QUANDO SETEMBRO TERMINA, O CUIDADO CONTINUA:
SAÚDE MENTAL, TRABALHO DOCENTE E OS DESAFIOS DA DUPLA JORNADA
Uma reflexão
a partir de uma experiência de conscientização com professores do período
noturno da escola pública
José Igídio dos Santos
Sobre o autor: José Igídio
dos Santos é educador e gestor pedagógico, especialista e pós-graduando em MBA
em Gestão de Projetos pela USP/ESALQ. Atua na coordenação pedagógica da
Educação Infantil, com experiência em formação docente, acompanhamento didático-pedagógico
e inovação educacional. Seus estudos articulam gestão, tecnologia e
inteligência artificial à educação.
Resumo
Este artigo constitui um ensaio teórico-reflexivo sobre saúde mental
e trabalho docente, elaborado a partir de uma experiência de conscientização
realizada com professores do período noturno de uma escola pública, após
palestra conduzida por jovens estudantes de Medicina sobre prevenção do
suicídio, depressão, burnout, fatores de risco e proteção e redes de apoio.
Embora a atividade tenha ocorrido no contexto do Setembro Amarelo, a reflexão
desloca-se para além do calendário da campanha, procurando compreender a
relação entre saúde mental, organização do trabalho, intensificação da
atividade docente e jornadas ampliadas, especialmente entre profissionais que
conciliam diferentes vínculos de trabalho. O texto articula a experiência
vivenciada a pesquisas realizadas no estado de São Paulo, com destaque para
estudos em escolas estaduais e municipais paulistas, além de referenciais da
psicodinâmica do trabalho e da literatura internacional sobre burnout.
Defende-se uma concepção de cuidado que não responsabilize exclusivamente o
professor pela própria saúde, mas considere também a organização institucional
do trabalho, as relações profissionais, o tempo de recuperação e as redes de
apoio.
Palavras-chave: saúde mental; trabalho docente; burnout; sofrimento
psíquico; escola pública; São Paulo.
1 INTRODUÇÃO — QUANDO O CALENDÁRIO TERMINA, A PERGUNTA
PERMANECE
“A história
em que me faço com os outros é um tempo de possibilidades, e não de
determinismo.”
Paulo Freire — Pedagogia da
Autonomia
O Setembro Amarelo ocupa um lugar importante no calendário
brasileiro de conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio.
Entretanto, existe um risco quando temas dessa natureza são reduzidos à
temporalidade das campanhas: o de produzir mobilização intensa durante algumas
semanas e, posteriormente, retornar ao silêncio cotidiano. A pergunta que
orienta este artigo nasce justamente desse intervalo entre campanha e
cotidiano: o que acontece com a saúde mental dos trabalhadores quando setembro
termina?
A questão ganhou significado particular a partir de uma palestra
realizada com professores do período noturno de uma escola pública, conduzida
por jovens estudantes de Medicina, em uma proposta de conscientização sobre
saúde mental. A atividade trouxe para o espaço escolar discussões sobre
depressão, sinais de alerta, burnout, fatores de risco e proteção, tratamento,
importância da escuta e necessidade de buscar ajuda. A iniciativa foi proposta
por José Igídio dos Santos e partiu da compreensão de que falar sobre saúde
mental no ambiente escolar não deveria significar apenas abordar situações
relacionadas aos estudantes. Os próprios profissionais da educação também
precisam ser reconhecidos como sujeitos de cuidado.
A discussão assume particular relevância quando observamos a
realidade do professor que trabalha no período noturno. Para alguns docentes, a
entrada na escola à noite não representa o início do dia de trabalho, mas uma
segunda etapa de uma jornada que começou muitas horas antes. Antes da aula,
podem existir outro vínculo profissional, deslocamentos, responsabilidades
familiares, trabalho doméstico e tarefas pedagógicas que ultrapassam o horário
formal.
O objetivo deste artigo é discutir, à luz da literatura científica,
como condições de trabalho, jornadas ampliadas, relações profissionais,
reconhecimento e organização institucional podem se relacionar à saúde mental
docente, sem transformar a experiência local em diagnóstico ou evidência
epidemiológica.
A literatura paulista é especialmente pertinente para essa
discussão. Vedovato e Monteiro (2008), em estudo transversal com 258
professores de nove escolas estaduais de Campinas e São José do Rio Pardo, identificaram
20,9% de professores com transtornos mentais diagnosticados e observaram
relação entre problemas de saúde e fatores como trabalho estressante, longas
jornadas e atuação em mais de uma escola. O estudo também registrou que 53,9%
trabalhavam simultaneamente em outra escola.
