domingo, 19 de abril de 2009

Filosofia: diaconia educacional



José Igídio dos Santos [1]

Quantos de nós já nos inquietamos com a questão: Por que estudar filosofia?! Buscar uma resposta satisfatória a esta indagação é um desafio para a uma sociedade imediatista e consumista como a nossa, pois existe um descaso pelo pensar filosófico, mas, via de regra a filosofia serve-se aos mais conscientes como mecanismo de enfrentamento em vista de encarar a realidade com inquietude e insatisfação, face aos desvios éticos, políticos, culturais a que estamos submetidos. No contexto hodierno é temerário atuar no mundo da sabedoria questionando proposituras e posturas que expulsem o imediatismo e instaurem a civilidade e a capacidade de conviver entre os saberes que questiona “o saber instituído”.
O filósofo, conforme já anunciava Pitágoras, não é um “atleta intelectual”, o seu compromisso é com o desenvolvimento do pensamento reflexivo em vista dos diversos contextos para nos ajudar a compreender os múltiplos aspectos da realidade da vida humana, social, política, econômica, cultural, icônica, tecnológica e antropológica, só para citar alguns nichos...
Ser filósofo profissional na atual sociedade é uma diaconia instauradora do pensamento sistemático. Verdadeiramente, no Brasil todos os profissionais em educação que se dedicam ao ensino-aprendizagem são pouco reconhecidos e valorizados, o que não ocorre entre os “políticos profissionais” e diversos profissionais liberais que são ovacionados, além de muito bem remunerados. Mas, aqui queremos enfatisar que “ninguém” existe profissionalmente sem o prévio auxílio e intervenção de educadores, profissionais da área pedagógica.
Vemos por conta disso, a mudança de foco de muitas Instituições de Ensino Particulares e algumas Estaduais, que no Ensino Médio impõem uma metodologia bancária focada no vestibular e não nas habilidades e competências, proposta que possibilitaria aos educandos enfrentar as (in)certezas do momento presente. Concorre com isso, com raras exceções, o fator familiar, no qual desde muito tempo a maioria das famílias vem “desistindo dos filhos”, pois ao matriculá-los numa escola pública ou particular, muitas vezes, se esquecem de educá-los para os princípios fundamentais da convivência humana e isto é detectado no dia-a-dia escolar e social, vemos a incapacidade dos alunos em dialogar com respeito a si e aos outros; intolerância ao silêncio, inquietude eletrônica, uso do celular, mesmo que proibido, para enviar torpedos dentro da sala de aula e ainda audição de músicas com ou sem fones de ouvido.
Por estes fatos, constatamos a falência da educação de base, muitos pais desistiram de seus filhos e os entregaram às instituições escolares se eximindo da cotidianidade, do acompanhamento formativo de princípios e valores.
Realmente, o que existe na sociedade brasileira é ainda uma educação que reforça as desigualdades sociais, classificando e excluindo.
Existem muitas mudanças em processo na área educacional, mas, não é possível vermos resultados imediatos, pois o professor vive parte de sua vida em ambiente de trabalho estressante, competitivo e muitas vezes a sua função primordial é desviada para os cuidados aos princípios educacionais que os pais ou responsáveis deixam de cumprir pela incapacidade de impor limites aos seus rebentos e de educá-los para os princípios básicos da convivência entre os humanos: respeito, compreensão, polidez, doação, partilha e gentileza.
Fazendo um adendo nesta reflexão: o que podemos constatar é que nossa atual ação educativa é colocada em xeque mediante a impossibilidade de uma prática pedagógica contextualizada aos paradigmas atuais. Como educadores concorremos com a emergência das novas tecnologias e constatamos que há uma inadequação de nossas práticas metodológicas, o que abre um fosso entre a teoria e a prática. Cada Instituição Educacional precisaria se adequar face aos recursos possíveis e os disponíveis, para tanto, é preciso investir em tecnologia educacional nas escolas, instalando, por exemplo: lousa eletrônica, retroprojetores, além de facultar o acesso à internet à todos alunos, que deveriam ter um computador de uso educacional na escola, conectados a sitios educacionais. Além disso, oportunizar aos profissionais em educação formação e atualização tecnológica . Sabemos que para recuperar esse fosso entre a teoria e a prática é necessário mais que boa vontade, são imprescindíveis ações políticas conscientes e urgentes.
Mesmo com a impossibilidade de vislumbrar de imediato esses quesitos prenunciados para a qualidade educacional temos a tarefa de ajudar os educandos a serem capazes de adquirir formação humana, ética e moral que os façam cidadãos do mundo.
Vemos que está em curso uma nova perspectiva no Ensino Brasileiro ao investir mais em Ensino Público de qualidade para todas as classes sociais, oportunizando espaço adquirido por meio de lutas históricas para disciplinas humanista tais quais: Filosofia, Sociologia e Psicologia. Os profissionais da educação formados nas áreas humanistas devem ser valorizados na especificidade de sua formação e para tanto, é importante que a Escola Pública e as Escolas Particulares valorizem tais profissionais posto que sua capacitação profissional pode colaborar indubitável e imensuravelmente com a educação e com o desevolvimento humano.
Sabemos que uma ação não exclui a outra. É preciso buscar excelência educacional, inclusão tecnológica e consciência social, para que tenhamos um País isento de desigualdade social e rico em oportunidades para todos.
Infelizmente, existe uma acomodação intelectual e deixamos de pensar de forma múltipla o contexto vital de nossa existência, e é justamente neste âmbito que se faz necessária a emergência do filosofar, pois a vida humana pede socorro e nós estamos insensíveis ao eco da vida que emana das diversas faces da realidade. Como sabemos pela história: é a filosofia a mãe de todas as ciências e percebemos que muitas ciências parecem dela prescindir, e por conta desta postura instauraram novas ditaduras no conhecimento, supervalorizando mais exatas e biológicas à letras, pensamento sistemático e raciocínio filosófico. Na vida real é assim: toda mãe aguarda a volta do rebento de seu ventre e para isso dá lugar à sua sapiência em busca de uma nova relação de amor pela sabedoria questionadora do real. Este processo poderá ampliar a capacidade do sujeito cognoscente que busca o desenvolvimento do espírito crítico em face da realidade, superando a forma pacata de aceitação do real, buscando assim, o exercício da autonomia por meio da consciência de que muitas situações reais podem ser diferentes se não houver conivência humana e que podemos agir de forma diversa da costumeira. É hora de instaurar a realidade do pensamento filosófico como diaconia a serviço da sabedoria, para isso, deixemos os humanistas (filósofos, sociólogos e psicólogos) trabalhar na mensuração da realidade social e humana. Notaremos que todas as disciplinas ganharão mais eficácia na realidade concreta e principalmente no aspecto humano e social.
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[1] Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo, Professor Universitário na FAECA de Monte Aprazível e no Ensino Médio na Rede Estadual de São Paulo.

domingo, 12 de abril de 2009

Emaús: da decepção à redescoberta do novo.


