quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NARRATIVA DESCRITIVA E REFLEXIVA DA VISITA CULTURAL AO MUSEU DE PALEONTOLOGIA

 

NARRATIVA DESCRITIVA E REFLEXIVA DA VISITA CULTURAL AO MUSEU DE PALEONTOLOGIA

Por Prof.  Esp. José Igídio dos Santos

Coord. Pedagogico – Cemei Benedicto Cunha

Programa LEEI – Leitura e Escrita na Educação Infantil

Polo UNESP –  Presidente Prudente.

Rede Municipal de Educação de Fernandópolis

Data: 09 de setembro de 2026

 1. Contextualização da experiência

No dia 09 de setembro de 2026, diretores e coordenadores pedagógicos da Rede Municipal de Educação de Fernandópolis participaram de uma visita cultural e formativa ao Museu de Paleontologia de Fernandópolis, como parte das ações do Programa LEEI – Leitura e Escrita na Educação Infantil, Polo UNESP – Presidente Prudente.

A atividade foi acolhida pelo Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira  (Cadu),  Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis "Cristovão Souza de Oliveira", gestor exímio juntamente com a equipe de apoio da instituição. O Professor Cadu foi responsável pela recepção do grupo e pela condução da apresentação do espaço, compartilhando informações sobre o acervo, a trajetória do museu, sua função na preservação do patrimônio paleontológico e científico e as ações desenvolvidas para aproximar a instituição da comunidade e do público escolar.

A mediação realizada pelo gestor conferiu à visita uma dimensão que ultrapassou a simples observação das peças expostas. Por meio de sua narrativa, os participantes foram convidados a compreender como um museu pode atuar simultaneamente como espaço de memória, ciência, cultura, pesquisa, educação e divulgação do conhecimento.

A apresentação também evidenciou o esforço da instituição em ampliar seu público, tradicionalmente associado a pesquisadores e pessoas com interesse especializado, buscando utilizar uma linguagem mais acessível e recursos capazes de tornar conhecimentos científicos complexos compreensíveis para estudantes, professores, famílias e visitantes de diferentes idades.

A experiência possibilitou aos profissionais refletir sobre a própria concepção de formação continuada. A formação de diretores e coordenadores não acontece somente em reuniões, estudos teóricos ou momentos institucionais de planejamento. Ela também se constitui pela vivência cultural, pela observação de práticas educativas, pelo contato com diferentes formas de produção do conhecimento e pela ampliação do repertório dos próprios educadores.

Nesse sentido, a visita assumiu especial relevância no contexto do LEEI, pois permitiu compreender a leitura em uma perspectiva ampliada: ler não significa apenas decodificar a palavra escrita, mas também interpretar imagens, objetos, espaços, vestígios, acontecimentos, manifestações culturais e diferentes linguagens presentes no mundo.

 

2. O museu como território educativo

Ao longo da apresentação conduzida pelo Professor Cadu, foi possível perceber que o museu não se limita à função de guardar e expor objetos.

O espaço constitui-se como um ambiente de produção e circulação de conhecimento, no qual os visitantes são convidados a estabelecer relações entre aquilo que observam e informações científicas, históricas e culturais.

Essa perspectiva permite compreender o museu como um território educativo, capaz de ampliar as experiências de aprendizagem para além dos limites físicos da escola.

Para os profissionais da Educação Infantil, essa percepção possui especial importância. As crianças pequenas constroem conhecimentos por meio das interações com pessoas, objetos, espaços e diferentes linguagens. Um museu, portanto, pode oferecer experiências de observação, descoberta, investigação, imaginação e diálogo.

A mediação realizada durante a visita demonstrou que a apresentação de um objeto científico pode tornar-se muito mais significativa quando acompanhada de uma narrativa que contextualiza sua origem, sua importância e as perguntas que ele pode suscitar.

 3. Fósseis como vestígios e possibilidades de leitura do mundo

Um dos principais focos da visita esteve relacionado aos fósseis e à paleontologia, permitindo aos participantes conhecer vestígios de organismos e ambientes que existiram há milhões de anos.

Foram apresentadas referências aos fósseis encontrados na região, inclusive descobertas realizadas desde a década de 1980, bem como informações relacionadas a antigos ambientes naturais e organismos que habitaram esses espaços.

A apresentação possibilitou estabelecer relações com processos geológicos de longa duração, incluindo transformações da paisagem terrestre e acontecimentos associados à formação do Atlântico Sul e à separação entre a América do Sul e a África.

