terça-feira, 9 de junho de 2026

LEITURA, ESCRITA E EXPERIÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL - O Programa LEEI como dispositivo de reconfiguração epistemológica da prática pedagógica

 

LEITURA, ESCRITA E EXPERIÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O Programa LEEI como dispositivo de reconfiguração epistemológica da prática pedagógica

 Prof. Esp. José Igídio dos Santos [1]

 

RESUMO

O presente artigo analisa o Programa LEEI (Leitura e Escrita na Educação Infantil) como dispositivo formativo que reconfigura epistemologicamente as práticas pedagógicas na Educação Infantil. Partindo de abordagem qualitativa interpretativa fundamentada no percurso formativo vivenciado, o estudo problematiza a centralidade da experiência na constituição do sujeito infantil e discute o papel da linguagem como dimensão constitutiva do desenvolvimento humano. Ao articular referenciais da perspectiva histórico-cultural — Vygotsky, Bakhtin — com a filosofia da experiência — Benjamin, Larrosa — e a teoria da complexidade — Morin —, evidencia-se que leitura e escrita não podem ser reduzidas à dimensão técnica, sendo compreendidas como práticas simbólicas, culturais e relacionais. Destaca-se a atuação integrada entre professores, coordenadores pedagógicos e formadores como campo de mediação que sustenta a construção coletiva do pensamento pedagógico. Conclui-se que a Educação Infantil demanda um deslocamento paradigmático da lógica centrada na atividade para uma pedagogia orientada pela experiência, reconhecendo a criança como sujeito produtor de sentidos e a escola como espaço de garantia do direito à infância.

 

Palavras-chave: Educação Infantil; experiência; linguagem; cultura; formação docente; Programa LEEI.

 

1. INTRODUÇÃO: A INFÂNCIA ENTRE EXPERIÊNCIA E ESVAZIAMENTO

 

Pensar a Educação Infantil na contemporaneidade implica muito mais do que reorganizar práticas pedagógicas: trata-se de enfrentar uma transformação profunda nas próprias condições de possibilidade da experiência. A infância, enquanto construção histórica e cultural — e não dado natural —, encontra-se hoje atravessada por processos de aceleração do tempo, fragmentação das relações e saturação de estímulos que, paradoxalmente, produzem não ampliação, mas empobrecimento da experiência. Como assinala Jorge Larrosa (2002), vivemos em uma época que nos oferece muita informação e muito movimento, mas cada vez menos experiência, pois esta exige lentidão, abertura e capacidade de ser afetado pelo que acontece.

Essa transformação não é trivial: ela reconfigura os modos pelos quais as crianças constroem sentido, estabelecem vínculos e se constituem como sujeitos. Walter Benjamin, em sua análise da modernidade, já identificava esse fenômeno ao constatar o declínio da narrativa e a substituição da experiência compartilhável (Erfahrung) pela vivência individual e incomunicável (Erlebnis)[2]. O que Benjamin descrevia no início do século XX encontra, na contemporaneidade digital, uma radicalização: a criança imersa em telas fragmentadas acumula vivências em velocidade crescente, mas encontra dificuldade crescente de elaborá-las simbolicamente, de narrá-las e de integrá-las à constituição de si mesma.

É nesse horizonte — de tensão entre abundância de vivências e escassez de experiências — que o Programa LEEI se insere. Não como proposta metodológica circunscrita às técnicas de leitura e escrita, mas como dispositivo formativo que desloca o olhar pedagógico para a centralidade da experiência. Tal deslocamento é, antes de tudo, epistemológico: redefine o modo como se compreendem linguagem, infância, desenvolvimento e prática pedagógica. Afasta-se do paradigma que concebe a aprendizagem como resultado mensurável e aproxima-se de uma perspectiva que compreende a experiência como condição de possibilidade de toda aprendizagem significativa.

A prática pedagógica passa, assim, a ser entendida como organização intencional de experiências que articulam tempo, espaço, linguagem e cultura. Isso implica reconhecer que a experiência não ocorre espontaneamente: ela depende de mediações qualificadas, de professores que compreendam a criança como sujeito produtor de sentidos e de coordenadores pedagógicos que sustentem, no plano institucional, a consistência e a intencionalidade das ações formativas. Sem essa cadeia de mediações, o cotidiano da Educação Infantil corre o risco de se reduzir a um acúmulo de atividades sem sentido — um sintoma da mesma lógica produtivista que empobrece a experiência fora dos muros da escola.

Assim, a presente reflexão busca articular as dimensões teóricas e práticas do percurso formativo do LEEI, evidenciando suas implicações para a compreensão da linguagem, da cultura, da memória, do brincar, da formação docente e do papel da escola na contemporaneidade. O argumento central é que a Educação Infantil exige, hoje, não apenas novas metodologias, mas uma reconfiguração paradigmática que reconheça, na experiência, o fundamento de todo ato pedagógico.

 

2. LINGUAGEM COMO CONDIÇÃO DE EXPERIÊNCIA E PRODUÇÃO DE SENTIDOS

 

A compreensão de linguagem que emerge do percurso formativo do LEEI rompe decisivamente com sua redução à função comunicativa. Essa redução, historicamente dominante nas práticas escolares, concebe a linguagem como código neutro, instrumento de transmissão de informações entre sujeitos já constituídos. Contra essa concepção, os fundamentos teóricos mobilizados pelo programa evidenciam que a linguagem não é um meio externo ao sujeito, mas o espaço no qual ele se constitui, organiza simbolicamente sua relação com o mundo e produz sentidos que excedem a mera troca de informações.

Em Lev Vygotsky, essa compreensão encontra seu fundamento no conceito de mediação semiótica[3]. O desenvolvimento das funções psicológicas superiores — atenção voluntária, memória lógica, pensamento conceitual — não ocorre de forma espontânea, mas por meio da internalização de instrumentos culturais, sendo a linguagem o mais fundamental deles. Vygotsky (2007) demonstra que o pensamento não antecede a palavra, mas se transforma por meio dela: o ato de nomear não é apenas registrar o que já existe internamente, mas reorganizar a experiência sob uma nova forma. Isso significa que a criança que aprende a falar não apenas adquire um código: ela adquire uma forma de organizar o mundo.

Essa perspectiva é ampliada por Mikhail Bakhtin (2011), ao introduzir a dimensão dialógica da linguagem[4]. Para Bakhtin, todo enunciado é constitutivamente dialógico: ele emerge na relação com outros enunciados, responde a vozes que o precedem e antecipa vozes que virão. A linguagem não é, portanto, um sistema fechado de signos, mas um campo vivo de interação social, no qual o sujeito se posiciona, é interpelado e se constitui. Nesse sentido, aprender a ler e escrever, na perspectiva bakhtiniana, não é dominar um sistema abstrato de correspondência entre sons e letras: é aprender a participar de práticas discursivas historicamente situadas, reconhecendo-se como enunciador que ocupa posição em relação a outros.

A articulação entre Vygotsky e Bakhtin permite compreender que a linguagem, na Educação Infantil, deve ser tratada como prática social e cultural, não como técnica. A leitura em voz alta pelo professor, a escuta de histórias, o relato oral de experiências, a observação de livros com imagens, as conversas sobre o vivido — todas essas práticas são, antes de serem preparação para a alfabetização, experiências de linguagem que constituem o sujeito. É nesse sentido que o LEEI reconfigura o olhar pedagógico: a criança pré-escolar não está "se preparando" para a linguagem; ela já está nela, produzindo sentidos, respondendo ao mundo, constituindo-se como sujeito cultural.

Essa perspectiva tem implicações diretas para a formação docente. Se a linguagem é produção de sentidos e não transmissão de códigos, o professor de Educação Infantil precisa ser, antes de tudo, um interlocutor qualificado, capaz de escutar, responder e ampliar os enunciados das crianças. Sua função não é corrigir, mas dialogar; não é avaliar, mas participar. Isso exige uma compreensão da linguagem que vai muito além dos fundamentos da alfabetização e que precisa ser construída no próprio processo formativo, por meio de experiências de leitura, escrita e reflexão que ressignifiquem a relação do professor com a linguagem.