Emaús: da decepção à redescoberta do novo.

José Igídio dos Santos[1]
Introdução



“Pela estrada de Emaús, caminhando lado a lado Sem conhecer-te Jesus. Peregrino disfarçado. Peregrino impertinente disfarçado em todo irmão. Que caminha com a gente, forçando a luz do poente, querendo partir o pão, querendo partir o pão, querendo partir o pão”.[2]


Contexto do Texto

O texto de Emaús, Lc 24,13-35, é uma reeleitura da história da Páscoa. Ao que sabemos, Lucas escreve seu Evangelho após ano 70 d.C.. Isto significa que o escreve após a destruição de Jerusalém pelos romanos. As comunidades cristãs estão em crise. Suas esperanças diziam que Jesus voltaria. E para onde voltar o Messias, senão para Jerusalém? Mas se Jerusalém não mais existe? O que vai ser agora? Se ao tempo da crucificação os olhos dos discípulos não se abriram, agora os olhos da comunidade estão fechados. Para ajudar a abri-los, Lucas reescreve, ou relê a história de Emaús.


Nosso Contexto

A atual situação do Brasil é questionadora e paradoxal. Por um lado, a fé simples de nossos povos sofre o impacto da modernidade que transmitem valores anti-evangélicos e a conseqüente fragmentação dos valores religiosos e morais. Não bastasse isso, vivemos uma situação de crise em todos os âmbitos: econômico, político, institucional e cultural. Crises que são incodificáveis. Emerge a necessidade de uma cultura de vida em meio à crescente cultura da morte, face às crises existentes. Diante desta situação, somos chamados a assumir com espírito diastólico o dinamismo missionário de sair e ir ao encontro das pessoas, lá onde elas estão. Anunciando com ardor coragem a missão de Cristo a nós confiada. Nas pegadas de Emaús encontraremos a estrada de volta a vida e a esperança. Acompanhemos este percurso através do texto.

O texto

Ao refletir o caminho de Emaús, com a perspectiva da Decepção à redescoberta do novo, queremos traduzir a esperança que brota da vida de Cristo comunicada a nós.