Para os profissionais participantes, entretanto, o aspecto mais significativo não esteve apenas na informação científica, mas na forma como ela foi mediada e transformada em narrativa compreensível.

Um fóssil é, em si, um vestígio. Mas, quando observado, questionado, contextualizado e interpretado, transforma-se em uma oportunidade de leitura do mundo.

Essa perspectiva estabelece uma relação direta com o LEEI: a criança pode observar um objeto, formular perguntas, ouvir uma história, levantar hipóteses, produzir uma explicação e representar aquilo que compreendeu.

 

4. Da evidência à imaginação: fósseis, réplicas e paleoarte

Outro momento relevante da visita foi a apresentação das relações entre os fósseis e as representações produzidas a partir deles.

Foi destacado o trabalho do paleoartista Felipe Alves Elias, cuja produção utiliza evidências paleontológicas para elaborar réplicas, ilustrações e representações de organismos extintos.

Essa abordagem permitiu compreender um processo extremamente significativo do ponto de vista pedagógico:

vestígio → investigação → interpretação → reconstrução → representação → narrativa.

O fóssil apresenta uma evidência material do passado. A investigação científica procura compreender essa evidência. A paleoarte contribui para representar, de maneira visual, hipóteses sobre a aparência e as características dos organismos. A mediação, por sua vez, transforma essas informações em narrativa compreensível ao visitante.

Essa sequência oferece inúmeras possibilidades para a Educação Infantil.

A criança pode observar uma réplica, descrever sua forma, comparar tamanhos, imaginar movimentos, perguntar onde o animal vivia, criar hipóteses sobre sua alimentação e produzir desenhos ou histórias.

Não se trata de transformar a Educação Infantil em uma aula formal de paleontologia, mas de utilizar o conhecimento científico como disparador de experiências de linguagem, investigação, imaginação e representação.

 

5. A leitura para além da palavra escrita

A experiência vivenciada no museu possibilitou uma reflexão central para o LEEI: a criança realiza diferentes formas de leitura antes mesmo de dominar convencionalmente a escrita.

Durante a visita, os participantes puderam observar diferentes tipos de “textos” presentes no espaço:

·     fósseis;

·     réplicas;

·     ilustrações;

·     fotografias;

·     placas explicativas;

·     objetos;

·     formas;

·     imagens;

·     ambientes;

·     narrativas orais;

·     informações científicas.

Todos esses elementos podem ser lidos e interpretados.

Uma criança diante de um fóssil pode não conseguir ler a informação escrita na placa, mas pode observar a peça, perceber suas características, perguntar o que é, formular hipóteses e construir uma narrativa.

Essa compreensão amplia o papel da escola e do professor: promover experiências nas quais a criança tenha contato com múltiplas linguagens e diferentes formas de representação da realidade.

A visita, portanto, dialoga diretamente com a concepção de leitura de mundo presente na formação do LEEI.

 6. O desafio de aproximar conceitos científicos das crianças pequenas

A exposição também provocou reflexões sobre o desafio de trabalhar conceitos científicos complexos com crianças pequenas.

Informações relacionadas a milhões de anos, evolução dos organismos, mudanças geológicas ou formação de ambientes exigem níveis de abstração que não podem simplesmente ser transpostos para a Educação Infantil da mesma maneira como são apresentados a estudantes maiores.

Entretanto, isso não significa que esses temas devam ser afastados das crianças.

O caminho pedagógico pode estar na experiência concreta.

Em vez de explicar detalhadamente o tempo geológico, por exemplo, o professor pode partir da pergunta:

“O que será que existia neste lugar há muito, muito tempo?”

A partir daí, podem surgir histórias, desenhos, pesquisas, observações, comparações e novas perguntas.

A criança não precisa dominar o conceito científico para começar a construir uma relação significativa com ele.

7. Museu, escola e currículo

Durante a visita, também foi apresentada a relação estabelecida pelo museu com as escolas.

O espaço recebe estudantes de diferentes idades e procura adaptar sua linguagem às características dos grupos visitantes. Para estudantes maiores, determinados conteúdos podem ser aprofundados e relacionados a conhecimentos curriculares específicos. Para crianças menores, a experiência tende a valorizar elementos concretos, visuais, narrativos e interativos.

Essa diferenciação demonstra a importância da mediação pedagógica.

