LEITURA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: DO BERÇÁRIO À PRÉ-ESCOLA
Pertencimento, diversidade, repertório cultural e
experiências de linguagem em diálogo com o Currículo Paulista e o LEEI
Prof. Esp. José Igídio dos Santos
RESUMO
O artigo analisa a leitura na Educação Infantil, do
berçário à pré-escola, articulando as perspectivas presentes em dois mapas
conceituais — infância como pertencimento, conhecimento, respeito,
protagonismo, diversidade, representatividade, subjetividade e repertório
cultural; e composição do acervo literário a partir de tipologia, ilustração,
personagens, projeto gráfico e temática — aos fundamentos do Currículo Paulista
e do Programa Leitura e Escrita na Educação Infantil (ProLEEI/LEEI). Defende a
leitura como experiência cultural, estética, relacional e discursiva, integrada
aos direitos de aprendizagem e aos campos de experiências, sem antecipação
mecânica da alfabetização formal. Discute a mediação docente, a seleção crítica
de obras, a progressão das experiências conforme as faixas etárias e o papel da
coordenação pedagógica na formação continuada. Conclui que assegurar o direito
à literatura requer intencionalidade, diversidade, acessibilidade e
continuidade das experiências.
Palavras-chave: Educação Infantil. Leitura literária. Currículo Paulista.
LEEI. Repertório cultural.
ABSTRACT
This article analyzes reading in Early
Childhood Education — from nursery to preschool—by linking perspectives from
two conceptual frameworks — childhood as defined by belonging, knowledge,
respect, agency, diversity, representation, subjectivity, and cultural
repertoire; and the composition of a literary collection based on genre,
illustration, characters, graphic design, and themes — to the foundations of
the *Currículo Paulista* (São Paulo State Curriculum) and the *Programa Leitura
e Escrita na Educação Infantil* (ProLEEI/LEEI). It advocates for reading as a
cultural, aesthetic, relational, and discursive experience, integrated into
learning rights and "fields of experience," without the mechanical,
premature introduction of formal literacy instruction. It discusses the role of
teachers as mediators, the critical selection of literary works, the
progression of experiences according to age groups, and the role of pedagogical
coordination in continuing professional development. It concludes that ensuring
the right to literature requires intentionality, diversity, accessibility, and
the continuity of experiences.
Keywords: Early
Childhood Education. Literary reading. *Currículo Paulista*. LEEI. Cultural
repertoire.
MAPA CONCEITUAL INTEGRADOR
Figura 1 – Integração entre
concepções de infância, critérios de composição do acervo literário, Currículo
Paulista e percurso da leitura do berçário à pré-escola.
Fonte: elaboração visual baseada nos dois mapas conceituais fornecidos e na articulação pedagógica discutida neste artigo.
O Currículo Paulista compreende a Educação Infantil
como etapa que articula os saberes e as experiências das crianças ao patrimônio
cultural, artístico, científico e tecnológico, em contextos de interações e
brincadeiras (SÃO PAULO, 2019). Em convergência, a Base Nacional Comum
Curricular (BNCC) reconhece os direitos de conviver, brincar, participar,
explorar, expressar e conhecer-se e organiza o currículo por campos de
experiências (BRASIL, 2018). O ProLEEI, instituído pela Portaria MEC nº
85/2025, reforça a importância de práticas intencionais de oralidade, leitura e
escrita, respeitando as especificidades da infância (BRASIL, 2025).
Este artigo articula tais fundamentos às perspectivas representadas nas imagens de referência. O primeiro mapa situa a infância no cruzamento entre pertencimento, conhecimento, respeito, protagonismo, diversidade, representatividade, subjetividade e repertório cultural. O segundo destaca dimensões que orientam a seleção e a leitura de obras: tipologia, ilustração, personagens, projeto gráfico e temática. Em conjunto, esses elementos ajudam a compreender que formar leitores é organizar experiências que reconheçam cada criança como sujeito de direitos, linguagem e cultura.