[1]
13 E eis que, nesse mesmo dia, dois dentre eles se dirigiam para uma aldeia chamada Emaús , a duas horas de viagem de Jerusalém.
Aqui pergunto sobre o que significa Emaús e Jerusalém. Estes lugares não têm apenas um referencial geográfico. Jerusalém significa: o medo, o fracasso da cruz, tristeza e falta de esperança. E faço também referência a Emaús como um lugar de fuga, do isolamento, da tranqüilidade intranqüila. Quando era dia os dois fugiam. Jerusalém dava medo e precisavam de refugio num lugar tranqüilo. Vão para Emaús.
14 Eles falavam entre si de todos esses acontecimentos.
A cruz ainda está em Jerusalém. Todos sabiam do que tinha acontecido. Os poderosos que a cravaram em Golgóta estão vivos e presentes. Os principais sacerdotes e as autoridades ainda são as mesmas. O projeto de opressão e morte ainda permanece igual. Tudo isso causou medo ao casal de Emaús. Estes dois parecem ser um casal , um homem e uma mulher, pertencente ao grupo de Jesus. O homem Cléofas. A outra pessoa não tem nome, não fala e não parece em pé de igualdade com Cléofas, ao menos naquela sociedade machista e excludente do feminino. Tudo nos leva a crer que é Maria da qual fala Jo 19,25 que, junto à cruz estava junto com a mãe de Jesus. Um homem e uma mulher, Cléofas e Maria estão a caminho de EMAÚS.
15 Ora, enquanto falavam e discutiam um com o outro, o próprio Jesus os alcançou e caminhava com eles; 16 mas os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer .
É Jesus, o não reconhecido que se torna “partner” na caminhada daquele casal, escuta-os por algum tempo. E daqui aprendemos a necessidade de caminhar com as pessoas, e no ritmo em que elas possam acompanhar os nossos passos. É depois da escuta que ele pergunta
17 “Quais são essas palavras que estais trocando ao caminhar? Então eles pararam, com ar sombrio”. E Jesus obteve a resposta com certa admiração, 18 Um deles, chamado Cléofas, lhe respondeu – parecendo dizer você não está alienado: “Tu és decerto o único homem de passagem por Jerusalém que não tenha sabido o que se passou nestes dias!”.
Jesus age com a “santa ignorância”, assume uma postura pedagógica diferente da convencional – excludente e competitiva. E é justamente aí que aparece a sabedoria de Jesus. Jesus sabia? Sim! Mas, a partir de si e não a partir da experiência daquelas pessoas. E sabemos disso, dependendo do lugar e situação vivencial vemos determinadas coisas e ou acontecimentos de maneira diferente. Num processo dialógico é necessário o saber daqueles com os quais estamos dialogando. 19 Que foi?, disse ele.
E é justamente aí que Jesus, nos ensina a exercer a nossa missão de dar significado à vivência daqueles que ele se coloca ao lado, hoje, os excluídos da vida e da esperança.
19b Ele lhes responderam: O que concerne a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em atos e palavras diante de Deus e diante de todo o povo :20 como os nossos sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram; 21 quanto a nós, nós esperávamos que ele seria o que devia libertar Israel. Mas, com tudo isso ,já é o terceiro dia que esses fatos se deram. Entretanto, algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram: tendo ido de madrugada ao túmulo 23 e não tendo encontrado o seu corpo, elas vieram dizer que tinham tido mesmo a visão de anjos que declararam estar ele vivo. 24 Alguns de nossos companheiros foram ao túmulo e o que acharam era conforme o que as mulheres haviam dito; quanto a ele, porém, não o viram.
Os caminheiros de Emaús falam da experiência que brota da vida e como falam! E o mestre os escuta com interesse. Suas esperanças frustradas, decepções no que tange à libertação esperada. , o poder opressor político e religioso continuam presente. A libertação está demorada. Cristo não significou isto que falava. “Acusam-o” de não cumpridor das promessas. São incapazes de reconhecer a novidade do anúncio feito pelas mulheres e confirmada pelos companheiros. Todo o cenário e modelo de sociedade está espelhado nesta fala dos discípulos. Aparecem elementos: sócio-político-econômico e cultural. E é ai retratada a sociedade na qual viveu Jesus.
25 Ele então lhes disse: Espíritos sem inteligência, corações tardos para crer tudo o que os profetas declararam! 26 Não era preciso que o Cristo sofresse isso para entrar na sua glória ? 27 E começando por Moisés e todos os profetas ,ele lhes explicou em todas as Escrituras o que lhe concernia.
Agora é a vez de Jesus! O mestre, as vezes, deve corrigir equívocos com brandura e ternura e é isso que Jesus emprega quando diz: “Espíritos sem inteligência, corações tardos para crer tudo o que os profetas declararam!” O objetivo desta rudeza humana de Jesus seria: tirá-los de sua apatia, de sua falta de esperança, relembrando-lhes o que falava em seu convívio anterior com eles. Uma chacoalhada.
Já podemos aprender algo da caminhada até aqui. Primeiro a vida e agora a Bíblia. Na proposta pedagógica de Jesus, não começa pela Bíblia, esta é ato segundo. Começa pela escuta, a escuta da realidade dos caminheiros de Emaús a partir da experiência vivida. Outro fato interessante é a redescoberta do valor da história. História da vida da comunidade da qual pertenciam os caminheiros de Emaús. E com estas duas ferramentas Bíblia e História, Jesus procura desvendar os olhos dos caminheiros de Emaús. Jesus utiliza alguns textos do Antigo testamento para iluminar a mente de Cléofas e Maria no caminho de Emaús. Não toda a Bíblia, mas um conjunto de textos básicos (Pentateuco, os Profetas e Livros históricos). Não é seletivo e utiliza a Bíblia com a finalidade de reacender a chama da consciência dos discípulos.
28 Eles se aproximaram da aldeia para onde se dirigiam, e ele fingiu que ia prosseguir. 29 Os dois insistiram com ele, dizendo: Fica conosco, pois a tarde está caindo e o dia já começa a declinar. E ele entrou para ficar com eles. 30 Ora, quando se pôs à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu .31 Então os seus olhos se abriram e eles o reconheceram, depois ele se lhes tornou invisível. 32 E disseram-se um ao outro: Não ardia em nós o nosso coração quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?
Após Jesus ter exposto toda a história da Salvação, com certeza longo tempo de conversa, talvez o caminho inteiro neste diálogo, o casal de Emaús não o reconhece e se mantém de olhos fechados. Chegando ao final do caminho Jesus faz de conta que vai mais adiante. Para a alegria e felicidade nossa, o casal de Emaús o convida para ficar com eles Acolher a um estrangeiro é sinal de sensibilidade, é gesto de solidariedade. É caridade e prática humanitária. Em nosso cotidiano é comum encontrar pessoas que gostaríamos que tivessem tempo para estar com a gente e insistentemente às convidamos. Mas raramente se tem tempo. Ainda mais neste tempo, em que capitalistamente se pensa ‘tempo é dinheiro’, perder tempo é perder a oportunidade de ser. Pois hoje, só é quem tem. Jesus aceita o convite? Claro que sim, parece ser tudo o que desejaria para na mesa dar a última cartada. Queria que seus discípulos e discípulas dessem nova vitalidade à sua presença ressurreta na vida e no ser da comunidade. Jesus de novo toma a iniciativa. Na verdade sempre é Deus que vem ao nosso encontro, precisamos deixar que ele nos encontre com os olhos abertos. E a abertura dos olhos só se dá na partilha do pão. Devemos ser capazes de gestos libertadores e práticas evangelizadoras. A partilha do pão é o convite forte à gestação de uma globalização da solidariedade. Faz-nos supor que, Jesus parte do seu pão, daquilo que traz para a viagem, pois quem deveria servir algo é quem hospeda, mas é Jesus que faz isso. Ele é o pão vivo descido do céu. Sinal de vida e esperança para todos os necessitados e excluídos do sistema. Na encruzilhada sempre nos deparamos com a possibilidade de optar entre o caminho da vida e o caminho da morte. Jesus deu àquele casal a vitalização, a coragem, a força, o dinamismo,... saíram embestados pela estrada escura só iluminados pela chama da certeza de que Jesus vive e nos envia, encoraja, anima.
Depois que Jesus lhes partilha o pão desaparece da frente deles. Para onde Jesus foi?... Ao comungarmos Jesus se torna presente em cada um de nós e sua força nos torna atualizadores de seus gestos e de sua prática. Jesus é encorajamento e nos faz destemidamente voltar para o lugar da morte, da opressão. E ali, destemidamente, assumir o compromisso profético de anunciar o Evangelho com nossa própria vida. É Cristo dentro de nós que nos impulsiona para a missão de anunciar o Reino inaugurado na pessoa dele.
A Bíblia é importante, fundamental no processo de transformação da realidade. Nos dá força, coragem, indica veredas, aponta rumos e suscita esperanças. Mas não muda nada, ela esquenta o coração. “Não ardia em nós o nosso coração quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?” Com o coração em chamas é preciso experimentar a verdade da solidariedade – gesto de comunhão tão necessário hoje neste tempo de globalização. Comunhão de vida e de destino. Comunhão de compromisso com a causa da comunidade. Que reza, celebra, e que precisa de uma metanóia profunda. Nossos ritos, celebrações devem ser sinal de vida e de esperança. E aqui penso nas nossas celebrações eucarísticas, que se iniciam sempre com mea culpa, e ao redor da mesma mesa oprimidos e opressores partilha o pão libertador de Jesus Cristo. E, na realidade, nada se modifica no cotidiano da vida. Continua a pobreza, a miséria de muitos e a riqueza de poucos... É preciso que nossa prática eucarística reinvente a igualdade numa realidade agápica. Muitas de nossas conquistas nas comunidades são fruto de uma compreensão eucarística além do templo. A extensão desta prática é necessária no cotidiano da vida. Só assim teremos motivações vitais de celebrar a partilha concretizada em gestos transformadores. A presença real de Jesus na Eucaristia se concretiza nas nossas “presenças reais” de seus seguidores no cotidiano da vida.