O mesmo objeto pode produzir diferentes experiências de aprendizagem dependendo da idade, dos conhecimentos prévios e das perguntas dos visitantes.

Essa compreensão dialoga com a prática da Educação Infantil, na qual a intencionalidade pedagógica do professor consiste justamente em criar condições para que as crianças estabeleçam relações significativas com aquilo que encontram no mundo.

 8. O museu e a aproximação com a comunidade

Outro aspecto apresentado pelo Professor Cadu foi a iniciativa denominada “Mais Cultura no Museu”, que busca ampliar a relação da instituição com a comunidade.

Nesse contexto, foi destacada a realização mensal da Feira do Dinossauro, realizada em frente ao museu.

A iniciativa demonstra uma concepção ampliada de cultura, na qual o museu deixa de ser compreendido apenas como um local destinado à contemplação de acervos e passa a constituir-se também como espaço de convivência, manifestação cultural e aproximação com a comunidade.

Essa dimensão oferece importante contribuição para a gestão educacional, pois reforça a necessidade de reconhecer os diferentes equipamentos existentes no território como potenciais parceiros da escola.

 9. Cultura, território e formação dos gestores

Para diretores e coordenadores pedagógicos, a visita possibilitou uma reflexão sobre a importância de conhecer o próprio território.

A escola está inserida em uma comunidade que possui histórias, espaços culturais, instituições científicas, manifestações artísticas, memórias e patrimônios que podem integrar o currículo e ampliar as experiências das crianças.

Conhecer esses espaços é também uma forma de exercer a gestão pedagógica.

O coordenador pedagógico pode transformar uma experiência cultural em pauta formativa, ajudando os professores a refletirem sobre como uma visita, uma imagem, um objeto ou uma narrativa podem gerar novas experiências de aprendizagem.

O diretor, por sua vez, pode atuar na articulação institucional, aproximando escola, comunidade e equipamentos culturais.

Assim, a gestão educacional assume uma dimensão de articulação de redes educativas, ampliando as oportunidades de aprendizagem disponíveis às crianças.

10. Recursos visuais e tecnologia como mediadores da experiência

A visita também apresentou possibilidades de utilização de recursos visuais e tecnológicos para ampliar a experiência dos visitantes.

Além dos fósseis, réplicas e ilustrações, foram demonstrados recursos que podem produzir efeitos semelhantes à tridimensionalidade quando observados por meio de dispositivos móveis.

Essa experiência provocou uma reflexão importante sobre o papel da tecnologia.

A tecnologia, no contexto educativo, não precisa substituir a experiência concreta. Ela pode ampliá-la, complementá-la e oferecer novas formas de observar e representar determinado objeto ou fenômeno.

Para a Educação Infantil, esse princípio é especialmente importante: o recurso digital deve estar subordinado à experiência, à interação e à intencionalidade pedagógica.

 11. A experiência cultural como continuidade pedagógica

Um dos principais aprendizados decorrentes da visita está na compreensão de que uma experiência cultural não precisa terminar quando o visitante deixa o museu.

No caso das crianças, uma visita pode desencadear um longo percurso de aprendizagem:

visitar → observar → conversar → perguntar → investigar → registrar → representar → narrar → compartilhar.

Na escola, as crianças poderiam, por exemplo, produzir desenhos sobre aquilo que observaram, contar o que mais chamou sua atenção, criar histórias sobre os animais representados, construir réplicas com materiais disponíveis, organizar uma exposição na própria escola ou produzir coletivamente um livro sobre a experiência.

O professor poderia registrar as falas das crianças, suas hipóteses e descobertas, utilizando esses registros como documentação pedagógica.

Dessa maneira, a visita deixa de ser uma atividade isolada e passa a integrar o percurso de aprendizagem e documentação das crianças.

 12. Repercussões para a formação dos professores

A experiência também apresenta possibilidades para a formação continuada das equipes escolares.

A partir da visita, podem ser desenvolvidas pautas formativas relacionadas a:

Leitura de mundo e múltiplas linguagens;

·       Espaços culturais como territórios educativos;

·       Curiosidade e investigação na educação infantil;

·       Oralidade e produção de narrativas;

·       Observação e formulação de hipóteses;

·       Documentação pedagógica;

·       Articulação entre escola, cultura e território;

·       Uso intencional de recursos visuais e tecnológicos.