 

3. CULTURA E DESENVOLVIMENTO: A NÃO UNIVERSALIDADE DO SUJEITO INFANTIL

 

Uma das implicações mais significativas da perspectiva histórico-cultural para a Educação Infantil é o reconhecimento de que o desenvolvimento infantil não segue uma trajetória universal, linear e homogênea. Contra a tradição naturalista que concebia o desenvolvimento como desdobramento progressivo de estruturas inatas, a abordagem vygotskyana demonstra que o sujeito se constitui na e pela cultura, e que, portanto, não há desenvolvimento humano fora de um contexto de relações sociais mediadas simbolicamente.

Essa compreensão tem consequências profundas para a prática pedagógica. Se o desenvolvimento é culturalmente situado, então as experiências que a escola oferece não são neutras: elas participam ativamente da constituição do sujeito. Ao organizar o tempo, o espaço, os materiais e as interações, a instituição escolar define quais experiências serão possíveis, quais formas de pensamento serão valorizadas e quais modos de ser criança serão reconhecidos como legítimos. A prática pedagógica, nesse sentido, é sempre também política: ela inclui e exclui, amplia e limita, reconhece e silencia.

O reconhecimento da não universalidade do desenvolvimento impõe, ainda, uma crítica às expectativas normativas que frequentemente organizam o trabalho na Educação Infantil. Quando se espera que todas as crianças de determinada faixa etária apresentem os mesmos comportamentos, habilidades ou interesses, opera-se uma redução da singularidade do sujeito a um suposto padrão de normalidade. Esse movimento não apenas ignora as diferenças culturais, sociais e subjetivas, como também produz mecanismos de patologização das diferenças — transformando em problema aquilo que é, muitas vezes, expressão de uma experiência cultural distinta.

A perspectiva do LEEI desloca esse olhar normativo ao propor uma prática pedagógica orientada pela escuta das crianças. Escutar não significa apenas ouvir o que dizem, mas reconhecer suas formas singulares de expressar, organizar e significar o mundo. Trata-se, em última análise, de reconhecer a criança como sujeito cultural — não como objeto de desenvolvimento, mas como produtor ativo de cultura, como aquele que, ao mesmo tempo em que é constituído por práticas culturais, também as transforma, reinventa e ressignifica.

Essa concepção dialoga com o que Edgar Morin (2000) denomina pensamento complexo[5]: a recusa de reducionismos que fragmentam o sujeito em variáveis isoladas e a disposição de compreender o desenvolvimento como fenômeno multidimensional, no qual biológico, cultural, subjetivo e relacional se articulam de forma indissociável. Para a Educação Infantil, isso significa abandonar a lógica das etapas rígidas e das expectativas uniformes, em favor de uma organização pedagógica que valorize a diversidade de experiências, ritmos e formas de significação.

 

4. MEMÓRIA, LITERATURA E EXPERIÊNCIA: O LUGAR DA ESTÉTICA NA FORMAÇÃO

 

A presença da literatura no percurso formativo do LEEI ocupa um lugar central que vai muito além da função de exemplificação pedagógica. Ao mobilizar, de modo privilegiado, a obra de Bartolomeu Campos de Queirós, a formação evidencia que a leitura literária, quando compreendida como experiência estética, mobiliza dimensões que ultrapassam o cognitivo e alcançam o campo da memória, da afetividade e da imaginação.

Bartolomeu Campos de Queirós é um escritor cuja obra se caracteriza por uma linguagem que não nomeia o mundo de forma direta, mas que o evoca por camadas, aproximando-se daquilo que o próprio autor descrevia como "a memória do que não aconteceu". Em obras como Indez, O peixe e o pássaro e Por parte de pai, a infância não é representada de forma nostálgica ou idealizada, mas reinventada pela linguagem como espaço de elaboração do vivido. Essa elaboração, que é simultaneamente estética e ética, oferece ao leitor não informação, mas experiência.

Ao revisitar suas próprias infâncias por meio das tertúlias literárias[6], os participantes do programa não apenas recordam: reinterpretam. A memória, aqui, não funciona como acesso ao passado, mas como processo ativo de ressignificação, no qual o vivido é reorganizado à luz do presente, das leituras realizadas e das trocas estabelecidas com os pares. Esse processo evidencia que a formação não é apenas intelectual, mas experiencial: ela transforma não apenas o repertório teórico do professor, mas sua relação com a linguagem, com a infância e consigo mesmo.

A aproximação com o conceito de experiência em Jorge Larrosa (2002) é aqui particularmente fecunda. Para Larrosa, a experiência é aquilo que nos acontece[7] — e não simplesmente o que fazemos ou o que nos ocorre como evento exterior. Ela exige abertura, sensibilidade, disponibilidade para ser transformado pelo que vem ao encontro. Nesse sentido, a leitura literária que propõe o LEEI não visa à extração de informações ou à identificação de elementos narrativos, mas à abertura de um espaço no qual o leitor possa ser atravessado pelo texto — e, ao ser atravessado, se deslocar.

Essa dimensão estética da formação, frequentemente negligenciada nos programas de desenvolvimento profissional, revela-se como condição para uma prática pedagógica mais sensível e reflexiva. O professor que vivenciou a experiência de ser transformado por um texto literário está em melhores condições de criar, em sua sala, condições para que as crianças também vivam essa experiência. A literatura, portanto, não é apenas objeto de ensino: ela é instrumento de formação do próprio formador.

Essa perspectiva encontra ressonância na obra de Walter Benjamin, que, ao analisar o narrador, identifica na narrativa a forma por excelência de transmissão da experiência entre gerações. A narrativa literária, diferentemente da informação, não apenas comunica fatos: ela os situa em uma trama de significados que mobiliza a memória, a imaginação e a capacidade de produzir sentido. Quando uma professora conta uma história para suas crianças, ela não apenas entretém: ela inscreve as crianças em uma tradição de narradores, amplia seu vocabulário de imagens e emoções e oferece modelos de elaboração simbólica do vivido.

 

5. O BRINCAR COMO LINGUAGEM E PRODUÇÃO DE CULTURA

 

O brincar ocupa, na Educação Infantil, um lugar que frequentemente oscila entre dois extremos igualmente problemáticos: de um lado, é reduzido a atividade de entretenimento, momento de descanso entre as "atividades sérias"; de outro, é instrumentalizado como recurso didático, submetido a objetivos que lhe são externos e que comprometem sua natureza. O percurso formativo do LEEI recoloca o brincar em outro lugar: o de linguagem da infância, forma complexa de produção simbólica por meio da qual a criança se relaciona com o mundo, com os outros e consigo mesma.

Compreender o brincar como linguagem implica reconhecer que, ao brincar, a criança não apenas reproduz o mundo social: ela o reinventa, experimenta papéis, negocia regras, cria narrativas e elabora emoções. Vygotsky (2007) demonstrou que o brincar cria uma zona de desenvolvimento iminente[8] na qual a criança opera acima de seu nível habitual de desenvolvimento, pois a situação imaginária exige que ela subordine seu comportamento às regras implícitas da ficção. Nesse sentido, brincar de casinha não é apenas imitar o adulto: é exercitar a capacidade de criar e habitar um espaço simbólico regulado por uma lógica própria.

A dimensão cultural do brincar é igualmente significativa. Ao brincar, a criança não apenas expressa o que já sabe: ela explora o que ainda não sabe, experimenta o que ainda não é e antecipa o que pode vir a ser. O brincar é, portanto, zona de contato entre o real e o possível, entre o que a cultura oferece e o que a criança transforma. Nesse sentido, ele constitui uma forma privilegiada de participação cultural: a criança que brinca não é receptora passiva de cultura, mas produtora ativa de novos sentidos a partir dos materiais culturais disponíveis.