33 No mesmo instante, eles partiram e voltaram para Jerusalém; encontraram os Onze e seus companheiros.
Jerusalém que era o lugar do medo, da tristeza e desespero. Jerusalém tem uma outra face, transforma-se em local de comunicar a coragem, a alegria e a esperança que não decepciona. É o local do encontro da comunidade dos discípulos de Jesus, até a vinda do paráclito. Da noite escura resplandecente de luz interior iluminam o caminho de volta para confirmar a fé da Comunidade.
34 que lhes disseram: É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão.
Confirmar a fé da Comunidade é importante. A Comunidade é um grupo de pessoas que crêem. Mesmo sabendo de suas limitações como discípulos Jesus confia-lhes a missão. Se olhasse apenas os limites de seus discípulos que na hora “H” um traiu, outro negou e o resto fugiu, seu projeto teria sucumbido.
35 E eles contaram o que se passara no caminho e como eles o haviam reconhecido na fração do pão.
O testemunho dos fatos demonstram que Cristo vive e é presente, quando reunidos em seu nome continuarmos a missão dele, fazendo acontecer o Reino da igualdade e da vida. É através das Escrituras que descortinamos a Revelação de Deus, nela alimentamos a fé e nossa práxis, nosso quefazer teológico pastoral.
Vida-Bíblia-realidade: pressupostos básicos para uma redescoberta da pedagogia do caminho de Emaús.
E daqui algumas lições importantes: é preciso ir além de conhecer por conhecer a Bíblia. É necessário Deus transformar a nossa vida. Da vida é que se vai para a Bíblia; busca-se ali na Palavra o que melhor ilumine nossa situação de vida; e então volta-se à vida, para transformá-la. A Bíblia tem a função de tornar a vida mais digna e mais humana. Em função disso que procuramos sempre a conhecer mais. Nela encontramos a orientação para a nossa vida, a luz para a realidade que vivemos, coragem e força para soluções de problemas emergentes.
Hoje, os homens e as mulheres se parecem com os caminhantes que iam, na tarde da Páscoa, para Emaús. Decepcionados, conversavam entre si sobre seus desenganos, sobre as esperanças frustradas. Não é esta a mesma conversa do povo hoje? Esperávamos por um progresso econômico, e vemos a situação pessoal piorar; esperávamos por saúde, e vemos voltarem antigas doenças – dadas como exterminadas para sempre; esperávamos por paz e convivência fraterna, e somos atingidos pela violência que não escolhe suas vítimas e nos torna inseguros; esperávamos por uma administração pública eficiente e honesta, atenta às necessidades do povo, como lhe foi prometido, e notamos a cada dia que na política prevalecem os interesses de poucos, dos que já tudo tem e querem aumentar ainda mais seu patrimônio, a custa da exclusão de muitos; esperávamos por cristãos mais fiéis ao Evangelho, mais empenhados no serviço aos irmãos, mais abertos ao diálogo, e encontramos frieza e pouca fé... Desconfiamos, às vezes, até de Deus, como o salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”[3] Como pode Deus permitir a crucifixão de tantos irmãos?
Como anunciar a ressurreição dentro desta situação de morte? A caminhada de Emaús é a caminhada de todos nós, pois da decepção emerge o fogo abrasador da redescoberta da vida e da esperança impulsionadora àqueles a se deslancharem no serviço do Kerygma – anunciar a presença animadora de Jesus.
Na modernidade, havia a esperança do cumprimento de todas as suas utopias: igualdade, fraternidade e liberdade. Estes sonhos ficaram frustrados e se tornam ainda mais obsoletos e impossíveis de concreção. É um absurdo a existência de fenômenos que poderiam ser erradicar de nosso meio tais como a fome, doenças, miséria, desemprego. Coisas superáveis se houvesse uma melhor distribuição dos recursos – no Brasil e no mundo.
Nesta caminhada difícil de ser assimilada e compreendida muitas vezes tentamos esquecer nossos dramas em satisfações paliativas de extravasação da tensão em: diversão, jogo, álcool, drogas... Mas também, com maior empenho nos últimos anos, as pessoas procuram resposta e caminho na filosofia, nas religiões, em diversas formas de espiritualidade. Nós, cristãos, redescobrimos de maneira nova a Palavra de Deus e a presença viva de Cristo. Percebemos que as muitas ideologias alternativas ao cristianismo, que inspiraram projetos nobres, mas também conduziram às piores tragédias da história em nosso século, deixaram ainda mais claro que Cristo é, para a humanidade de hoje, o Caminho, a Verdade e a Vida[4].
A cristianização do cosmo, do ser humano e da sociedade deve ser o que o cristianismo propõe. Anunciamos não uma verdade abstrata, uma mera doutrina, mas acreditamos na presença de Alguém que caminha conosco, mesmo que às vezes nossos olhos não o reconheçam. Nossos olhos se abrem, quando o reconhecemos no “menor dos irmãos” que nos pede pão, água, roupa, casa, assistência médica, segurança e justiça ou, simplesmente, uma atenção, uma visita. É quando os caminhantes de Emaús convidam o desconhecido a sentar-se à mesa com eles, a partilhar a ceia, que seus olhos se abrem. O mesmo acontece hoje, quando esta ceia é celebrada como Eucaristia, agradecendo ao Pai pela entrega do próprio Cristo Jesus, que se oferece por nós e nos alimenta, na jornada, com o dom do Pão e do Vinho, vivendo este momento histórico de bastante complexidade – contraditória e fragmentada. É-nos muito difícil compreender os rumos da história atual ou fazer julgamentos corretos. Nasce, em muitos, a sensação de incerteza, muitas vezes de desorientação, da qual procuram fugir, “simplificando” a realidade, considerando apenas alguns aspectos da mesma, criando esquemas ou imagens simplistas do que está acontecendo. Mesmo assim, é necessário esforço para situar nosso contexto, dentro de um quadro mais amplo, visto que a “globalização” aumenta sempre mais as influências externas sobre a realidade em que vivemos.
Quando a humanidade descobre e pratica a solidariedade e a partilha, já está movida pelo Espírito de Jesus. Já reencontrou a esperança. Já está acolhendo o “Reino de Deus” e começando a superar as decepções e suas causas.
No meio da humanidade, solidários com ela, estão os discípulos e as discípulas de Cristo. São aqueles que, tendo reconhecido o Cristo caminhando ao seu lado, correm para anunciar aos irmãos e irmãs que o Cristo ressuscitado está vivo no meio de nós.
Os cristãos são, no mundo, portadores da esperança: de que a morte do Justo não é a última palavra da história, pois o amor do Pai o ressuscitou; de que Deus há de ressuscitar “nossos pobres corpos mortais”; de que o nosso futuro está no Reino de Deus, na afirmação do seu governo na história do mundo, enfim purificada de todo o mal.
A esperança, porém, não aliena os cristãos dos outros homens e mulheres. Ao contrário, torna-os ainda mais solidários. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”[5]. “A esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. O progresso terreno... é de grande interesse para o Reino de Deus”[6].
Por isso, o cristão “levanta a cabeça” e olha a realidade do mundo com realismo e com esperança. Procura reconhecer nele os sinais da vontade de Deus e os caminhos que apontam para o Reino, assim como distinguir os obstáculos e as forças do mal que impedem a sociedade humana de avançar na direção da justiça e da paz na aproximação da libertação que se aproxima[7], mas não deixa de “pôr as mãos no arado” ou na foice, não pára de trabalhar para alimentar a família humana, nem deixa de ser o “administrador fiel” dos bens que Deus lhe confiou, a serviço de irmãos e irmãs. Cumpre cada cristão uma missão especial dentro da comunidade que participa. Em todos os segmentos pastorais faz-se necessário um discernimento dos desafios, percebendo as luzes e as sombras, os sinais da graça e as seqüelas do pecado. Todos nós precisamos nos esforçar, iluminados pela fé, para compreender a realidade e buscar caminhos. O cristão eleva seu coração a Deus na oração, de onde haure luz para discernir os caminhos de segurança e justiça e da paz no mundo humano, como centelha do Reino que há de vir.