2 INFÂNCIA, PERTENCIMENTO E DIREITOS DE APRENDIZAGEM
Protagonismo não significa deixar a criança sozinha
diante do livro, mas garantir oportunidades reais de escolha, iniciativa e
interpretação, com mediação sensível do adulto. Diversidade e
representatividade exigem um acervo que ultrapasse personagens e modos de vida
únicos, incluindo diferentes culturas, configurações familiares,
características físicas, territórios, línguas e formas de participação social.
Subjetividade, por sua vez, lembra que uma mesma história pode despertar
lembranças, emoções e interpretações distintas. O repertório cultural se amplia
quando a escola oferece obras, autores, gêneros e experiências que nem sempre
estão disponíveis no cotidiano de todas as famílias.
Essa perspectiva dialoga com os direitos de aprendizagem do Currículo Paulista e da BNCC. Ao conviver e participar, a criança escuta e compartilha interpretações; ao brincar, recria personagens e enredos; ao explorar, observa imagens, palavras, sons e materiais; ao expressar, narra e comunica sentidos; ao conhecer-se, pode reconhecer aspectos de sua história e identidade nas obras. A leitura, portanto, atravessa os direitos de aprendizagem e não se limita a uma atividade isolada na rotina.
3 OS CAMPOS DE EXPERIÊNCIAS COMO ESTRUTURA PARA A LEITURA
Em ‘Traços, sons, cores e formas’, as crianças podem
observar a linguagem visual, as escolhas dos ilustradores, as cores, os traços,
a composição das páginas e as relações entre imagem e texto. No campo ‘Corpo,
gestos e movimentos’, histórias podem ganhar expressão por meio de gestos,
dramatizações, movimentos, jogos de imitação e exploração de ritmos. Já em
‘Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações’, livros informativos,
narrativas sobre natureza, lugares, fenômenos e cotidiano podem estimular
observação, comparação, perguntas e investigação.
Essa articulação não significa que toda leitura precise gerar uma atividade para cada campo de experiência. O princípio é preservar a integridade estética da obra e, ao mesmo tempo, perceber as múltiplas experiências que ela pode mobilizar. A literatura não deve ser instrumentalizada exclusivamente para ensinar cores, números, regras ou conteúdo; sua potência está também na linguagem, na ambiguidade, no humor, na emoção e na liberdade interpretativa.
4 DO BERÇÁRIO À PRÉ-ESCOLA: CONTINUIDADE COM ESPECIFICIDADES
No Maternal I e no Maternal II, ampliam-se as
oportunidades de escolha, manuseio, antecipação e conversa. As crianças podem
apontar personagens, completar trechos familiares, relacionar a história ao
cotidiano, brincar de recontar e dramatizar cenas. A repetição de um livro
conhecido permite perceber novos detalhes e participar com crescente autonomia.
Cabe ao professor fazer perguntas abertas, acolher interpretações inesperadas e
evitar transformar o encontro literário em uma sequência rígida de perguntas de
compreensão.
No Jardim e na pré-escola, as crianças podem
participar de rodas de conversa sobre livros, recontos, ditados de histórias ao
professor, criação coletiva de narrativas, exploração de títulos e nomes de
autores, listas de recomendações e circulação de livros entre espaços da escola
e famílias. Essas práticas aproximam as crianças das funções sociais da
escrita, sem antecipar exercícios mecânicos de alfabetização. O professor
registra falas, hipóteses, escolhas e modos de participação para compreender
percursos e planejar novas oportunidades, não para classificar as crianças.
A continuidade curricular, assim, não consiste em
repetir a mesma proposta em todas as turmas, mas em ampliar gradualmente as
possibilidades de interação com a literatura, respeitando as singularidades de
cada faixa etária. O acesso aos livros precisa ser cotidiano, intencional e
inclusivo, com alternativas de participação para crianças com diferentes
necessidades comunicacionais, sensoriais ou de mobilidade.