A distinção entre brincar livre e brincar dirigido, frequentemente tratada de forma dicotômica, revela-se, na perspectiva do LEEI, menos importante do que a qualidade da mediação pedagógica em cada caso. O que define o valor formativo do brincar não é a presença ou ausência do adulto, mas o modo como o adulto se relaciona com o brincar da criança. Quando a intervenção pedagógica é orientada pelo controle — pela definição prévia do que deve ser feito, do que deve resultar e de como deve ser avaliado —, o brincar se esvazia de sua potência simbólica. Quando, ao contrário, a intervenção é orientada pela escuta — pela observação atenta, pela oferta de materiais que ampliem possibilidades sem determinar sentidos, pela presença que sustenta sem interferir —, o brincar se expande e aprofunda.

Essa compreensão da mediação pedagógica no brincar tem implicações diretas para a formação de professores. O professor que não brinca, que não se permite ser surpreendido pela ficção das crianças, que não consegue habitar o espaço lúdico sem ansiedade de controle, dificilmente conseguirá criar condições para que o brincar aconteça em sua plenitude. A formação proposta pelo LEEI, ao incluir momentos de experiência lúdica entre os próprios educadores, cria condições para que o professor ressignifique sua própria relação com o brincar — e, a partir dessa ressignificação, compreenda de forma mais profunda o que está em jogo quando as crianças brincam.

 

6. A CRISE CONTEMPORÂNEA DA EXPERIÊNCIA: TEMPO, TELAS E ESVAZIAMENTO DO VIVIDO

 

A análise das condições contemporâneas de experiência das crianças exige que se tome em consideração um conjunto de transformações culturais que, aceleradas nas últimas décadas, reconfiguram profundamente os modos pelos quais os sujeitos se relacionam com o tempo, com os outros e com o mundo. Essas transformações não são externas à escola: elas chegam com as crianças todos os dias e constituem o pano de fundo sobre o qual as práticas pedagógicas precisam ser pensadas.

A reflexão de Walter Benjamin sobre a crise da experiência na modernidade oferece um quadro conceitual fundamental para compreender esse fenômeno. Em seu ensaio sobre o narrador, Benjamin (1994) identifica o declínio da narrativa como sintoma de uma transformação mais ampla: a substituição da experiência coletiva e transmissível (Erfahrung) pela vivência individual e incomunicável (Erlebnis)[9]. Esse declínio está associado à aceleração do tempo histórico, à multiplicação dos estímulos e à fragmentação das relações que caracterizam a modernidade. O que Benjamin descrevia a partir da experiência da Primeira Guerra Mundial encontra, na contemporaneidade digital, uma radicalização que ele não poderia ter antecipado em seus detalhes, mas que sua análise estrutural já havia prefigurado.

A centralidade das telas na vida das crianças contemporâneas produz um paradoxo: nunca as crianças tiveram acesso a tantas imagens, narrativas, personagens e informações; e, ao mesmo tempo, nunca a elaboração simbólica do vivido foi tão difícil. A rapidez das interações digitais — o estímulo que se esgota em segundos para dar lugar a outro — não oferece o tempo necessário para que o vivido se transforme em experiência. A criança que assiste a dezenas de vídeos curtos em sequência pode sentir prazer imediato e intensa estimulação sensorial, mas raramente encontra condições para que qualquer um desses conteúdos a transforme, integre-se à sua memória como algo significativo ou amplie sua capacidade de produzir sentido.

Esse empobrecimento da experiência não é apenas um fenômeno da cultura digital: ele está presente também em muitas práticas escolares. A pedagogia da atividade — que será analisada na seção seguinte — reproduz, no interior da escola, a mesma lógica da fragmentação e da aceleração: muitas propostas, pouco tempo para cada uma, avaliação centrada nos produtos e não nos processos, prioridade da quantidade sobre a qualidade das experiências. Nesse sentido, a escola pode ser, paradoxalmente, mais um espaço de empobrecimento da experiência — ou pode constituir-se como espaço de resistência e de garantia de condições para que a experiência aconteça.

A perspectiva de Larrosa (2002) é aqui novamente pertinente. Para o filósofo espanhol, a experiência exige, fundamentalmente, quatro condições: exterioridade (algo que vem ao encontro do sujeito de fora), alteridade (algo que excede e surpreende), receptividade (abertura do sujeito para ser afetado) e transformação (mudança do sujeito a partir do encontro). Essas condições não se realizam automaticamente: elas precisam ser criadas e sustentadas. E é exatamente isso que a escola pode — e deve — fazer quando se organiza a partir de uma pedagogia da experiência.

 

7. FORMAÇÃO DOCENTE E MEDIAÇÃO: O COORDENADOR PEDAGÓGICO COMO FIGURA-CHAVE

 

A formação docente proposta pelo LEEI difere fundamentalmente dos modelos tradicionais de capacitação profissional, nos quais especialistas externos transmitem conteúdos a professores concebidos como receptores passivos. Ao contrário, o programa fundamenta-se em uma concepção de formação como processo dialógico de ressignificação da prática, no qual os professores são compreendidos como sujeitos de conhecimento e a teoria emerge da reflexão sobre a experiência, e não como prescrição externa.

Essa concepção formativa articula-se diretamente com as contribuições de Vygotsky e Bakhtin, transpondo para o contexto da formação de adultos os mesmos princípios que orientam a compreensão do desenvolvimento infantil. Assim como a criança não aprende por transmissão direta, mas por internalização mediada de práticas culturais, o professor não se desenvolve profissionalmente por acúmulo de informações, mas por deslocamentos que transformam sua relação com o saber, com a prática e com as crianças. A formação, nesse sentido, é ela mesma uma experiência no sentido pleno do termo: algo que transforma quem a vive.

Nesse processo, a figura do coordenador pedagógico assume centralidade estratégica. Situado na interface entre a gestão institucional e a prática docente, o coordenador é o profissional que pode sustentar, no cotidiano da escola, a consistência do trabalho formativo. Sua função não se reduz à organização de reuniões e ao cumprimento de rotinas administrativas: ela implica a construção de um espaço institucional no qual o pensamento pedagógico possa ser exercitado, tensionado e aprofundado.

O coordenador que compreende essa função busca criar condições para que os professores reflitam coletivamente sobre suas práticas, identifiquem contradições entre seus fundamentos declarados e suas ações efetivas, experimentem novas formas de organizar o tempo e o espaço e ampliem seu repertório teórico a partir das questões que emergem do próprio trabalho. Ele não fornece respostas prontas, mas provoca perguntas; não avalia o trabalho do professor, mas o acompanha reflexivamente; não impõe modelos, mas cria condições para que cada professor construa, de forma autoral, sua identidade profissional.

Essa triangulação — professor, coordenador, formador — constitui um campo de mediação que precisa ser compreendido em sua complexidade. O formador externo amplia o horizonte teórico e introduz perspectivas que excedem o que pode ser gerado internamente; o coordenador sustenta a continuidade e garante que os processos formativos se enraízem na realidade institucional; e o professor produz conhecimento situado, transformando teorias em práticas e práticas em novos problemas teóricos. Quando essa triangulação funciona, a formação não é um evento pontual, mas um processo contínuo de produção de saber pedagógico.

A perspectiva de Edgar Morin (2000) sobre a reforma do pensamento é aqui evocativa: assim como o conhecimento complexo não pode ser produzido por especialistas isolados, mas emerge do diálogo entre perspectivas, escalas e disciplinas, a formação pedagógica de qualidade não pode ser produzida por um único agente, mas emerge da articulação entre múltiplas formas de saber — o teórico, o prático, o institucional e o experiencial.

 

8. CRÍTICA À PEDAGOGIA DA ATIVIDADE: ENTRE O FAZER E O SENTIDO

 

Um dos diagnósticos mais perturbadores que emerge do percurso formativo do LEEI é a constatação da predominância, nas salas de Educação Infantil, de práticas centradas na atividade em detrimento da experiência. Essa predominância não é acidental: ela expressa uma lógica pedagógica mais ampla, que organiza o trabalho escolar em torno da produção de resultados visíveis, mensuráveis e demonstráveis — uma lógica que, por sua vez, reflete pressões políticas, administrativas e culturais mais amplas sobre a escola pública.