José Igídio dos Santos
E-Mail: j.igidio@gmail.com

[1] Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia. Psicopedago e Docente na Rede Estadual de São Paulo e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP.
[2] Casaldáliga, D. Pedro & Cirenes Kuha. Peregrinos de Emaús. K7.
[3] Cf. Sl 22,2.
[4] Cf. Jo 14, 6.
[5] Concílio Vaticano II, Constituição “Gaudium et Spes”, 1.
[6] Concílio Vaticano II, Constituição “Gaudium et Spes”, 39b.
[7] Cf. Lc 21,28.

domingo, 5 de abril de 2009

A vida, o sofrimento e a morte

A vida, o sofrimento e a morte

José Igídio dos Santos[1]

“(...) Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para gente é no meio da travessia."Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas”

Um grande desafio hoje é buscar o sentido da vida como uma necessidade humana no contexto atual em face à tantos vazios existenciais causado por fatores sociais, políticos, econômicos e culturais. Neste ínterim, a integração humana poderá ser viável mediante as realizações, afetiva e profissional. E a partir daí reconhecer nos como parte de um processo histórico cuja existência poderá ser experimentada em cada fase de nossa existência – do nascer ao morrer.
Este artigo tem como objetivo possibilitar aos leitores despertar a consciência do valor que a vida tem e que esta deve estar inserida dentro dos mais amplos projetos existenciais: “A busca da realização plena e da felicidade”. Quer contribuir também para que a sociedade procure defender e a promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos, na busca de sua plenificação, a partir da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias, e do compromisso ético do amor fraterno.
Para tanto, busquemos compreender a vida humana e as suas transformações.
É claro e evidente que a vida humana é considerada uma das experiências mais extraordinária que o ser humano é capaz de experimentar. Nascemos! não escolhemos nossa nacionalidade, família, situação sócio-econômica mas podemos desenvolver aspectos de nossa personalidade e caráter. Do nascer ao morrer passamos por diversas situações. Numa das obras poéticas mais importantes da cultura do Ocidente, as Metamorfoses, o poeta romano Ovídio exprimiu todos esses sentimentos que experimentamos diante da mudança, da renovação e da repetição, do nascimento e da morte das coisas e dos seres humanos. Na parte final de sua obra, lemos:

Não há coisa alguma que persista em todo o Universo. Tudo flui, e tudo só apresenta uma imagem passageira. O próprio tempo passa com um movimento contínuo, como um rio... O que foi antes já não é, o que não tinha sido é, e todo instante é uma coisa nova. Vês a noite, próxima do fim, caminhar para o dia, e à claridade do dia suceder a escuridão da noite... Não vês as estações do ano se sucederem, imitando as idades de nossa vida? Com efeito, a primavera, quando surge, é semelhante à criança nova... A planta nova, pouco vigorosa, rebenta em brotos e enche de esperança o agricultor. Tudo floresce. O fértil campo resplandece com o colorido das flores, mas ainda falta vigor às folhas. Entra, então, a quadra mais forte e vigorosa, o verão: é a robusta mocidade, fecunda e ardente. Chega, por sua vez, o outono: passou o fervor da mocidade, é a quadra da maturidade, o meio-termo entre o jovem e o velho; as têmporas embranquecem. Vem, depois, o tristonho inverno: é o velho trôpego, cujos cabelos ou caíram como as folhas das árvores, ou, os que restaram, estão brancos como a neve dos caminhos. Também nossos corpos mudam sempre e sem descanso... E também a Natureza não descansa e, renovadora, encontra outras formas nas formas das coisas. Nada morre no vasto mundo, mas tudo assume aspectos novos e variados... Todos os seres têm sua origem noutros seres. Existe uma ave a que os fenícios dão o nome de fênix. Não se alimenta de grãos ou ervas, mas das lágrimas do incenso e do suco da amônia. Quando completa cinco séculos de vida, constrói um ninho no alto de uma grande palmeira, feito de folhas de canela, do aromático nardo e da mirra avermelhada. Ali se acomoda e termina a vida entre perfumes. De suas cinzas, renasce uma pequena fênix, que viverá outros cinco séculos... Assim também é a Natureza e tudo o que nela existe e persiste.

Viver cada dia de nossa existência implica numa série de compromissos que ficamos meio que atordoados, são obrigações profissionais, familiares, religiosa, sociais que tomam todo o nosso tempo impossibilitando-nos de experimentar a nossa existência de forma agradável. O fato é que nosso cotidiano nos assola e as necessidades sob diversos aspectos: econômicos, psicológicos, históricos, antropológicos, espiritual... precisam ser supridas para que se possamos ter melhores condições de vida. No percurso de nossa existência encontramos o sofrimento que pode culminar com a morte que é a única condição do que é realmente certa para o ser humano. Esta realidade se acentua em nossos dias em razão das doenças crônicas, acidentes, vícios, violências, etc.... Ao lado disso, cresce também a longevidade da população como um todo. Quando o ser humano é acometido de doenças graves, vivencia a relação entre a morte e o morrer porque aquela o levará necessariamente a esta. A morte é um tema que vem sendo discutido ao longo dos anos e o processo do morrer traz em seu cerne uma ampla e controversa discussão sobre seu conceito e sua operacionalização. Quando o paciente não é mais curável e encontra-se fora de quaisquer possibilidades de recursos de cura, nota-se que diminuem claramente a aproximação dos familiares que já procuram afastar-se da dor que a irreversível morte causará, expresso nos jargões: “Não há mais nada que eu possa fazer para ajudá-lo”, “fizemos o que estava ao nosso alcance”. Mas se o referencial é a impossibilidade da cura, deve-se reformular a atitude com os entes queridos que diante da finitude iminente necessita muito mais da presença, aqui a ênfase deverá ser o zelo e o cuidado para com o que adoece e que está morrendo, atitude que os
entes queridos devem ter por um gesto de benevolência. É preciso saber discernir e viver o momento presente de nossa existência assumindo a vida em suas diversas dimensões.
Sobre a vida com discernimentos observemos o que nos diz o Livro do Eclesiastes:

3 1 Debaixo do céu momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: 2 Tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta. 3 Tempo para matar e tempo para curar. Tempo para destruir e tempo para construir. 4 Tempo para chorar e tempo para rir. Tempo para gemer e tempo para bailar. 5 Tempo para atirar pedras e tempo para recolher pedras. Tempo para abraçar e tempo para se separar. 6 Tempo para procurar e tempo para perder. Tempo para guardar e tempo para jogar fora. 7 Tempo para rasgar e tempo para costurar. Tempo para calar e tempo para falar. 8 Tempo para amar e tempo para odiar. Tempo para a guerra e tempo para a paz.- 9 Que proveito o trabalhador tira de sua fadiga? 10 Observei a tarefa que Deus entregou aos homens, para com ela se ocuparem: 11 tudo o que ele fez é apropriado para cada tempo. Também colocou o senso da eternidade no coração do homem, mas sem que o homem possa compreender a obra que Deus realiza do começo até o fim. 12 Então compreendi que não existe para o homem nada melhor do que se alegrar e agir bem durante a vida. 13 E compreendi também que é dom de Deus que o homem possa comer e beber, desfrutando do produto de todo o seu trabalho. 14 Compreendi que tudo o que Deus fez dura para sempre. A isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus fez assim para ser temido. 15 O que existe, havia existido; o que existirá, também existiu. Deus busca aquilo que foge.

Para ajudar a pensar no que foi dito, nos perguntemos: qual a relação que podemos estabelecer entre o ponto de vista bíblico na perspectiva de Eclesiastes e o texto a Metamorfose de Ovídio? Como estamos enfrentando nossa vida cotidiana? Os desafios que encontramos em nosso dia a dia exige soluções em vista de minorar o sofrimento pessoal e dos que convivem conosco. Mas o desafio mesmo é encontrar as respostas aplicáveis para tornar o sofrimento em nossa vida e na vida de nosso próximo ao menos aceitável.


[1] Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo. Docente na Rede Estadual de São Paulo e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP.

domingo, 29 de março de 2009

Filosofia: compromisso sócio-politico-cultural e educacional

Filosofia: compromisso sócio-politico-cultural e educacional

José Igídio dos Santos [1]

À pergunta: Por quê e para quê estudar filosofia?! Buscam-se muitas respostas, no entanto, em vista dos objetivos da sociedade atual a filosofia, em uma proposta mais crítica não compactua com os pressupostos mercadológicos. O pensar filosófico possibilita o enfrentamento dos problemas reais do cotidiano provocando no agente inquietude e insatisfação face aos desvios éticos, políticos e culturais do contexto hodierno. Então, atuar no mundo da sabedoria desmantelado por proposituras e posturas oligárquicas impõe expulsar o imediatismo e instaurar a civilidade bem como a capacidade de convivência do saber filosófico que questiona os saberes instituídos como um desafio permanente.
O compromisso do filósofo é com o desenvolvimento do pensamento reflexivo nos diversos contextos da vida, dando aos "filósofos cotidianos" condições para compreender os múltiplos aspectos da realidade da vida humana, social, política, econômica, cultural, icônica, tecnológica e antropológica, dentre outros nichos...
No processo educacional brasileiro a disciplina de Filosofia e a Sociologia no Ensino Médio foram instituídas pela Resolução: 04 de 16 de Agosto de 2006 do CNE, tornando seus conteúdos obrigatórios em 2007. Mas com a crise curricular que se instaurou na educação de São Paulo em 2008, filosofia deixou ser parte do processo educacional das 3ª.s séries do EM e Sociologia não estava no currículo. Esta distorção foi resolvida neste início de 2009 pela inclusão da Sociologia com uma aula em todas séries do Ensino Médio. Todo caso mantiveram as aulas de Filosofia embora reduzindo carga horária nas 2ª.s e 3ª.s séries do EM. Infelizmente a cada troca de Secretário(a) na Educação muda-se o processo educacional, o que nos faz opinar que há apenas voletidade e não um projeto político educacional.
As disciplinas humanistas são essenciais para qualquer projeto educacional que vise excelência e dentre elas a filosofia é por natureza a excelência do pensamento analítico, crítico e prescritivo.
É preciso mudar os métodos educacionais e superar o tradicional "Giz. Lousa e Saliva” em busca de propostas pedagógicas mais criativas que possam fazer do educando agente de sua formação e não apenas receptor passivo do aprendizado. A emergência de uma metodologia centrada nas habilidades e competências só será possível dentro de uma proposta pedagógica democrática e participativa, em vista de uma perspectiva transformadora da vida do educando e do meio no qual vive. A recém implantada metodologia apostilada do Governo de São Paulo que poderia ser solução, tornou-se um problema para muitos educadores, isto aconteceu por causa da celeridade e a falta de participação efetiva dos profissionais envolvidos no dia-a-dia escolar. A intenção é boa, o processo está sendo muito questionável. O processo educacional precisa envolver todos os implicados em vista de uma proposta democrática.
Não tem dúvida de que as escolas públicas precisam buscar maior nível de excelência na educação e as universidades públicas precisam sintonizar os objetivos do ensino, para que alunos da escola pública encontrem ressonância de seus estudos com os conteúdos aplicados nos sistemas de avaliação, aplicadas atualmente pelos orgãos governamentais. Esse trabalho de adequação poderia ser melhor acompanhado pelo MEC em Parceria com as Secretarias da Educação de cada Estado estabelecendo uma forma permitir aos educandos galgar seus objetivos no processo educacional, além disso, é preciso gerir políticas públicas que possibilitem condições aos profissionais recém-formados para que sejam engajados no mercado de trabalho tendo acesso ao primeiro emprego com as garantias da profissão escolhida no tempo formação.
Os filósofos foram reconhecidos na Grécia antiga e hoje os filósofos profissionais precisam ser reconhecidos em sua relevância para a sociedade. Vivemos sob o reflexo de crises institucionais em uma sociedade que passa por crises nas dimensões dos princípios e valores que incidem na vida do ser humano em suas crises de identidade e de perspectivas; deixamos de assumir aquilo que nos é primordial "a racionalidade" ; quase sempre agimos como se não fôssemos seres pensantes e sim reagentes.
Infelizmente, existe uma acomodação intelectual e deixamos de pensar de forma múltipla o contexto vital de nossa existência e é justamente neste âmbito que se faz necessária a emergência do filosofar. As realidades da vida humana e cósmica pedem socorro e é preciso que sejamos engajados o suficiente para escutar e responder aos clamores dos irmãos e da Terra, nossa mãe comum.
O aprendizado em filosofia é processual e no primeiro instante é fundamental e é necessário o domínio de alguns conceitos essenciais que serão norte para a tarefa reflexiva da qual somos guardiões. Por isso é que a discussão filosófica exige sobretudo respeito ao semelhante e às suas idéias, e o silêncio reflexivo é que possibilita a conectividade com a realidade hodierna para obter condições de olhar de forma multidimensional. Neste ínterim, é fundamental saber respeitar os saberes provindos de outros nichos e desta forma poderemos avançar na compreensão sobre o Homem, o Mundo e o Absoluto.
É fundamental que o educando no processo de formação, independente do curso que venha a escolher, possa aplicar os princípios de ética e da cidadania tornando-se sujeito de direito e de deveres; e como ninguém ama aquilo que não conhece é importante o enamoramento filosófico que desperte o gosto pela sabedoria e o desejo de autonomia do nosso pensar. O que podemos destacar com maior grau de importância no estudo filosófico, além da tradição da filosofia, do processo pessoal da admiração, do espanto e da indignação ética, é que através desses princípios buscamos a produção de argumentações que nos auxiliem como sujeitos cognoscentes no desenvolvimento de nosso próprio pensar, dando-nos condições de intervir na realidade social para que de posse do que está acontecendo, em vista das situações pessoais, nos tornemos agentes transformadores da história.
O filosofar é uma tarefa da qual homens e mulheres não podem prescindir na busca por um pouco de otimismo e esperança, sempre questionando a realidade em uma permanente busca pela sabedoria. Quem sabe o conselho socrático possa ganhar "eco" em nossa existência superando o medo do "conhece-te a ti mesmo", só assim as pessoas corajosas terão abertura para encontrar o equilíbrio na ousada capacidade para pensar de formas múltiplas em perspectivas abertas para o conhecimento do amplo mistério do homem no universo.
Sendo a filosofia mãe de todas as ciências é fundamental o diálogo com a cotidianidade do ser humano a fim de que as ciências busquem parceria com o pensar filosófico superando a postura de impor a ditadura do epistemologismo científico.
É preciso um parto: a ciência esta prenhe de sabedoria. Então, venha a nós a filosofia. A mãe aguarda pela volta do rebento dando lugar à sua sapiência em busca de uma nova relação Eros-filia-sofia-episteme (amor-amizade-sabedoria-conhecimento), questionadora do real. Este processo poderá ampliar a capacidade do sujeito cognoscente no desenvolvimento do espírito analítico, superando a forma pacata de aceitação do real, buscando a autonomia do pensar e a consciência crítica capaz de reconhecer que muitas situações vivenciais poderiam ser diferentes se não houvesse conivência ou omissão humana e que podemos agir de forma diversa da costumeira de agora em diante.
Um pouco de filosofia todo dia é a dose certa da excelência cognoscitiva.
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[1] Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo, Professor Universitário na FAECA de Monte Aprazível e no Ensino Médio na Rede Estadual.