A ilustração não é mero ornamento: dialoga com o
texto, acrescenta informações, cria atmosferas e pode abrir interpretações que
não estão explicitadas nas palavras. O projeto gráfico — formato, tamanho,
composição, disposição das páginas, tipografia, material e relação entre texto
e imagem — influencia como a obra é explorada, sobretudo por bebês e crianças
pequenas. Por isso, a qualidade visual e material precisa ser considerada junto
com a narrativa, e não como substituta dela.
Os personagens e as temáticas também exigem leitura
crítica. Um acervo plural oferece protagonismos diversos, representa diferentes
corpos, culturas, famílias e contextos e evita imagens estereotipadas ou
discriminatórias. As temáticas podem incluir amizade, medo, cuidado, natureza,
relações familiares, diferenças, humor, aventura e questões do cotidiano, mas a
seleção deve preservar a complexidade da obra e a liberdade de interpretação.
Representatividade não é apenas incluir personagens diversos: é assegurar que
sejam apresentados com dignidade, agência e profundidade.
A composição do acervo é, portanto, uma decisão
pedagógica e ética. A escola precisa observar quais vozes aparecem, quais estão
ausentes, que experiências são valorizadas e que oportunidades as crianças têm
de escolher e revisitar livros. A qualidade de uma biblioteca de sala não se
mede apenas pelo número de títulos, mas pela diversidade, circulação,
acessibilidade e presença efetiva das obras nas experiências diárias.
Os registros pedagógicos — anotações de falas,
fotografias contextualizadas, desenhos, recontos e observações sobre escolhas —
ajudam a compreender como as crianças participam e como a mediação pode ser
aprimorada. Esses registros devem respeitar a privacidade e a dignidade
infantil e servir ao planejamento, não à exposição ou à classificação. A
coordenação pedagógica pode articular estudos sobre obras, rodas de leitura
entre profissionais, análise dos acervos, planejamento por faixa etária e
compartilhamento de práticas, aproximando formação teórica e cotidiano
institucional.
O ProLEEI tem como finalidade fortalecer a formação
continuada de profissionais da Educação Infantil, com foco no desenvolvimento
da linguagem oral, da leitura e da escrita e no reconhecimento das especificidades
da etapa (BRASIL, 2025). Em articulação com o Currículo Paulista, essa formação
pode sustentar uma política institucional de leitura que envolva todas as
turmas, do berçário à pré-escola, assegurando continuidade sem uniformização e
compromisso coletivo com o direito à literatura.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A articulação entre os mapas conceituais, o Currículo Paulista e os fundamentos do LEEI permite compreender a leitura como experiência que integra linguagem, identidade, cultura, imaginação, relações e participação. Pertencimento, respeito, protagonismo, diversidade, representatividade, subjetividade e repertório cultural tornam-se princípios pedagógicos quando orientam a escolha das obras, a organização dos espaços, a mediação e as oportunidades de participação das crianças.
Do berçário à pré-escola, a tarefa da instituição não
é antecipar a alfabetização formal, mas garantir encontros cotidianos e
significativos com a literatura e com as práticas sociais de linguagem. Isso
requer acervos diversos e de qualidade, professores leitores, escuta sensível,
registros reflexivos e formação continuada. Ler com as crianças é reconhecer
que elas já interpretam o mundo e oferecer novas linguagens, narrativas e
perspectivas para que possam ampliá-lo, expressá-lo e transformá-lo.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum
Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em:
https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf.
Acesso em: 21 out. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Portaria MEC nº 85, de
31 de janeiro de 2025. Institui o Programa de Formação Continuada Leitura e
Escrita na Educação Infantil (ProLEEI). Diário Oficial da União: Brasília, DF,
4 fev. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/crianca-alfabetizada/Demanda1614PORTARIAMECN85DE31DEJANEIRODE2025.pdf.
Acesso em: 21 out. 2026.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo
Paulista: Educação Infantil e Ensino Fundamental. São Paulo: SEDUC-SP, 2019.
Disponível em: https://efape.educacao.sp.gov.br/curriculopaulista/etapas-educacao-infantil/.
Acesso em: 21 out. 2026.

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