A pedagogia da atividade caracteriza-se por uma série de marcas reconhecíveis: a fragmentação do tempo em pequenos blocos dedicados a propostas distintas; a centralidade do produto final (o desenho, a ficha, o cartaz) em detrimento do processo; a avaliação do trabalho pela quantidade de atividades realizadas; e a tendência a substituir a experiência pela sua simulação — a história contada de forma mecânica, o brincar dirigido até a perda da autoria, a roda de conversa reduzida a rotina sem escuta real.

Essa lógica não é inteiramente consciente: ela frequentemente expressa o esforço honesto de professores que buscam preencher o tempo de forma "produtiva", que sentem ansiedade diante de momentos não estruturados e que internalizam a pressão por demonstrar resultados. Compreender as origens e os mecanismos dessa lógica é, portanto, tarefa da formação — e é exatamente isso que o LEEI propõe, ao criar espaços para que os professores reflitam sobre o sentido daquilo que fazem, e não apenas sobre o quê e o como fazem.

A distinção entre atividade e experiência, que Larrosa (2002) formula com precisão filosófica, é também uma distinção pedagógica fundamental. A atividade pressupõe um sujeito ativo, que age sobre o mundo; a experiência pressupõe um sujeito receptivo, que é transformado pelo que lhe acontece. A escola contemporânea tende a valorizar excessivamente o primeiro tipo de sujeito — o que faz, produz, demonstra — e a negligenciar o segundo — o que escuta, demora, se deixa atravessar. A pedagogia da experiência não propõe a abolição da ação, mas sua recolocação em outro lugar: não como fim em si mesma, mas como meio para a produção de sentido.

Essa recolocação tem implicações concretas para a organização do cotidiano: implica criar tempos mais longos e menos fragmentados, propor atividades que deixem margem para a autoria das crianças, valorizar os processos tanto quanto os produtos, criar espaços de conversa sobre o que foi vivido e registrar as experiências de formas que permitam sua retomada e aprofundamento. Implica, em suma, uma transformação da cultura institucional — e não apenas das práticas individuais dos professores.

 

9. A ESCOLA COMO RECONSTRUÇÃO DA INFÂNCIA E GARANTIA DO VIVIDO

 

Diante do diagnóstico do empobrecimento contemporâneo das experiências infantis, a escola de Educação Infantil assume uma função que vai muito além da preparação para a alfabetização ou para o ensino fundamental. Ela torna-se, em muitos contextos, o espaço privilegiado — e às vezes único — no qual determinadas experiências fundamentais da infância podem ser vividas: o tempo do brincar sem pressa, a escuta de histórias narradas por um adulto presente, o encontro com obras de arte e literatura, a exploração sensorial de materiais, o silêncio contemplativo diante da natureza, a convivência com a diferença.

Essa função ampliada da escola não é, em si, nova. O que é novo é a consciência de sua necessidade e a clareza sobre as condições que a tornam possível. Se antes se poderia supor que a escola complementava experiências que as crianças viviam de forma rica e variada em outros contextos — a família, a rua, a vizinhança —, hoje é preciso reconhecer que, para muitas crianças, especialmente as pertencentes a contextos de maior vulnerabilidade social, a escola é o principal — ou o único — espaço de acesso a determinadas formas de experiência cultural.

Essa responsabilidade não é pequena, e ela exige que a escola se organize de forma radicalmente diferente daquela orientada pela pedagogia da atividade. A escola que assume a função de garantir o direito à infância precisa, antes de tudo, reconhecer o que a infância exige: tempo, espaço, materiais, interações e narrativas que criem condições para que a criança produza sentidos, construa vínculos e se constitua como sujeito cultural.

O conceito de direito à educação, nesse horizonte, amplia-se: não se trata apenas do direito de acesso à instituição, mas do direito a experiências educativas de qualidade — experiências que respeitem a singularidade da infância, que reconheçam a criança como sujeito e não como objeto, e que compreendam o desenvolvimento não como chegada a um destino predeterminado, mas como processo aberto, plural e culturalmente situado.

A escola que garante esse direito não é aquela que antecipa o ensino fundamental, nem aquela que se limita a cuidar das crianças enquanto os adultos trabalham. É aquela que, de forma intencional e reflexiva, organiza experiências que ampliam as possibilidades de ser criança — e, ao ampliar essas possibilidades, contribui para a constituição de sujeitos mais capazes de compreender, transformar e habitar o mundo com outros.

 

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS: POR UMA PEDAGOGIA DA EXPERIÊNCIA

 

O percurso formativo do LEEI evidencia, com consistência, a necessidade de uma reconfiguração paradigmática na Educação Infantil que não se limita à esfera metodológica, mas atinge os fundamentos epistemológicos e éticos do campo pedagógico. Essa reconfiguração não é uma tarefa simples nem imediata: ela exige transformações nas práticas, nas concepções e nas culturas institucionais, e demanda um investimento continuado na formação de professores, coordenadores e gestores.

O argumento central desenvolvido ao longo deste artigo é que a experiência — no sentido pleno que Larrosa atribui ao termo — constitui o fundamento de toda prática pedagógica significativa na Educação Infantil. Não a experiência como acúmulo de vivências, mas a experiência como aquilo que transforma o sujeito, que o inscreve no mundo de forma singular e que lhe oferece as condições para narrar, compartilhar e ressignificar o que viveu. É a partir dessa compreensão que todas as dimensões analisadas ao longo do artigo — linguagem, cultura, memória, brincar, formação docente, crítica à pedagogia da atividade — adquirem coerência e articulação.

A linguagem, compreendida a partir de Vygotsky e Bakhtin, não é instrumento de comunicação, mas espaço de constituição do sujeito. A cultura, à luz da perspectiva histórico-cultural e da teoria da complexidade de Morin, não é pano de fundo do desenvolvimento, mas sua condição de possibilidade. A memória, articulada pela literatura de Bartolomeu Campos de Queirós e pelo conceito de experiência em Larrosa, não é retorno ao passado, mas ressignificação do vivido à luz do presente. O brincar não é entretenimento, mas linguagem da infância e forma privilegiada de produção cultural. E a escola não é espaço de preparação para a vida, mas espaço no qual a vida — na sua forma infantil, singular e irredutível — pode ser vivida com plenitude.

Mais do que ensinar a ler e escrever, o desafio que o LEEI coloca à Educação Infantil é garantir que a linguagem aconteça como experiência: que as crianças se constituam como leitoras e escritoras não porque dominam um código, mas porque encontraram, na escola, condições para que a linguagem fizesse sentido em suas vidas. Esse é um desafio pedagógico, mas também político, ético e cultural — e só pode ser enfrentado com consistência teórica, comprometimento formativo e profundo respeito pela infância como tempo singular e irrepetível da vida humana.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 114-119.

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, jan./abr. 2002.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Indez. São Paulo: Global, 2004.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Por parte de pai. Belo Horizonte: RHJ, 1995.

VYGOTSKY, Lev Semionovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Tradução de José Cipolla Neto et al. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

VYGOTSKY, Lev Semionovitch. Pensamento e linguagem. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.



[1] José Igídio dos Santos é professor, filósofo, teólogo e gestor educacional. Atua há mais de duas décadas na educação pública e privada, desenvolvendo trabalhos nas áreas de Filosofia, História, formação de professores, currículo e gestão educacional. Possui formação em Filosofia, Teologia e Gestão Pública, além de especializações em Psicopedagogia, Gestão da Educação a Distância, Ensino de Filosofia e MBA em Gestão de Projetos pela ESALQ/USP. Ao longo de sua trajetória, exerceu funções de docência, coordenação pedagógica, formação docente e desenvolvimento curricular, participando de projetos de pesquisa e elaboração de materiais educacionais. Atualmente, é Coordenador Pedagógico da Educação Infantil na Secretaria Municipal de Educação de Fernandópolis (SP), professor do Ensino Médio e pesquisador dos impactos das tecnologias digitais e da inteligência artificial na educação. Seus estudos concentram-se na relação entre educação, filosofia, inovação pedagógica e formação humana.

