta.
Em vez de explicar detalhadamente o tempo
geológico, por exemplo, o professor pode partir da pergunta:
“O que será que existia neste lugar há muito, muito
tempo?”
A partir daí, podem surgir histórias, desenhos,
pesquisas, observações, comparações e novas perguntas.
A criança não precisa dominar o conceito científico
para começar a construir uma relação significativa com ele.
7. Museu, escola e currículo
Durante a visita, também foi apresentada a relação
estabelecida pelo museu com as escolas.
O espaço recebe estudantes de diferentes idades e
procura adaptar sua linguagem às características dos grupos visitantes. Para
estudantes maiores, determinados conteúdos podem ser aprofundados e
relacionados a conhecimentos curriculares específicos. Para crianças menores, a
experiência tende a valorizar elementos concretos, visuais, narrativos e
interativos.
Essa diferenciação demonstra a importância da mediação
pedagógica.
O mesmo objeto pode produzir diferentes
experiências de aprendizagem dependendo da idade, dos conhecimentos prévios e
das perguntas dos visitantes.
Essa compreensão dialoga com a prática da Educação
Infantil, na qual a intencionalidade pedagógica do professor consiste
justamente em criar condições para que as crianças estabeleçam relações
significativas com aquilo que encontram no mundo.
Outro aspecto apresentado pelo Professor Cadu foi a
iniciativa denominada “Mais Cultura no Museu”, que busca ampliar a
relação da instituição com a comunidade.
Nesse contexto, foi destacada a realização mensal
da Feira do Dinossauro, realizada em frente ao museu.
A iniciativa demonstra uma concepção ampliada de
cultura, na qual o museu deixa de ser compreendido apenas como um local
destinado à contemplação de acervos e passa a constituir-se também como espaço
de convivência, manifestação cultural e aproximação com a comunidade.
Essa dimensão oferece importante contribuição para
a gestão educacional, pois reforça a necessidade de reconhecer os diferentes
equipamentos existentes no território como potenciais parceiros da escola.
Para diretores e coordenadores pedagógicos, a
visita possibilitou uma reflexão sobre a importância de conhecer o próprio território.
A escola está inserida em uma comunidade que possui
histórias, espaços culturais, instituições científicas, manifestações
artísticas, memórias e patrimônios que podem integrar o currículo e ampliar as
experiências das crianças.
Conhecer esses espaços é também uma forma de
exercer a gestão pedagógica.
O coordenador pedagógico pode transformar uma
experiência cultural em pauta formativa, ajudando os professores a refletirem
sobre como uma visita, uma imagem, um objeto ou uma narrativa podem gerar novas
experiências de aprendizagem.
O diretor, por sua vez, pode atuar na articulação
institucional, aproximando escola, comunidade e equipamentos culturais.
Assim, a gestão educacional assume uma dimensão de articulação
de redes educativas, ampliando as oportunidades de aprendizagem disponíveis
às crianças.
10. Recursos visuais e tecnologia como mediadores da experiência
A visita também apresentou possibilidades de
utilização de recursos visuais e tecnológicos para ampliar a experiência dos
visitantes.
Além dos fósseis, réplicas e ilustrações, foram
demonstrados recursos que podem produzir efeitos semelhantes à
tridimensionalidade quando observados por meio de dispositivos móveis.
Essa experiência provocou uma reflexão importante
sobre o papel da tecnologia.
A tecnologia, no contexto educativo, não precisa
substituir a experiência concreta. Ela pode ampliá-la, complementá-la e
oferecer novas formas de observar e representar determinado objeto ou fenômeno.
Para a Educação Infantil, esse princípio é
especialmente importante: o recurso digital deve estar subordinado à
experiência, à interação e à intencionalidade pedagógica.
Um dos principais aprendizados decorrentes da
visita está na compreensão de que uma experiência cultural não precisa terminar
quando o visitante deixa o museu.
No caso das crianças, uma visita pode desencadear
um longo percurso de aprendizagem:
visitar → observar → conversar → perguntar →
investigar → registrar → representar → narrar → compartilhar.
Na escola, as crianças poderiam, por exemplo,
produzir desenhos sobre aquilo que observaram, contar o que mais chamou sua
atenção, criar histórias sobre os animais representados, construir réplicas com
materiais disponíveis, organizar uma exposição na própria escola ou produzir
coletivamente um livro sobre a experiência.
O professor poderia registrar as falas das
crianças, suas hipóteses e descobertas, utilizando esses registros como
documentação pedagógica.
Dessa maneira, a visita deixa de ser uma atividade
isolada e passa a integrar o percurso de aprendizagem e documentação das
crianças.
A experiência também apresenta possibilidades para
a formação continuada das equipes escolares.