Nesse sentido, a visita cultural não representa apenas uma atividade complementar. Ela pode constituir-se como fonte de conhecimento para a formação dos próprios professores e gestores.

13. Repercussões para a prática da coordenação pedagógica

Para a coordenação pedagógica, a experiência oferece uma importante possibilidade de reflexão sobre a formação docente.

O coordenador pode ajudar o professor a transformar experiências culturais em situações pedagógicas significativas, evitando que a visita seja reduzida a um passeio ou atividade descontextualizada.

A pergunta central passa a ser:

“O que essa experiência pode provocar nas crianças e como podemos transformar essa provocação em novas experiências de aprendizagem?”

Essa perspectiva fortalece o planejamento intencional, a observação das crianças e a documentação de seus processos de aprendizagem.

 14. Repercussões para a gestão escolar

Para os diretores, a visita reforça a importância da gestão como articuladora de oportunidades educativas.

A aproximação com museus, universidades, bibliotecas, espaços culturais e demais instituições do território pode contribuir para ampliar o repertório das crianças e fortalecer a relação entre escola e comunidade.

Nesse sentido, a gestão pode atuar na construção de parcerias, organização de visitas, planejamento de ações interinstitucionais e valorização do patrimônio cultural e científico local.

Essa atuação contribui para uma escola mais aberta ao território e para uma concepção de educação que compreende que os processos educativos acontecem em diferentes espaços sociais.

15. Considerações finais

A visita cultural realizada em 09 de setembro de 2026, no âmbito do Programa LEEI – Leitura e Escrita na Educação Infantil, Polo UNESP – Presidente Prudente, constituiu uma experiência significativa de formação cultural, científica e pedagógica para diretores e coordenadores pedagógicos da Rede Municipal de Educação de Fernandópolis.

A recepção e a mediação conduzidas pelo Professor Cadu, gestor do Museu de Paleontologia de Fernandópolis, juntamente com a equipe de apoio, possibilitaram aos participantes conhecer o acervo e, sobretudo, compreender o papel social e educativo desempenhado pela instituição.

Sua apresentação permitiu perceber que um museu pode ser muito mais do que um espaço de preservação de objetos. Pode ser um lugar de perguntas, descobertas, investigação, memória, cultura, ciência e aprendizagem.

Os fósseis, as réplicas, as ilustrações e os recursos visuais apresentados demonstraram como diferentes linguagens podem ser articuladas para tornar o conhecimento acessível e significativo.

Para a Educação Infantil, essa experiência oferece uma contribuição especialmente relevante: a compreensão de que a criança aprende lendo o mundo antes, durante e para além da leitura da palavra escrita.

Ela lê imagens, objetos, expressões, espaços, sons, histórias, marcas, acontecimentos e experiências. Pergunta, imagina, compara, interpreta, cria hipóteses e constrói narrativas.

Essa perspectiva aproxima a experiência vivida no museu dos princípios do LEEI e reforça a importância de uma Educação Infantil que valorize as interações, as brincadeiras, as múltiplas linguagens, a oralidade, a curiosidade, a imaginação e a experiência cultural.

A visita também deixou uma importante reflexão para a gestão educacional: formar professores e gestores significa também ampliar seus repertórios culturais, pois profissionais que vivenciam diferentes espaços, linguagens e formas de conhecimento ampliam suas possibilidades de criar experiências significativas para as crianças.

Assim, a visita ao Museu de Paleontologia de Fernandópolis representa uma experiência que pode ultrapassar o momento vivido no dia 09 de setembro de 2026. Seus efeitos podem continuar nas escolas, nas reuniões pedagógicas, nos planejamentos, nas práticas docentes e, principalmente, nas experiências oferecidas às crianças.

A partir dessa vivência, fortalece-se a compreensão de que educar é também possibilitar encontros com o mundo, com a cultura, com a ciência, com a memória e com diferentes formas de produzir conhecimento.

E, no contexto da Educação Infantil, esses encontros ganham ainda maior significado quando permitem que a criança possa olhar, perguntar, imaginar, falar, escutar, representar, criar e descobrir.

Nesse sentido, a experiência proporcionada pelo LEEI – Polo UNESP Presidente Prudente reafirma a potência da formação continuada realizada em diálogo com o território e com os espaços culturais, fortalecendo uma educação que compreende a criança como sujeito de linguagem, cultura, experiência, curiosidade e conhecimento.

 

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