Assim, a discussão proposta não parte de uma hipótese de que todo
professor noturno esteja adoecido. Parte de uma questão mais cuidadosa: em que
condições o trabalho docente pode favorecer proteção ou produzir desgaste, e o
que a escola pode fazer para ampliar as condições de cuidado?
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
“A teoria
sem a prática vira verbalismo; a prática sem a teoria, ativismo.”
Paulo Freire — Pedagogia da
Autonomia
O presente texto caracteriza-se como ensaio teórico-reflexivo, de
abordagem qualitativa, construído a partir de uma experiência formativa
realizada no espaço escolar e articulado a revisão não sistemática de
literatura científica. A experiência da palestra é tomada como ponto de partida
para a formulação do problema, e não como evidência científica de prevalência
ou causalidade.
Para qualificar a discussão, foram priorizados estudos empíricos
realizados no estado de São Paulo, especialmente pesquisas com professores de
escolas públicas estaduais ou municipais. Foram utilizados, entre outros,
estudos realizados em Campinas e São José do Rio Pardo, em escola estadual do
município de São Paulo, em escolas municipais do interior paulista e na rede
pública municipal da capital. Referenciais teóricos sobre psicodinâmica do
trabalho, burnout e saúde mental no trabalho foram utilizados para interpretar
os achados.
Os resultados apresentados são discutidos segundo seus próprios
limites metodológicos. Estudos transversais e amostras de conveniência não
permitem estabelecer relações causais nem generalizar automaticamente os
resultados para todo o professorado paulista. A opção por explicitar essas
limitações busca evitar tanto a banalização do sofrimento quanto a
transformação de indicadores de rastreamento em diagnósticos clínicos.
3 DESENVOLVIMENTO
3.1 Trabalho docente, tempo e dupla jornada: quando uma
jornada encontra outra
“O trabalho
docente é uma atividade relacional.”
Síntese da literatura sobre
trabalho docente e relações profissionais
A docência é uma atividade que ultrapassa o tempo em que o professor
permanece diante dos estudantes. Planejamento, avaliação, correção, registros,
reuniões, comunicação com famílias e formação profissional constituem parte da
atividade e podem avançar sobre o tempo destinado à vida pessoal.
A pesquisa de Vedovato e Monteiro (2008) é particularmente
importante por corresponder diretamente ao contexto paulista. O estudo foi
realizado em nove escolas estaduais de Campinas e São José do Rio Pardo,
envolvendo 258 professores. Os autores identificaram que 53,9% trabalhavam
simultaneamente em outra escola e 15,9% desenvolviam outras atividades
remuneradas além da docência. A jornada média semanal daqueles que trabalhavam
em mais de uma escola foi de 35,1 horas, sem considerar outras demandas
profissionais e domésticas.
O mesmo estudo registrou que 20,9% dos professores não conseguiam
dormir bem após o trabalho e que 58,1% percebiam pressão de tempo constante
para terminar rapidamente as tarefas. Além disso, 46,1% consideravam o trabalho
mentalmente extenuante. Esses dados são relevantes para a discussão sobre
professores do período noturno porque mostram, em uma população paulista, que o
trabalho em mais de uma escola e a pressão temporal coexistem com indicadores
de desgaste.
Outro estudo realizado por Silva, Bolsoni-Silva e Loureiro (2018),
em escolas públicas municipais de municípios da região central do interior de
São Paulo, investigou 100 professoras do 2º ao 5º ano. A pesquisa encontrou
prevalência de 29% de burnout segundo o critério utilizado no estudo e 23% de
depressão identificada pelo PHQ-9. Também foram observadas correlações fortes
entre depressão e dimensões do burnout. Os autores, contudo, ressaltam
limitações como amostra de conveniência, delineamento transversal e concentração
regional.
Esses resultados permitem uma formulação mais rigorosa da questão da
dupla jornada. Não é possível afirmar que possuir dois empregos cause burnout
ou depressão. É possível, porém, discutir que a soma de jornadas reduz o tempo
potencialmente disponível para descanso, convivência, sono e recuperação,
enquanto amplia a exposição às demandas ocupacionais. O problema, portanto, não
está apenas na quantidade de horas, mas na relação entre tempo de trabalho,
demandas, autonomia, recuperação e condições concretas de vida.
3.2 Do cansaço ao sofrimento: burnout, depressão e
organização do trabalho
“O
sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está
bloqueada.”
Christophe Dejours — A loucura do
trabalho
A popularização do termo burnout exige precisão conceitual. A
Organização Mundial da Saúde o classifica na CID-11 como fenômeno ocupacional,
relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente
administrado. O conceito envolve exaustão, distanciamento mental ou sentimentos
negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Burnout,
portanto, não deve ser utilizado como sinônimo de qualquer cansaço ou de
depressão.