domingo, 22 de março de 2009

O milagre de viver como brasileiro

O milagre de viver como brasileiro
José Igídio dos Santos*

Quando se fala em milagre pensamos em algo incrível e de difícil concretização a não ser com uma intervenção divina. E quando se aplica está perspectiva para os “milagres econômicos” uma expectativa é que este beneficie os pobres, mas o que se verifica é que a melhor fatia do bolo sempre fica com os abastados enriquecidos à custa dos pobres, facilmente silenciados por “esmolas” de planos econômicos de subsistência e não de dignidade.
Na história, o chamado milagre econômico brasileiro se baseava em uma ideologia que inculcava em nossas cabeças: é necessário fazer o bolo crescer para, depois, dividi-lo entre todos. Realmente o fermento da euforia ajudou o bolo a crescer, no entanto, a tão esperada divisão não aconteceu, pois o bolo crescido deveria “alimentar melhor as elites e oligarquias” acentuando o empobrecimento das massas; o povo empobrecido ficou "a ver navios".
No Brasil assistimos uma escandalosa concentração de renda em escala mundial em detrimento das condições de vida com dignidade para a maioria da população empobrecida que vive a mercê das “esmolas governamentais” com a fachada da distribuição de renda.
Vemos que aumentou a multidão dos despossuídos, estes não são vítimas do deserdamento e sim do sistema econômico que privilegia o ter ao ser. Observamos o Brasil ainda em 70º. lugar no IDH, a fome ainda é real para uma grande parte da população que têm benesses de programas governamentais e mesmo assim com uma série de irregularidades.
A situação a que chegamos é grave, vimos o aumento “dos sem” (emprego, saúde, casa, terra, dignidade). Nas grandes cidades a situação de opressão, fome e miséria tomam conta das ruas. Estes, a mercê desta situação partem para a criminalidade operacionando o dito popular "mente vazia, oficina do diabo". Outros, partem para a mendicância como via alternativa às suas necessidades. Muitas vezes estes “pobres coitados” são chamados de vagabundos. O fato é que o Brasil é um país de acentuada desigualdade social. Vimos de um lado a opulência desmedida da burguesia que começam a temer os pobres que sobrevivem apesar da pobreza. Nos noticiários cotidianos vemos o crescente índice de crimes que espanta e apavora a todos. Há um clima de desconfiança e temor geral. A população vive assustada, deprimida, depressiva, o dia-a-dia passa a ser de tortura devido ao risco de assaltos e a proliferação dos seqüestros relâmpagos.
A desconfiança assola o empreendedorismo onde o descrédito acentuou as relações econômicas de insegurança que não está mais ancorada em contratos, estes já não são cumpridos.
O momento da crise econômica mundial revela que a salvação não está na economia e comércio livres e tampouco no poder do Estado como superestrutura, mas no equilíbrio e relações harmônicas entre as duas instâncias sem, contudo, desvalorizar a vida humana e a natureza, nossa casa comum espaço sagrado e inviolável. A economia não pode ser a única reguladora da vida em sociedade, o empreendimento mercadológico e os fluxos de capitais acentuaram a crise econômica mundial demonstrando que é tempo de cultivar valores e bens que dinheiro não compre.
É tarefa de toda a sociedade dar condições de melhorar a qualidade da vida aos cidadãos e cidadãs e para tanto, é necessário a emergência de uma nova ordem econômica mundial. Superar as prédicas e colocar em prática a ética dos valores que foram perdidos, tais como a preocupação com o outro em torno da solidariedade e da partilha. A justiça precisa funcionar, pois o que caracteriza o verdadeiro milagre brasileiro é a paciência inesgotável de seu povo, que apático perdeu a insolência de indignar-se.

*Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Psicopedagogo. Docente na Rede Estadual de São Paulo e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA), Monte Aprazível-SP.

A 1ª. Carta de São Paulo aos Coríntios, hoje

A 1ª. Carta de São Paulo aos Coríntios, hoje
(com adaptações).

Se eu aprender inglês, francês, espanhol, alemão e chinês e dezenas de outros idiomas, mas não souber comunicar como pessoa, de nada valem todas as minhas palavras.

Se eu concluir um curso superior, e frequentar cursos e mais cursos de atualização, mas viver distante dos problemas dos outros, a minha cultura não passa de uma inútil erudição.

Se eu morar no Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste..., mas desconhecer os sofrimentos da minha região, e seguir para as férias para ilhas cristalinas ... ou para o estrangeiro, e nada fizer pela promoção do homem, não sou cristão.

Se eu possuir a melhor casa da minha rua, a roupa mais cara e andar sempre na última moda, e não me lembrar que sou responsável por aqueles que moram na minha cidade, que andam descalços e esfarrapados, sou apenas um manequim colorido.

Se eu passar o fim de semana em festas, “boites” e farras, sem ver a fome, o desemprego, o analfabetismo e a doença, sem escutar o grito abafado do povo que se arrasta à margem da história, não sirvo para nada.

O cristão não foge dos desafios da sua época. Não fica de braços cruzados, de boca fechada, de cabeça vazia. Não tolera a injustiça nem as desigualdades gritantes do nosso mundo.

Luta pela verdade e pela justiça com as armas do AMOR. O cristão não desanima, nem desespera diante das derrotas e das dificuldades, porque sabe que a única coisa que vai sobrar de tudo isso é o AMOR.
(D.A)

Pressupostos teóricos para uma prática pedagógica encantadora do real.

Pressupostos teóricos para uma prática pedagógica encantadora do real.

Prof. José Igídio dos Santos[1]

É tarefa irrenunciável ao educador a atitude filosófica de contemplação e indignação ética. De fato estas duas exigências supõem conexão com os acontecimentos e situações de seu contexto hodierno. Despertar no educando dos tempos atuais um assentimento de atenção e abertura exige um reinventar do processo pedagógico que é o objeto de diálogo deste artigo. A educação precisa ser uma prática pedagógica de sentido existencial e o ambiente escolar deve despertar no educando a vontade de aprender a aprender em conexão com o mundo sem deixar de valorizar suas experiências sensório-motoras.
Tanto o aprender como o educar é alvo de muitas discensões entre muitos educadores, pois estas práticas não indicam caminhos claros de como “ser humano” nos tempos atuais. Faz-se necessário alguns pressupostos teóricos para instaurarmos uma prática pedagógica encantadora do real, que a nosso ver, se encontra na vitalização de um processo de engajamento do educando em seu “quê fazer escolar cotidiano”.
O ensino-aprendizagem precisa ser processual, pois não é um fim em si mesmo. Tornar a tarefa educativa agradável, prazerosa é uma exigência dos tempos atuais. Na escola é necessário desenvolver um espírito científico que emana da curiosidade em busca de respostas às situações- problemas do cotidiano.
Desde as primeiras experiências educacionais (família) os educandos precisam encontrar ambiente que favoreça sua formação. O “boom” educacional começa em casa e acompanha o educando à instituição de ensino. É fundamental que o educando encontre um ambiente familiar que lhe possibilite acesso cultural, condições de tranqüilidade para ler, fazer as obrigações escolares, que se caracterizam em elementos cultivadores e inspiradores da sapiência global. O ato de ler dá condições de o educando capacitar-se para decifrar os códigos de linguagem que a realidade hoje exige com atenção à complexidade do pluralismo cultural, étnico e social aos quais nosso mundo globalizado está submetido.
Propiciar ao educando as mais diversas experiências de aprendizagem constituirá uma grande tarefa aos educadores dos tempos atuais. Pois devemos superar os antigos métodos educacionais (transferência de conhecimentos) para uma compreensão de que ensinar é propiciar situações de aprendizagem que sejam vivenciais e que tenham sentido para as vidas dos educandos, superando a visão conteudista para uma proposta educacional mais humanista e culturalista. A cada momento da nossa existência nossa percepção de mundo vai se ampliando.
É o que acontece quando retomamos uma leitura que fizemos quando éramos infantes, perceberemos novas perspectivas a partir do referencial das experiências obtidas na adolescência, juventude ou idade adulta, o texto adquire “novas cores e sabores”. O mesmo acontece com os filmes que vemos e obras de artes que contemplamos... Isto acontece por que nossa capacidade de abstração amplia-se a partir da convivialidade sócio-cultural.
É tarefa do educador de hoje encontrar o fundamento teórico para sua prática pedagógica, passar da prédica para o processo construtivo de conhecimento, estabelecendo acordos pedagógicos que envolvam o educando no processo educacional. É fundamentando o trabalho pedagógico em conceitos teóricos sólidos que os educadores deverão propor justificativas e objetivos que ultrapassem as propostas alienantes de ensino-aprendizagem que intenta prescindir do processo reflexivo. Na prática, estabelecemos uma relação com o meio cultural e social aperfeiçoando nossa inserção educacional servindo-nos do método empírico e analítico como uma “ação projetada, refletida, consciente, transformadora do natural, do homem e do social". (PEREIRA, Otaviano. O que é teoria, Brasiliense, 2003). Como cita Paulo Freire em seu livro Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, o educador "precisa estar convencido [...] ser seu trabalho uma especificidade humana. [...] a condição humana fundante da educação é precisamente a inclusão de nosso ser histórico [...] produzida e desafiada. [...] como seres programados, mas para aprender e, portanto, para ensinar, para conhecer, intervir [...] em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos". (op. cit, 1996. pp.143, 145, grifo nosso).

[1] Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Psicopedagogo. É Docente na Rede Pública do Estado de São Paulo e na Faculdade de Educação, Ciências e Artes Dom Bosco (FAECA) – Monte Aprazível-SP.