 

[2]Erfahrung (do alemão, "experiência acumulada, transmissível entre gerações") e Erlebnis ("vivência individual, imediata e incomunicável") são conceitos centrais no pensamento de Walter Benjamin. Para Benjamin, a modernidade produz o declínio progressivo da Erfahrung — a experiência coletiva e narrável que passa de geração a geração por meio da narrativa — em favor da Erlebnis: o choque, o estímulo isolado que não se integra à memória nem pode ser compartilhado. Essa distinção é trabalhada especialmente em "O narrador" (1936) e "Experiência e pobreza" (1933).

[3]Mediação semiótica é o processo pelo qual instrumentos culturais — especialmente a linguagem — medeiam a relação do sujeito com o mundo e com os outros, transformando internamente o funcionamento mental. Os signos (palavras, gestos, símbolos) não são apenas meios de comunicação: são ferramentas que reorganizam o pensamento. Funções psicológicas superiores são capacidades especificamente humanas — atenção voluntária, memória mediada, pensamento abstrato — que se desenvolvem por meio dessas mediações culturais, e não por maturação biológica espontânea.

[4]Dialógico, para Bakhtin, não significa simplesmente "que envolve conversa". Significa que todo ato de linguagem é constitutivamente relacional: toda palavra carrega em si as vozes de quem a disse antes e antecipa a resposta de quem a ouvirá. Enunciado é a unidade real da comunicação verbal — não a palavra isolada nem a frase gramatical abstrata, mas a produção concreta de sentido em situação de interação. Cada enunciado é único e irrepetível, pois responde a uma situação específica e a interlocutores específicos.

[5]Pensamento complexo, para Edgar Morin, é uma forma de conhecimento que recusa simplificações excessivas e busca articular dimensões que o pensamento disciplinar costuma separar: o todo e as partes, o certo e o incerto, a ordem e a desordem. Aplicado à educação, implica reconhecer que a criança não pode ser reduzida a um perfil de desenvolvimento, a uma faixa etária ou a um conjunto de competências mensuráveis. Ela é, ao mesmo tempo, biológica, psíquica, cultural, histórica e singular — e só pode ser compreendida na articulação dessas dimensões.

[6]Tertúlia literária é uma modalidade de encontro de leitura dialógica, de raízes ibéricas, na qual participantes compartilham suas leituras de um texto literário relacionando-as com suas histórias de vida. No contexto formativo do LEEI, as tertúlias cumprem dupla função: são modelo de prática transponível para a sala de aula e, ao mesmo tempo, experiência formativa que afeta os professores como leitores e como sujeitos.

[7]A fórmula de Larrosa "a experiência é aquilo que nos acontece" distingue-se intencionalmente de "o que acontece": muitas coisas ocorrem ao redor do sujeito sem que o transformem. A experiência exige que o sujeito seja tocado, atravessado, modificado pelo que encontra. Por isso ela é rara: a aceleração contemporânea, a sobrecarga de informação e a cultura da opinião imediata oferecem cada vez menos espaço para que algo nos aconteça de verdade. Cf. LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, 2002.

[8]Zona de desenvolvimento iminente (também traduzida como "proximal") é a distância entre aquilo que a criança já realiza de forma independente e aquilo que consegue fazer com a mediação de um parceiro mais experiente. Para Vygotsky, é nessa zona — e não no nível já consolidado — que a aprendizagem mais significativa ocorre. No brincar, a criança frequentemente opera nessa zona: ao assumir papéis e subordinar-se a regras fictícias, exercita capacidades ainda não totalmente desenvolvidas, antecipando o que está por vir.

[9]Benjamin escreveu "Experiência e pobreza" (1933) e "O narrador" (1936) no contexto do pós-guerra europeu, identificando como o excesso de informação e o choque dos estímulos modernos tornavam os sujeitos incapazes de elaborar e transmitir sua experiência em forma de narrativa. A extensão dessa análise à contemporaneidade digital é um movimento interpretativo assumido por pesquisadores como Byung-Chul Han (Sociedade do cansaço, 2010), que retomam Benjamin para pensar os impactos da hipercomunicação e da aceleração tecnológica sobre a experiência humana.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS E A QUESTÃO DO HUMANO: Recepção Teológica da Doutrina Social da Igreja na Era da Inteligência Artificial

 

MAGNIFICA HUMANITAS E A QUESTÃO DO HUMANO: Recepção Teológica da Doutrina Social da Igreja na Era da Inteligência Artificial

José Igídio dos Santos

Filósofo, Teólogo e Pedagogo

Resumo

A encíclica Magnifica Humanitas: Salvaguardar a Pessoa na Era da Inteligência Artificial, promulgada pelo Papa Leão XIV, representa um marco no desenvolvimento contemporâneo da Doutrina Social da Igreja.  Tal continuidade pode ser compreendida à luz da teoria da recepção teológica desenvolvida por Yves Congar e Walter Kasper. Para esses autores, a tradição não consiste na repetição estática de fórmulas doutrinais, mas no processo pelo qual a Igreja interpreta continuamente novas situações históricas à luz do Evangelho. Sob essa perspectiva, Magnifica Humanitas não representa uma ruptura com a Doutrina Social da Igreja, mas uma atualização de seus princípios diante da emergência da inteligência artificial. Embora tematize explicitamente a inteligência artificial, seu objeto mais profundo é a questão antropológica emergente da revolução digital. Este artigo propõe uma recepção crítica e hermenêutica do documento, interpretando-o não apenas como uma reflexão ética sobre tecnologias emergentes, mas como uma resposta teológica à crise do humanismo contemporâneo. Sustenta-se que a encíclica inaugura uma nova etapa da Doutrina Social ao deslocar o eixo da questão social para a questão antropológica, reafirmando a dignidade humana como princípio crítico diante do paradigma tecnocrático. Em diálogo com a tradição social da Igreja e com autores como Heidegger, Guardini, Ellul, Mounier, Maritain, Arendt e Byung-Chul Han, busca-se compreender as potencialidades e os limites da proposta de Leão XIV para a construção de uma civilização do amor em tempos de algoritmos e inteligência artificial.

Palavras-chave: Inteligência Artificial; Doutrina Social da Igreja; Dignidade Humana; Antropologia Teológica; Técnica; Personalismo.

 

Introdução

 

Entre Babel e Jerusalém: a inteligência artificial como questão antropológica

Epígrafe

"Na era da inteligência artificial, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos."

A recepção de uma encíclica exige sempre um movimento duplo: escutar aquilo que o texto afirma e discernir aquilo que ele torna possível pensar. A história da Doutrina Social da Igreja demonstra que os grandes documentos magisteriais não se esgotam em seu contexto imediato. Tornam-se fecundos precisamente quando ultrapassam as circunstâncias que lhes deram origem e oferecem categorias capazes de iluminar novas realidades históricas.

Nesse sentido, a primeira tarefa hermenêutica diante de Magnifica Humanitas consiste em reconhecer que ela não trata fundamentalmente de inteligência artificial. A IA constitui o contexto, não o centro. O verdadeiro núcleo do documento é a pergunta pelo humano numa época em que a técnica alcança níveis inéditos de poder sobre a vida, o conhecimento, a linguagem, o trabalho e as relações sociais.

A originalidade da encíclica emerge exatamente desse deslocamento. Enquanto grande parte dos debates contemporâneos concentra-se nas capacidades das máquinas, Leão XIV volta-se para a condição da pessoa. O problema não é aquilo que os algoritmos podem fazer, mas aquilo que os seres humanos podem deixar de ser.

Esta inversão metodológica revela uma profunda continuidade com a tradição da Doutrina Social da Igreja. Desde a Rerum Novarum, a Igreja procurou interpretar as "coisas novas" de cada época à luz da dignidade humana. Entretanto, a novidade do século XXI consiste no fato de que as "coisas novas" já não transformam apenas as estruturas sociais; elas começam a redefinir as formas pelas quais o ser humano compreende a si mesmo.