A contribuição de Dejours (1992) é relevante porque desloca a
análise do indivíduo isolado para a relação entre trabalhador e organização do
trabalho. A psicodinâmica do trabalho permite compreender que o trabalho pode
ser fonte de sofrimento, mas também de reconhecimento, cooperação, identidade e
realização. O foco, portanto, não deve ser apenas perguntar por que uma pessoa
não suporta determinada situação, mas compreender como o trabalho está
organizado e quais possibilidades de transformação existem.
No estado de São Paulo, Simões e Cardoso (2022) investigaram 93
professores da rede pública municipal da capital que tinham indicação de
psicoterapia. O esgotamento profissional foi associado a diferentes elementos
do contexto escolar. Entre os participantes com esgotamento grave, 60% haviam
sofrido agressão na escola no ano anterior. Os autores também encontraram
associação com incômodo nos contatos interpessoais e ruído, indicando a
relevância de fatores coletivos e ocupacionais.
O estudo não autoriza concluir que a violência escolar provoque
isoladamente burnout, pois seu delineamento não permite estabelecer
causalidade. Entretanto, mostra que o sofrimento profissional não pode ser
interpretado somente como característica psicológica individual. Conflitos,
agressões, relações interpessoais e condições ambientais fazem parte do
contexto no qual o trabalho acontece.
A pesquisa de Silva, Bolsoni-Silva e Loureiro (2018) reforça essa
compreensão ao apontar que condições organizacionais desfavoráveis e relações
prejudicadas podem constituir obstáculos à saúde mental dos professores. O
ambiente favorável e relações positivas, por sua vez, podem atuar como fatores
protetores.
Essa distinção é fundamental para o espaço escolar. Afirmar que 'o
professor está estressado' pode ocultar a pergunta mais importante: quais
elementos do trabalho estão contribuindo para esse estado? A resposta pode
envolver quantidade de tarefas, condições físicas, relações profissionais,
reconhecimento, autonomia, violência, pressão temporal ou ausência de espaços
de recuperação.
3.3 Informação, escuta e formação: a saúde mental também
precisa entrar na cultura escolar
“Ensinar
exige saber escutar.”
Paulo Freire — Pedagogia da
Autonomia
A palestra que deu origem a esta reflexão também revelou uma segunda
dimensão do problema: a necessidade de conhecimento. Não basta reconhecer que
saúde mental é importante; é preciso saber identificar situações que exigem
atenção, distinguir sofrimento cotidiano de situações que demandam avaliação
profissional e conhecer caminhos de apoio.
Essa questão aparece de forma particularmente clara em estudo realizado
por Soares et al. (2014) com 31 professores do ensino fundamental e médio de
uma escola estadual do município de São Paulo. Os pesquisadores identificaram
que 80,6% dos professores demonstravam grande interesse em adquirir
conhecimentos sobre saúde mental e receber materiais educativos. Os autores
concluíram que havia insuficiência de informações disponíveis para os docentes
e defenderam estratégias de promoção da saúde mental na escola.
A proximidade entre esse estudo e a experiência que motivou o
presente artigo é significativa. Em ambos os casos, a escola aparece como
espaço legítimo para circulação de conhecimentos sobre saúde mental. A
palestra, nesse sentido, não deve ser vista apenas como atividade pontual, mas
como possibilidade de formação.
Formar não significa transformar professores em profissionais de
saúde. Significa oferecer conhecimentos básicos que permitam reconhecer sinais
de sofrimento, reduzir estigmas, compreender limites de atuação e encaminhar
adequadamente situações que ultrapassem a competência pedagógica.
Essa perspectiva também modifica a ideia de prevenção. Prevenir não
é apenas agir diante de uma crise. É construir condições para que a crise não
seja invisibilizada até alcançar níveis mais graves. Uma cultura de escuta pode
começar com atitudes simples: perguntar como o colega está, evitar julgamentos,
respeitar a privacidade, reconhecer mudanças significativas de comportamento e
orientar a busca por ajuda profissional.
No caso de situações de risco imediato ou pensamento suicida, a
escola não deve assumir função terapêutica. Deve acionar os serviços de saúde e
emergência adequados. O acolhimento escolar é importante, mas não substitui
avaliação e tratamento por profissionais habilitados.
3.4 Da responsabilidade individual à responsabilidade
institucional: cuidar de quem educa
“Ensinar
exige a convicção de que a mudança é possível.”