A partir da visita, podem ser desenvolvidas pautas
formativas relacionadas a:
Leitura de mundo e múltiplas linguagens;
·
Espaços culturais como territórios educativos;
·
Curiosidade e investigação na educação infantil;
·
Oralidade e produção de narrativas;
·
Observação e formulação de hipóteses;
·
Documentação pedagógica;
·
Articulação entre escola, cultura e território;
·
Uso intencional de recursos visuais e tecnológicos.
Nesse sentido, a visita cultural não representa
apenas uma atividade complementar. Ela pode constituir-se como fonte de
conhecimento para a formação dos próprios professores e gestores.
13. Repercussões para a prática da coordenação pedagógica
Para a coordenação pedagógica, a experiência
oferece uma importante possibilidade de reflexão sobre a formação docente.
O coordenador pode ajudar o professor a transformar
experiências culturais em situações pedagógicas significativas, evitando que a
visita seja reduzida a um passeio ou atividade descontextualizada.
A pergunta central passa a ser:
“O que essa experiência pode provocar nas crianças
e como podemos transformar essa provocação em novas experiências de
aprendizagem?”
Essa perspectiva fortalece o planejamento
intencional, a observação das crianças e a documentação de seus processos de
aprendizagem.
Para os diretores, a visita reforça a importância
da gestão como articuladora de oportunidades educativas.
A aproximação com museus, universidades,
bibliotecas, espaços culturais e demais instituições do território pode contribuir
para ampliar o repertório das crianças e fortalecer a relação entre escola e
comunidade.
Nesse sentido, a gestão pode atuar na construção de
parcerias, organização de visitas, planejamento de ações interinstitucionais e
valorização do patrimônio cultural e científico local.
Essa atuação contribui para uma escola mais aberta
ao território e para uma concepção de educação que compreende que os
processos educativos acontecem em diferentes espaços sociais.
15. Considerações finais
A visita cultural realizada em 09 de setembro de
2026, no âmbito do Programa LEEI – Leitura e Escrita na Educação
Infantil, Polo UNESP – Presidente Prudente, constituiu uma experiência significativa de
formação cultural, científica e pedagógica para diretores e coordenadores
pedagógicos da Rede Municipal de Educação de Fernandópolis.
A recepção e a mediação conduzidas pelo Professor
Cadu, gestor do Museu de Paleontologia de Fernandópolis, juntamente com a
equipe de apoio, possibilitaram aos participantes conhecer o acervo e,
sobretudo, compreender o papel social e educativo desempenhado pela
instituição.
Sua apresentação permitiu perceber que um museu
pode ser muito mais do que um espaço de preservação de objetos. Pode ser um lugar
de perguntas, descobertas, investigação, memória, cultura, ciência e
aprendizagem.
Os fósseis, as réplicas, as ilustrações e os
recursos visuais apresentados demonstraram como diferentes linguagens podem ser
articuladas para tornar o conhecimento acessível e significativo.
Para a Educação Infantil, essa experiência oferece
uma contribuição especialmente relevante: a compreensão de que a criança
aprende lendo o mundo antes, durante e para além da leitura da palavra escrita.
Ela lê imagens, objetos, expressões, espaços, sons,
histórias, marcas, acontecimentos e experiências. Pergunta, imagina, compara,
interpreta, cria hipóteses e constrói narrativas.
Essa perspectiva aproxima a experiência vivida no
museu dos princípios do LEEI e reforça a importância de uma Educação Infantil
que valorize as interações, as brincadeiras, as múltiplas linguagens, a
oralidade, a curiosidade, a imaginação e a experiência cultural.
A visita também deixou uma importante reflexão para
a gestão educacional: formar professores e gestores significa também ampliar
seus repertórios culturais, pois profissionais que vivenciam diferentes
espaços, linguagens e formas de conhecimento ampliam suas possibilidades de
criar experiências significativas para as crianças.
Assim, a visita ao Museu de Paleontologia de
Fernandópolis representa uma experiência que pode ultrapassar o momento vivido
no dia 09 de setembro de 2026. Seus efeitos podem continuar nas escolas,
nas reuniões pedagógicas, nos planejamentos, nas práticas docentes e,
principalmente, nas experiências oferecidas às crianças.
A partir dessa vivência, fortalece-se a compreensão
de que educar é também possibilitar encontros com o mundo, com a cultura,
com a ciência, com a memória e com diferentes formas de produzir conhecimento.
E, no contexto da Educação Infantil, esses
encontros ganham ainda maior significado quando permitem que a criança possa olhar,
perguntar, imaginar, falar, escutar, representar, criar e descobrir.
Nesse sentido, a experiência proporcionada pelo LEEI
– Polo UNESP Presidente Prudente reafirma a potência da formação continuada realizada em
diálogo com o território e com os espaços culturais, fortalecendo uma educação
que compreende a criança como sujeito de linguagem, cultura, experiência,
curiosidade e conhecimento.
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