Por isso, a hipótese central deste artigo é que Magnifica Humanitas representa a passagem da questão social para a questão antropológica. Mais do que um documento sobre tecnologia, ela configura uma tentativa de responder à mutação cultural produzida pela sociedade algorítmica.

 

I. Babel Digital: Técnica, Poder e Idolatria Contemporânea

Epígrafe

"A primeira escolha não é entre um sim ou um não à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém."

A narrativa bíblica de Babel constitui uma das chaves interpretativas mais fecundas da encíclica. Não por acaso. Desde suas origens, a tradição bíblica percebeu que o problema do poder não reside simplesmente em sua existência, mas em sua absolutização.

Babel simboliza a tentação permanente da humanidade de transformar suas capacidades em fundamento de autossuficiência. O projeto da torre não é arquitetônico; é antropológico. Pretende construir uma humanidade que já não necessita reconhecer limites.

A inteligência artificial recoloca esta questão em escala inédita.

Pela primeira vez na história, a humanidade dispõe de instrumentos capazes de processar volumes gigantescos de informação, prever comportamentos, influenciar decisões e remodelar aspectos fundamentais da vida social. A questão central, contudo, não reside nessas capacidades. Reside na forma como elas reconfiguram nossa compreensão do poder.

É precisamente neste ponto que a crítica de Leão XIV encontra profunda convergência com as análises de Heidegger, Ellul e Guardini. Todos eles compreenderam que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas. Ela constitui uma visão de mundo. Em Heidegger, especialmente em "A Questão da Técnica", a técnica moderna deixa de ser compreendida apenas como instrumento e passa a constituir um modo de desvelamento da realidade. O ser humano passa a enxergar o mundo como reserva disponível para exploração. Jacques Ellul radicaliza essa percepção ao afirmar que a técnica tende à autonomização, subordinando progressivamente todas as esferas da vida aos critérios da eficiência. Romano Guardini, por sua vez, identifica na modernidade tecnológica o risco de uma perda da interioridade e do sentido moral. A advertência de Leão XIV situa-se exatamente nesse horizonte crítico: o perigo da inteligência artificial não reside apenas em seus usos inadequados, mas na possibilidade de transformar a própria compreensão do humano.

A lógica tecnocrática tende a converter eficiência em valor supremo. Tudo passa a ser avaliado segundo critérios de funcionalidade, velocidade, previsibilidade e controle.

O problema não está na eficiência.

O problema surge quando a eficiência se transforma em critério absoluto de verdade e de valor.

Uma sociedade organizada exclusivamente segundo a lógica da otimização corre o risco de esquecer que os elementos mais importantes da existência humana — amor, amizade, compaixão, gratuidade, contemplação — são precisamente aqueles que não podem ser adequadamente quantificados.

A grande advertência da encíclica consiste em recordar que a técnica deve permanecer instrumento da pessoa e jamais converter a pessoa em instrumento da técnica.

 

II. A Crise do Humano: Dignidade, Transumanismo e Pós-humanismo

Epígrafe

"A dignidade fundamental de cada pessoa não se adquire nem se merece, nem precisa de ser demonstrada."

A questão antropológica ocupa o centro do documento.

Ao insistir na dignidade ontológica da pessoa humana, Leão XIV posiciona-se criticamente diante de uma cultura cada vez mais marcada pela lógica do desempenho.

O transumanismo e o pós-humanismo constituem expressões paradigmáticas dessa transformação. Ambos compartilham a convicção de que a condição humana atual representa uma etapa provisória de um processo evolutivo que pode e deve ser superado.

A fragilidade, a dependência, o sofrimento e a mortalidade aparecem como limitações técnicas a serem corrigidas.

A encíclica responde afirmando algo profundamente contracultural: o valor da pessoa não depende de suas capacidades.

Essa afirmação encontra sólido fundamento na tradição personalista cristã. Emmanuel Mounier compreende a pessoa como realidade espiritual irreduzível a funções biológicas, econômicas ou sociais. Jacques Maritain, ao desenvolver o conceito de humanismo integral, sustenta que a dignidade humana deriva de sua abertura à transcendência e não de seu desempenho histórico. Na mesma direção, Karol Wojtyła afirma em Pessoa e Ato que o ser humano jamais pode ser tratado como objeto de utilização, pois possui valor em si mesmo. A crítica de Magnifica Humanitas ao transumanismo insere-se precisamente nessa tradição antropológica.

Aqui emerge uma das contribuições mais importantes do documento para o debate contemporâneo. Numa sociedade em que algoritmos classificam indivíduos segundo padrões de produtividade e desempenho, a Igreja reafirma que existe uma dignidade anterior a qualquer mérito.

Esta posição possui consequências éticas e políticas decisivas.

Se a dignidade depende da eficiência, então os mais vulneráveis tornam-se descartáveis.

Se a dignidade precede toda capacidade, então a sociedade deve organizar-se em função daqueles que mais necessitam de proteção.

A disputa em torno da inteligência artificial revela-se, portanto, inseparável de uma disputa sobre a própria definição da humanidade.

 

III. TRABALHO, VERDADE E LIBERDADE NA SOCIEDADE ALGORÍTMICA

Da Questão Operária à Questão Digital

Epígrafe

"O trabalho não é considerado apenas um problema a gerir ou um meio para obter rendimento, mas um bem fundamental para a pessoa."

Existe uma intuição fundamental em Magnifica Humanitas que merece ser aprofundada: a revolução tecnológica atual possui, para o século XXI, uma importância análoga àquela que a Revolução Industrial teve para o século XIX. Tal analogia não é apenas histórica; é teológica e antropológica. Assim como a industrialização obrigou a Igreja a reinterpretar a dignidade humana diante da lógica do capital, a inteligência artificial exige hoje uma nova reflexão acerca do significado do trabalho, da verdade e da liberdade.

A Rerum Novarum de Leão XIII nasceu da constatação de que a questão operária revelava uma ferida moral no interior da modernidade. O trabalhador havia sido reduzido a instrumento da produção. Seu valor derivava de sua utilidade econômica. A resposta da Igreja consistiu em afirmar a anterioridade da pessoa sobre o mercado, do trabalho sobre o capital e da dignidade sobre o lucro.

Mais de um século depois, a pergunta retorna sob nova forma.

Já não estamos apenas diante da exploração do trabalhador. Estamos diante da possibilidade crescente de sua substituição.

A automação algorítmica introduz uma ruptura sem precedentes. Enquanto as máquinas industriais substituíam predominantemente a força física, os sistemas de inteligência artificial avançam sobre atividades intelectuais, criativas e cognitivas. A distinção clássica entre trabalho manual e trabalho intelectual torna-se progressivamente insuficiente.

Essa transformação obriga a revisitar a profunda intuição antropológica presente em Laborem Exercens.  João Paulo II distingue a dimensão objetiva e a dimensão subjetiva do trabalho. Enquanto a primeira se refere aos resultados produzidos, a segunda diz respeito ao sujeito que trabalha. A prioridade da dimensão subjetiva constitui um dos pilares da Doutrina Social da Igreja. Magnifica Humanitas retoma essa perspectiva ao advertir que a automação não pode ser avaliada exclusivamente por critérios de eficiência econômica, mas pelo impacto que produz sobre a realização humana, o pontífice afirma que o trabalho não possuía apenas um significado econômico. O trabalho constituía uma dimensão da própria vocação humana. Trabalhar significava participar da obra criadora de Deus, transformar o mundo e simultânea mente transformar-se.

A centralidade do sujeito do trabalho era mais importante do que os resultados produzidos.

Essa perspectiva revela toda sua atualidade diante da sociedade algorítmica.

Se a lógica econômica contemporânea valoriza cada vez mais a eficiência, a velocidade e a redução de custos, a Doutrina Social da Igreja continua perguntando algo diferente: o que acontece com a pessoa quando perde os espaços através dos quais constrói significado, reconhecimento e participação social?

O problema da automação não pode ser reduzido a índices de produtividade.

Ele envolve a própria experiência humana de pertencimento.