Paulo Freire — Pedagogia da
Autonomia
Grande parte dos discursos contemporâneos sobre saúde mental
concentra-se em práticas individuais: dormir melhor, fazer atividade física,
organizar o tempo, reduzir o uso de telas, reservar momentos de lazer e
procurar ajuda. Essas orientações podem ser úteis e, em determinadas situações,
necessárias. O problema surge quando elas são apresentadas como resposta
suficiente para condições de trabalho que permanecem inalteradas.
Cuidar do professor não pode significar simplesmente ensinar o
professor a suportar mais. A Organização Mundial da Saúde recomenda
intervenções organizacionais para reduzir riscos psicossociais, além de ações
individuais e de formação. Essa perspectiva encontra correspondência na
literatura paulista.
Vedovato e Monteiro (2008) concluíram que professores de escolas
estaduais paulistas estavam expostos a riscos relacionados às condições de trabalho
e defenderam medidas de promoção da saúde e prevenção. Simões e Cardoso (2022),
por sua vez, evidenciaram que elementos coletivos e ocupacionais se associavam
ao esgotamento profissional entre docentes da rede municipal paulistana.
Nesse sentido, uma política escolar de cuidado pode contemplar
espaços de escuta, comunicação institucional qualificada, apoio entre pares,
atenção às pausas, discussão das demandas, fortalecimento do trabalho coletivo
e encaminhamento adequado para a rede de saúde. A criação de um espaço de pausa
ou relaxamento pode integrar essa política, desde que não seja apresentada como
solução para sobrecarga, violência ou precarização.
Uma sala tranquila pode oferecer uma pausa; não pode corrigir uma
jornada excessiva. Uma palestra pode ampliar conhecimento; não substitui
psicoterapia ou tratamento médico. Uma campanha pode abrir uma conversa; não
substitui uma política permanente de saúde do trabalhador.
A responsabilidade é, portanto, compartilhada. Ao indivíduo cabe
reconhecer limites e procurar ajuda quando necessário. Ao coletivo cabe
construir relações de apoio. À instituição cabe organizar o trabalho de maneira
responsável e criar condições para que o sofrimento seja reconhecido e
encaminhado. Ao poder público cabe formular políticas de proteção e valorização
dos profissionais da educação.
Essa compreensão é particularmente importante para o professor do
período noturno. Quando a escola representa uma segunda jornada, o tempo de
recuperação torna-se um componente relevante da saúde. A discussão sobre saúde
mental, portanto, precisa alcançar a própria organização do tempo de trabalho.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS — SETEMBRO PODE TERMINAR; O CUIDADO
NÃO
“O futuro é
problemático e não inexorável.”
Paulo Freire — Pedagogia da
Autonomia
A experiência da palestra realizada com professores do período
noturno, conduzida por jovens estudantes de Medicina, permitiu transformar uma
atividade associada ao Setembro Amarelo em uma reflexão sobre uma questão
permanente: a relação entre saúde mental e trabalho docente.
A literatura produzida no estado de São Paulo oferece sustentação
concreta para essa discussão. Estudos realizados em escolas estaduais de
Campinas e São José do Rio Pardo identificaram associação entre condições de
trabalho, longas jornadas, atuação em mais de uma escola, sono inadequado e
indicadores de saúde. Pesquisa com professores de escolas públicas municipais
do interior paulista encontrou burnout e depressão em parcela da amostra
estudada. Investigação com professores da rede pública municipal de São Paulo
relacionou esgotamento profissional a elementos do contexto escolar, incluindo
violência, relações interpessoais e ruído. E estudo qualitativo em escola
estadual da capital mostrou elevado interesse dos professores por formação em
saúde mental.
Esses estudos não permitem afirmar que todos os professores do
período noturno estejam adoecidos, nem que a dupla jornada seja, isoladamente,
causa de burnout ou depressão. Permitem, contudo, sustentar cientificamente que
as condições concretas de trabalho devem fazer parte da discussão sobre saúde
mental docente.
A questão central, portanto, não deve ser apenas 'como ajudar o
professor a suportar melhor o trabalho?', mas também 'como organizar melhor o
trabalho para que o professor não precise suportar sozinho aquilo que deveria
ser enfrentado coletivamente?'.
A valorização da vida não pode caber em um único mês. Ela precisa
aparecer na qualidade das relações, no reconhecimento profissional, nas
condições de trabalho, no direito ao descanso, na possibilidade de pedir ajuda
e na existência de instituições capazes de acolher sem estigmatizar.
Se setembro foi capaz de abrir a conversa, outubro pode assumir o
compromisso de não encerrá-la. Porque setembro termina no calendário. O
trabalho continua. A vida continua. E o cuidado também precisa continuar.
REFERÊNCIAS
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