Historicamente, o trabalho foi uma das principais mediações entre indivíduo e comunidade. Por meio dele as pessoas encontravam lugar na sociedade, exerciam responsabilidades, desenvolviam capacidades e construíam narrativas de sentido.

A substituição crescente de atividades humanas por sistemas inteligentes pode gerar benefícios econômicos significativos. Contudo, também levanta uma questão antropológica inédita: será possível preservar a dignidade do trabalho quando a racionalidade econômica tende a considerar dispensável uma parcela crescente da força humana?

A encíclica não responde com soluções técnicas. Sua contribuição encontra-se em outro nível.

Ela recorda que o valor da pessoa jamais pode ser determinado pela sua produtividade.

Esse princípio torna-se ainda mais relevante quando observamos a emergência de novas formas de exclusão digital. A economia dos dados cria uma divisão entre aqueles que controlam os sistemas tecnológicos e aqueles que são simplesmente objeto de suas operações.

A antiga luta entre capital e trabalho não desaparece; ela assume novas configurações.

O trabalhador industrial cede lugar ao trabalhador de plataforma, ao produtor de dados, ao usuário permanentemente monitorado.

A exploração já não se limita ao tempo de trabalho. Ela alcança hábitos, preferências, comportamentos e relações sociais.

Nesse sentido, a questão do trabalho torna-se inseparável da questão da liberdade.

 

Verdade e Liberdade na Era da Inteligência Artificial

A encíclica introduz uma reflexão particularmente original ao tratar da verdade como bem comum.

Essa formulação possui enorme relevância para a compreensão dos desafios contemporâneos.

A modernidade política sempre pressupôs a existência de um espaço compartilhado de realidade. As divergências eram possíveis porque existia uma referência comum aos fatos.

A sociedade digital altera profundamente essa condição.

Os algoritmos não apenas distribuem informações. Eles estruturam a própria experiência da realidade.

A personalização extrema dos conteúdos produz aquilo que diversos autores denominam fragmentação cognitiva.  A análise aproxima-se das reflexões de Hannah Arendt sobre a relação entre verdade e política. Para Arendt, a vida democrática depende da existência de um mundo comum compartilhado. Quando os fatos deixam de possuir relevância pública, a própria capacidade de julgamento político é enfraquecida. Os algoritmos contemporâneos ampliam esse risco ao fragmentarem a experiência coletiva da realidade. Cada indivíduo passa a habitar universos informacionais distintos, frequentemente impermeáveis ao diálogo.

A verdade deixa então de funcionar como horizonte comum.

Esse fenômeno possui consequências diretamente políticas.

A democracia depende da possibilidade de argumentação racional, deliberação pública e reconhecimento mútuo.

Quando a realidade é substituída por fluxos personalizados de informação, a própria esfera pública torna-se vulnerável.

Leão XIV percebe que a crise da verdade é simultaneamente uma crise da liberdade.

A liberdade não consiste apenas em escolher.

Consiste em escolher à luz da verdade.

Sem acesso confiável à realidade, a autonomia humana torna-se progressivamente manipulável.

A grande ameaça da sociedade algorítmica não reside apenas na vigilância externa.

Essa percepção dialoga diretamente com a noção de psicopolítica desenvolvida por Byung-Chul Han. Diferentemente das formas clássicas de dominação, o poder digital não atua principalmente pela coerção, mas pela indução de comportamentos, desejos e escolhas. A liberdade permanece formalmente preservada, mas torna-se progressivamente condicionada por mecanismos invisíveis de influência..

Reside na possibilidade de modelar silenciosamente desejos, opiniões e comportamentos.

Trata-se de uma forma inédita de poder.

Um poder que raramente impõe.

Mas que influencia permanentemente.

A defesa da liberdade exige, portanto, mais do que proteção jurídica. Exige formação crítica, educação ética e capacidade de discernimento.

É precisamente aqui que a encíclica recoloca a educação e a cultura no centro da missão da Igreja e da sociedade.

 

IV. A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA DIANTE DA MUTAÇÃO ANTROPOLÓGICA DO SÉCULO XXI

Continuidade, Desenvolvimento e Recepção

Epígrafe

"A Doutrina social da Igreja é uma realidade viva, em diálogo com a história, as culturas e as ciências."

A recepção de Magnifica Humanitas exige reconhecer que a Doutrina Social da Igreja não constitui um sistema fechado de respostas prontas. Ela é, antes de tudo, uma tradição viva de discernimento histórico.

A categoria de recepção, amplamente trabalhada por Yves Congar, permite compreender que os documentos magisteriais adquirem significado pleno apenas quando assimilados criticamente pela comunidade eclesial. A recepção não é mera obediência passiva, mas um processo de interpretação, aprofundamento e atualização. Nessa perspectiva, Magnifica Humanitas deve ser entendida menos como ponto de chegada do que como início de uma nova agenda teológica voltada para os desafios antropológicos da era digital.

Desde Leão XIII até Francisco, o Magistério procurou interpretar as transformações sociais à luz do Evangelho e da dignidade humana. Cada documento respondeu a desafios específicos, mas todos partilharam uma mesma convicção: a fé cristã possui implicações públicas e históricas.

E depois:

A inteligência artificial obriga essa tradição a enfrentar um desafio qualitativamente novo.

Não se trata apenas de uma nova tecnologia.

Trata-se de uma nova configuração cultural.

A recepção de Magnifica Humanitas torna-se particularmente fecunda quando colocada em continuidade com o Vaticano II.

A Gaudium et Spes inaugurou uma atitude de diálogo com o mundo contemporâneo. Em vez de condenar a modernidade, procurou discernir seus sinais.

Leão XIV herda essa postura.

A encíclica não demoniza a inteligência artificial.

Reconhece suas potencialidades e seus benefícios.

Mas insiste que o progresso técnico não pode ser confundido com progresso humano.

Aqui emerge uma das questões mais profundas do documento.

Será que as categorias tradicionais da Doutrina Social permanecem suficientes para compreender as transformações da era digital?

Ou estamos diante de uma mudança que exige novos desenvolvimentos conceituais?

A pergunta permanece aberta.

Talvez seja precisamente esta a tarefa da recepção.

Receber uma encíclica não significa apenas reproduzir suas afirmações.

Significa prolongar seu movimento interpretativo.

Significa permitir que suas intuições dialoguem com situações ainda não plenamente compreendidas.

Nesse sentido, Magnifica Humanitas deve ser entendida como um ponto de partida.

Ela inaugura uma agenda teológica que precisará ser desenvolvida pelas próximas décadas.

Johann Baptist Metz contribui para essa leitura ao insistir que a teologia deve manter viva a memória crítica diante dos processos históricos de desumanização. A inteligência artificial coloca precisamente essa questão: como preservar a centralidade da pessoa em sistemas cada vez mais orientados pela racionalidade técnica?

 

V. DA CIVILIZAÇÃO DA TÉCNICA À CIVILIZAÇÃO DO AMOR

 

O Bem Comum na Era Digital

 

Epígrafe

"Construir a civilização do amor na era digital."

Ao concluir sua reflexão, Leão XIV recupera uma das categorias mais fecundas da tradição social católica: a civilização do amor.

A expressão pode parecer excessivamente idealista aos olhos de uma cultura marcada pela linguagem da eficiência e da gestão. Contudo, sua força reside precisamente em sua capacidade de introduzir uma racionalidade alternativa.

A civilização do amor não é uma utopia sentimental.

Em continuidade com Fratelli Tutti e Laudato Si', Leão XIV compreende que os desafios tecnológicos não podem ser separados da crise relacional contemporânea. Francisco já havia denunciado o paradigma tecnocrático como forma de racionalidade que tende a reduzir a realidade àquilo que pode ser controlado e manipulado. Magnifica Humanitas amplia essa crítica ao aplicá-la especificamente ao universo da inteligência artificial.

Ela constitui um projeto político, cultural e espiritual.

Seu fundamento encontra-se na convicção de que a pessoa humana jamais pode ser reduzida a instrumento.

Essa afirmação adquire significado particular na era digital.

O risco permanente da sociedade algorítmica consiste em transformar indivíduos em perfis, comportamentos em dados e relações em transações.

A civilização do amor opera na direção oposta.

Ela recoloca a pessoa no centro.

Reafirma a prioridade da comunhão sobre a competição, da solidariedade sobre o individualismo e do bem comum sobre interesses particulares.

Nesse horizonte, a inteligência artificial não deve ser rejeitada, mas orientada.

A questão decisiva não é se utilizaremos sistemas inteligentes.

A questão é para quais finalidades eles serão utilizados.

Uma governança ética da inteligência artificial exige precisamente essa capacidade de subordinar a inovação tecnológica aos valores humanos fundamentais.

O bem comum emerge então como critério decisivo.

Não basta perguntar se determinada tecnologia é eficiente.

É necessário perguntar quem se beneficia dela.

Quem é excluído.

Quem exerce controle.

Quem assume responsabilidade.

A Doutrina Social da Igreja oferece instrumentos importantes para essa reflexão.

Solidariedade, subsidiariedade, participação e destino universal dos bens permanecem categorias surpreendentemente atuais para o debate tecnológico.  Tais princípios - solidariedade, subsidiariedade e participação - não aparecem apenas como conceitos normativos da Doutrina Social da Igreja. Eles constituem critérios concretos para a governança ética dos sistemas algorítmicos, exigindo transparência, responsabilidade e proteção dos grupos mais vulneráveis.

Talvez porque os desafios mais profundos da inteligência artificial não sejam técnicos.

São humanos.

Ao final, a grande contribuição de Magnifica Humanitas consiste em recordar que a tecnologia jamais substituirá a responsabilidade moral.

Os algoritmos podem processar informações.

Mas não podem amar.

Podem calcular consequências.

Mas não podem assumir responsabilidade.

Podem otimizar processos.

Mas não podem reconhecer a dignidade infinita de uma pessoa.

É precisamente por isso que o futuro da inteligência artificial dependerá menos da inteligência das máquinas e mais da sabedoria ética da humanidade.

A civilização do amor permanece, assim, não como alternativa à tecnologia, mas como horizonte normativo capaz de orientar seu desenvolvimento em favor da vida, da justiça e da dignidade humana.

 

CONCLUSÃO

O Humano como Tarefa

Epígrafe

"A pessoa humana permanece sempre a via da Igreja."

A leitura aqui proposta permite compreender Magnifica Humanitas como ponto de convergência entre diferentes tradições intelectuais. Da crítica da técnica de Heidegger, Ellul e Guardini, o documento herda a preocupação com a absolutização do poder tecnológico. Do personalismo de Mounier, Maritain e Wojtyła, recebe a afirmação da dignidade irreduzível da pessoa. De Arendt e Habermas, incorpora a preocupação com a verdade e a esfera pública. De Congar, Kasper e Metz, assume a compreensão da tradição como processo vivo de recepção histórica. A originalidade de Leão XIV consiste em articular esses horizontes numa resposta teológica à crise antropológica produzida pela sociedade algorítmica.

Neste percurso, procuramos demonstrar que Magnifica Humanitas não pode ser lida apenas como uma intervenção magisterial sobre inteligência artificial. Sua originalidade reside precisamente no fato de deslocar a discussão tecnológica para o terreno mais profundo da antropologia, da ética e da teologia da história. A questão fundamental que atravessa a encíclica não é a capacidade crescente das máquinas, mas a responsabilidade crescente da humanidade diante do poder que adquiriu.

A leitura hermenêutica aqui proposta permite reconhecer que Leão XIV se insere numa longa tradição de discernimento social inaugurada por Leão XIII e desenvolvida ao longo de mais de um século de Doutrina Social da Igreja. Entretanto, ao mesmo tempo em que permanece em continuidade com essa tradição, a encíclica inaugura um novo momento de sua evolução. Pela primeira vez, o Magistério se vê diante de tecnologias que não apenas reorganizam o trabalho, a economia ou a política, mas que reivindicam para si funções anteriormente consideradas constitutivas da inteligência humana.

Nesse contexto, a pergunta decisiva deixa de ser tecnológica e torna-se antropológica.

Quem é o ser humano numa época em que a linguagem pode ser simulada, a memória externalizada, a criatividade parcialmente reproduzida e a tomada de decisões progressivamente automatizada?

A resposta oferecida pela encíclica não é uma definição abstrata da pessoa, mas uma reafirmação de sua dignidade ontológica. Contra toda tentativa de reduzir o ser humano à lógica da eficiência, da produtividade ou do desempenho, Leão XIV insiste que a pessoa possui um valor que antecede qualquer funcionalidade social.

Tal afirmação adquire relevância singular num contexto marcado pelo avanço do paradigma tecnocrático. Como perceberam Heidegger, Ellul, Guardini e diversos críticos da modernidade tecnológica, a técnica tende a expandir-se para além do âmbito instrumental, convertendo-se em princípio organizador da própria experiência humana. O risco não consiste simplesmente no uso inadequado das tecnologias, mas na transformação silenciosa das categorias pelas quais compreendemos a realidade.

A recepção de Magnifica Humanitas exige precisamente enfrentar essa questão.

A inteligência artificial não desafia apenas nossos sistemas econômicos ou jurídicos. Ela desafia nossa autocompreensão como sujeitos livres, responsáveis e relacionais. Por isso, a encíclica recoloca no centro categorias fundamentais da tradição cristã: dignidade, bem comum, solidariedade, subsidiariedade, participação e fraternidade.

Mais do que princípios normativos, essas categorias aparecem como formas de resistência ética diante da redução da vida humana a processos calculáveis.

Ao mesmo tempo, a encíclica evita tanto o entusiasmo acrítico quanto o pessimismo tecnológico. Sua proposta não consiste em rejeitar a inovação, mas em submetê-la ao discernimento moral. A questão não é impedir o desenvolvimento da inteligência artificial, mas assegurar que seu desenvolvimento permaneça ordenado ao serviço da pessoa humana e da comunidade política.

Essa perspectiva conduz a uma compreensão renovada da própria missão da Doutrina Social da Igreja.

Num mundo cada vez mais marcado pela mediação tecnológica, sua tarefa não é competir com a ciência nem substituir a política. Sua tarefa continua sendo recordar uma verdade frequentemente esquecida: o progresso autêntico não pode ser medido apenas pelo aumento do poder técnico, mas pela capacidade de promover a dignidade de cada pessoa e a qualidade das relações humanas.

A técnica continuará avançando.

Os algoritmos continuarão aprendendo.

Os sistemas digitais continuarão expandindo sua presença.

Mas a pergunta decisiva permanecerá a mesma: que tipo de humanidade desejamos construir?

É precisamente aqui que Magnifica Humanitas recupera toda a força profética da tradição social da Igreja. Contra a tentação de reduzir a pessoa a dado, consumidor, usuário ou recurso produtivo, ela reafirma que cada ser humano permanece portador de uma dignidade inalienável que nenhuma tecnologia pode conferir e nenhuma tecnologia pode retirar.

A verdadeira questão da era digital não é tecnológica.

É antropológica.

E talvez seja precisamente por isso que a resposta não possa ser encontrada apenas nos laboratórios, nas corporações ou nos algoritmos.

Ela deverá ser construída no espaço da ética, da política, da cultura, da solidariedade e da transcendência.

Em outras palavras, na própria história humana.

Se a modernidade industrial obrigou a Igreja a defender a dignidade do trabalhador, a modernidade digital parece exigir uma tarefa ainda mais fundamental: defender a dignidade do próprio humano.

Talvez seja esta, em última análise, a grande contribuição de Magnifica Humanitas: recordar que o futuro da inteligência artificial não será decidido pela inteligência das máquinas, mas pela sabedoria moral daqueles que as concebem, regulam e utilizam.

O desafio permanece aberto.

E justamente por isso, o humano continua sendo não apenas uma condição recebida, mas uma tarefa histórica permanentemente confiada à nossa responsabilidade.

 

REFERÊNCIAS

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